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ABJC ampliara' discussões entre jornalistas e cientistas

Ulisses Capozoli*

      Num pais sem tradição cientifica, como o Brasil, seria insólito esperar que o jornalismo cientifico pudesse ter raízes mais profundas no tempo e no espaço. Ainda assim, ocorreram progressos nos últimos 20 anos e a produção brasileira nessa área certamente e' a mais significativa da América Latina. Mas isso não significa ausência de problemas. Uma das maiores dificuldades de jovens jornalistas empenhados em divulgação cientifica é ouvir de pesquisadores a acusação de que "jornalistas distorcem declarações".
      Jornalistas podem se equivocar e, não necessariamente, se pautarem, todos, pela ética profissional. Mas seriam os únicos a cometerem deslizes deste tipo?
      Estamos iniciando um mandato de dois anos à frente da Associação Brasileira de Jornalismo Cientifico (ABJC) e nossa determinação, longe de justificar atitudes injustificáveis, e' superar desencontros desse tipo.
      O desencontro que pode existir entre jornalistas e pesquisadores científicos certamente e' resultado, muito mais, do nível de alfabetização cientifica na sociedade brasileira que de qualquer outra razão. Isso significa a existência de problemas dos dois lados.
      Jornalistas devem repensar sua formação. O jornalismo interpretativo, alternativa para enfrentar a Internet, exige outro tipo de profissional, com formação mais ampla e consistente. Exige ainda nova relação interpessoal nas redações.
      O ambiente de trabalho nas redações neste momento e' dominado por atitudes autoritárias e expectativas tensas. Ha' uma ordem superada que não se esgotou e outra que ainda não se firmou.
      Na academia as coisas não estão diferentes. Mensurar a produção cientifica quantitativamente, certamente não e' um critério único e, talvez, nem o mais desejável. Comemorar eventos isolados também não.
      O que não significa, como aconteceu com o jornalismo cientifico, que não tenham ocorrido avanços interessantes ao longo dos últimos 20 anos. Além disso, pesquisadores científicos também se ressentem de formação mais consistente, especialmente em historia e filosofia da ciência.
      Um descaso com a natureza do conhecimento, por precária consistência epistemológica, certamente pode ser entendido como uma forma de analfabetismo cientifico. E esse e' um problema mais serio que pode parecer à primeira vista.
      Gerações anteriores de pesquisadores científicos, como também aconteceu no jornalismo, tiveram formação mais ampla e arejada, para se fazer uma consideração sumária.
      E se aconteceu um esvaziamento cultural, tanto na Universidade quanto na imprensa, a lógica monoteísta do mercado, mandamento básico do neoliberalismo, não acena com tempos menos áridos no futuro imediato.
      Por tudo isso, nestes dois anos na ABJC, estaremos empenhados em iniciar uma superação dessas limitações. Para isso é necessária uma aproximação entre jornalistas e pesquisadores científicos.
      Francis Bacon, pai teórico da ciência ocidental, pensador metódico mas não reducionista, previu em seus escritos que a ciência pode e deve melhorar a sorte precária dos homens.
      Numa sociedade com memória escravista, como a nossa, conquistas desse tipo podem ser mais difíceis. Mas não impossíveis.

OBS: Artigo publicado originalmente no "JC E-Mail", jornal eletrônico da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em janeiro de 2.001.

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*Ulisses Capozoli, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Cientifico (ABJC), e' jornalista e historiador da ciência.

 
 
 
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