Leia Promessas do Genoma,
de Marcelo Leite, obra recém publicada pela Editora
da Unesp. Você vai perceber que não são
apenas os jornalistas que cometem equívocos ou adoram
metáforas.
A literatura em Jornalismo
Científico acaba de ser contemplada com uma contribuição
inquestionavelmente relevante: a publicação
pela Editora Unesp de Promessas do Genoma, de Marcelo Leite,
um dos mais lúcidos e atuantes jornalistas científicos
brasileiros e que nos têm brindado com colunas imperdíveis
no Caderno Mais! da Folha de S. Paulo.
O livro é fruto
de sua tese de doutorado defendida em 2005 na Unicamp e
trata de uma questão fundamental para a ciência
e a divulgação científica contemporâneas:
a emergência, por ação de interesses
extracientíficos, de uma visão triunfalista
da ciência e da tecnologia. Marcelo Leite refere-se
especificamente à disseminação de noções
deterministas acerca do papel dos genes não apenas
por jornalistas mal informados mas por pesquisadores e cientistas
ilustres e por revistas de prestígio.
Analisando a divulgação
do Projeto Genoma Humano (PGH), o jornalista e pesquisador
identificou metáforas cunhadas pelos próprios
cientistas e que servem sobretudo para reforçar as
“maravilhas do DNA”, legitimando expressões
como “o livro da vida”, amplamente (e também
equivocadamente) apropriadas pelo Jornalismo Científico.
Demonstrou, com sucessivas referências aos discursos
dos pesquisadores, que essa visão determinista não
foi, portanto, resultado da interpretação
dos mediadores (jornalistas científicos neste caso),
mas engendrada pela própria comunidade científica,
mobilizada para proclamar o sucesso desta ruidosa empreitada.
Marcelo Leite defende
e prova a tese de que “a comoção e a
aceitação públicas produzidas pelo
Projeto Genoma Humano só se explicam pela mobilização
retórica e política, nas interfaces com a
esfera pública leiga, de um determinismo genético
crescentemente inconciliável com os resultados empíricos
obtidos no curso da própria pesquisa genômica”.
A leitura do trabalho
de Marcelo Leite convida à reflexão e serve
como advertência: é preciso ter em mente que
existe uma nova cultura científica e que ela está
contaminada por outros interesses que não os estritamente
advogados pela ciência. Os jornalistas científicos
precisam enxergar além da notícia.
Em tempo:
1) é ilustrativo consultar também a este respeito
o texto O Jornalismo Cientifico e as duas culturas, de Maurício
Tuffani, em seu blog: laudascriticas.blogspot.com;
2) Não deixe de consultar também o blog do
Maurício Leite: cienciaemdia.zip.net
Lá encontrará mais informações
e comentários sobre o livro.