Ano I - Nº 01 - Abril de 2007

:: Promessas do Genoma

 

      Leia Promessas do Genoma, de Marcelo Leite, obra recém publicada pela Editora da Unesp. Você vai perceber que não são apenas os jornalistas que cometem equívocos ou adoram metáforas.

      A literatura em Jornalismo Científico acaba de ser contemplada com uma contribuição inquestionavelmente relevante: a publicação pela Editora Unesp de Promessas do Genoma, de Marcelo Leite, um dos mais lúcidos e atuantes jornalistas científicos brasileiros e que nos têm brindado com colunas imperdíveis no Caderno Mais! da Folha de S. Paulo.

      O livro é fruto de sua tese de doutorado defendida em 2005 na Unicamp e trata de uma questão fundamental para a ciência e a divulgação científica contemporâneas: a emergência, por ação de interesses extracientíficos, de uma visão triunfalista da ciência e da tecnologia. Marcelo Leite refere-se especificamente à disseminação de noções deterministas acerca do papel dos genes não apenas por jornalistas mal informados mas por pesquisadores e cientistas ilustres e por revistas de prestígio.

      Analisando a divulgação do Projeto Genoma Humano (PGH), o jornalista e pesquisador identificou metáforas cunhadas pelos próprios cientistas e que servem sobretudo para reforçar as “maravilhas do DNA”, legitimando expressões como “o livro da vida”, amplamente (e também equivocadamente) apropriadas pelo Jornalismo Científico. Demonstrou, com sucessivas referências aos discursos dos pesquisadores, que essa visão determinista não foi, portanto, resultado da interpretação dos mediadores (jornalistas científicos neste caso), mas engendrada pela própria comunidade científica, mobilizada para proclamar o sucesso desta ruidosa empreitada.

      Marcelo Leite defende e prova a tese de que “a comoção e a aceitação públicas produzidas pelo Projeto Genoma Humano só se explicam pela mobilização retórica e política, nas interfaces com a esfera pública leiga, de um determinismo genético crescentemente inconciliável com os resultados empíricos obtidos no curso da própria pesquisa genômica”.

      A leitura do trabalho de Marcelo Leite convida à reflexão e serve como advertência: é preciso ter em mente que existe uma nova cultura científica e que ela está contaminada por outros interesses que não os estritamente advogados pela ciência. Os jornalistas científicos precisam enxergar além da notícia.

Em tempo:
1) é ilustrativo consultar também a este respeito o texto O Jornalismo Cientifico e as duas culturas, de Maurício Tuffani, em seu blog: laudascriticas.blogspot.com;
2) Não deixe de consultar também o blog do Maurício Leite: cienciaemdia.zip.net Lá encontrará mais informações e comentários sobre o livro.

 
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