Wilson da Costa Bueno*
A maioria das pessoas
ainda acredita que a ciência e a tecnologia estão
definitivamente isentas do processo de contaminação
a que outras atividades têm estado submetidas por
interesse de pessoas, grupos , entidades ou governos. Julgam-nas
além de qualquer suspeita, esquecidas de que, como
fruto da atividade humana, podem estar vulneráveis
a pressões diversas (algumas insuportáveis),
como os interesses econômicos ou comerciais, políticos
ou militares, para só citar os de maior relevância.
Mas pouco a pouca esta
visão romântica da ciência e da tecnologia
vai caindo por terra. Medicamentos aprovados por órgãos
tidos como de absoluta independência, como o poderoso
FDA, mostram-se perigosos para o consumo humano e são
retirados do mercado. E, em muitos casos, como o do Vioxx,
da Merck, ficou patente não apenas a má intenção
(deslizes éticos são comuns na indústria
da saúde!) do laboratório (que inclui em seu
staff vários prêmios Nobel) como a omissão
do órgão de fiscalização. A
indústria agroquímica continua negando o impacto
dramático dos agrotóxicos (que insistem em
chamar cinicamente de defensivos) enquanto milhares de brasileiros
(e milhões de cidadãos em todo o mundo) acumulam
doenças e morrem, conforme atestam as estatísticas
(subestimadas por vários motivos) da ANVISA. A indústria
de biotecnologia mobiliza um lobby fantástico para
a aprovação dos transgênicos e o debate,
travestido de legitimidade científica, é respaldado
por empresas monopolistas, como a Monsanto. O Governo Bush,
como o apoio da Exxon, continua negando a dramaticidade
do impacto do efeito estufa e sistematicamente tem manipulado
os resultados a respeito do poder nefasto dos combustíveis
fósseis e da ação humana na crise do
clima.
Recentemente, pesquisa
publicada pela revista científica PLoS Medicine,
dos EUA, chamou a atenção da sociedade e dos
jornalistas para a manipulação ostensiva das
pesquisas na área de nutrição, financiadas
pelas grandes empresas do setor alimentício e de
bebidas.
Segundo reportagem
publicada no Financial Times e reproduzida pela Folha de
S. Paulo em 9 de janeiro de 2007, há um evidente
conflito de interesses nos diversos relatos de pesquisas
patrocinadas pelas empresas destas áreas. Em geral,
os artigos publicados entre 1999 e 2003 e que tinham o apoio
de representantes do setor de sucos, refrigerantes e bebidas
lácteas mostraram-se oito vezes mais favoráveis
às empresas (que os financiaram logicamente) do que
os trabalhos realizados independentemente, ou seja financiados
pelo dinheiro público.
Como asssinala o autor
da matéria do Financial Times, Andrew Jack, citando
o professor de pediatria do Hospital da Criança em
Boston, David Ludwig, “ esses dados indicam que o
conflito de interesses pode produzir um impacto negativo
na saúde pública”. Essa é a estratégia
usual da indústria farmacêutica e durante muito
tempo foi também a da indústria tabagista
que, criminosamente, negou os riscos do consumo de tabaco
(que nunca desconheceu) até ser pressionada pelas
evidências e pela sociedade.
O pesquisador do Hospital
da Criança de Boston reconhece que há pesquisadores
dedicados e éticos (quem poderia negar isso, não
é verdade?) mas adverte para a sedução
provocada pelo dinheiro da indústria quando as verbas
públicas se tornam escassas.
Muitos pesquisadores
reagiram ao resultado do estudo publicado na PLoS
Medicine com a alegação de que já
produziram artigos com resultados negativos para o Setor,
mesmo em investigações patrocinadas por indústrias,
mas há aí uma meia-verdade. Em geral, os resultados
desfavoráveis a que se referem não têm
a ver diretamente com a empresa patrocinadora, mas com outras
organizações, muitas vezes sua concorrente,
o que também reforça a tese de que a independência,
em muitos casos, é apenas ilusória.
Sem ser leviano de
generalizar estas conclusões, seja para a área
de nutrição como um todo, seja para qualquer
outra área, é preciso ter em mente que as
empresas, ao patrocinarem as pesquisas, buscam antes de
tudo gerar resultados que as favoreçam e há
exemplos freqüentes de manipulação de
resultados ou de sigilo (silêncio mortal) quando eles
parecem não estar de acordo com os seus interesses.
Não hesitam mesmo em impedir a veiculação
de informações que as contrariem e esse fato
tem sido denunciado, há muito tempo, pela própria
comunidade científica.
É preciso suspeitar
sempre das pesquisas que envolvam produtos e que tendem
a valorizar alguns em detrimento de outros, especialmente
quando são financiados por empresas (o que é
o mais comum) que têm a ganhar com essa divulgação
positiva. Certamente, encontrarão sempre agências
de comunicação/ RP e assessorias dispostas
a este trabalho de manipulação. Algumas dessas
agências se especializaram neste tipo de clientela
e são recrutados por ela em virtude de sua competência
para envolver jornalistas e divulgadores científicos,
suficientemente ingênuos para acreditarem que a ciência
está isenta desses interesses extracientíficos.
O bom jornalista científico
precisa enxergar além da notícia e suspeitar
sempre deste tipo particular de divulgação.
Os transgênicos
fazem sucesso na África do Sul ou na Argentina. O
antidepressivo “tal” é o que tem menor
efeito colateral ou não efeito colateral algum. O
McDonald´s promove uma comida saudável (e poderia
também patrocinar show humorísticos!) e assim
por diante. Você já leu isso em algum lugar,
não é mesmo?
Não há
ciência alguma que respalde essas afirmações,
mas apenas marketing, quase sempre descomprometido com a
verdade, a ética e a cidadania. Essa divulgação
não faz parte do Jornalismo Científico e os
jornalistas que cobrem a área deveriam recusá-la
terminantemente. “Pagar o mico” nessa área
é comprometer a própria imagem ou reputação.
Desconfie sempre dos “a convite de”, não
acredite jamais que todo congresso ou evento científico
realmente tenha essa característica (quem patrocina
o evento e a sua própria viagem?) e fique de olho
aberto.
Se estiver tentado
a acreditar no que diz a Monsanto, a Souza Cruz ou Philip
Morris, a Bayer, a maioria das empresas da chamada Big Pharma
, resista, consulte a Web, dê um passo atrás.
Com certeza, atrás do release encontrará um
gigante de boa aberta, sedento e ganancioso. No caso do
McDonald´s e suas pregações “nutricionais”,
desconfie do palhaço que o representa para não
se tornar um clone dele. Falando nisso, você já
assistiu ao The Corporation ou Super Size me?
*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor
do Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social da UMESP e professor de Jornalismo da ECA/USP. Diretor
da Comtexto Comunicação e Pesquisa.