Ano I - Nº 01 - Abril de 2007

:: Os interesses extracientíficos contaminam a ciência

Wilson da Costa Bueno*

      A maioria das pessoas ainda acredita que a ciência e a tecnologia estão definitivamente isentas do processo de contaminação a que outras atividades têm estado submetidas por interesse de pessoas, grupos , entidades ou governos. Julgam-nas além de qualquer suspeita, esquecidas de que, como fruto da atividade humana, podem estar vulneráveis a pressões diversas (algumas insuportáveis), como os interesses econômicos ou comerciais, políticos ou militares, para só citar os de maior relevância.

      Mas pouco a pouca esta visão romântica da ciência e da tecnologia vai caindo por terra. Medicamentos aprovados por órgãos tidos como de absoluta independência, como o poderoso FDA, mostram-se perigosos para o consumo humano e são retirados do mercado. E, em muitos casos, como o do Vioxx, da Merck, ficou patente não apenas a má intenção (deslizes éticos são comuns na indústria da saúde!) do laboratório (que inclui em seu staff vários prêmios Nobel) como a omissão do órgão de fiscalização. A indústria agroquímica continua negando o impacto dramático dos agrotóxicos (que insistem em chamar cinicamente de defensivos) enquanto milhares de brasileiros (e milhões de cidadãos em todo o mundo) acumulam doenças e morrem, conforme atestam as estatísticas (subestimadas por vários motivos) da ANVISA. A indústria de biotecnologia mobiliza um lobby fantástico para a aprovação dos transgênicos e o debate, travestido de legitimidade científica, é respaldado por empresas monopolistas, como a Monsanto. O Governo Bush, como o apoio da Exxon, continua negando a dramaticidade do impacto do efeito estufa e sistematicamente tem manipulado os resultados a respeito do poder nefasto dos combustíveis fósseis e da ação humana na crise do clima.

      Recentemente, pesquisa publicada pela revista científica PLoS Medicine, dos EUA, chamou a atenção da sociedade e dos jornalistas para a manipulação ostensiva das pesquisas na área de nutrição, financiadas pelas grandes empresas do setor alimentício e de bebidas.

      Segundo reportagem publicada no Financial Times e reproduzida pela Folha de S. Paulo em 9 de janeiro de 2007, há um evidente conflito de interesses nos diversos relatos de pesquisas patrocinadas pelas empresas destas áreas. Em geral, os artigos publicados entre 1999 e 2003 e que tinham o apoio de representantes do setor de sucos, refrigerantes e bebidas lácteas mostraram-se oito vezes mais favoráveis às empresas (que os financiaram logicamente) do que os trabalhos realizados independentemente, ou seja financiados pelo dinheiro público.

      Como asssinala o autor da matéria do Financial Times, Andrew Jack, citando o professor de pediatria do Hospital da Criança em Boston, David Ludwig, “ esses dados indicam que o conflito de interesses pode produzir um impacto negativo na saúde pública”. Essa é a estratégia usual da indústria farmacêutica e durante muito tempo foi também a da indústria tabagista que, criminosamente, negou os riscos do consumo de tabaco (que nunca desconheceu) até ser pressionada pelas evidências e pela sociedade.

      O pesquisador do Hospital da Criança de Boston reconhece que há pesquisadores dedicados e éticos (quem poderia negar isso, não é verdade?) mas adverte para a sedução provocada pelo dinheiro da indústria quando as verbas públicas se tornam escassas.

      Muitos pesquisadores reagiram ao resultado do estudo publicado na PLoS Medicine com a alegação de que já produziram artigos com resultados negativos para o Setor, mesmo em investigações patrocinadas por indústrias, mas há aí uma meia-verdade. Em geral, os resultados desfavoráveis a que se referem não têm a ver diretamente com a empresa patrocinadora, mas com outras organizações, muitas vezes sua concorrente, o que também reforça a tese de que a independência, em muitos casos, é apenas ilusória.

      Sem ser leviano de generalizar estas conclusões, seja para a área de nutrição como um todo, seja para qualquer outra área, é preciso ter em mente que as empresas, ao patrocinarem as pesquisas, buscam antes de tudo gerar resultados que as favoreçam e há exemplos freqüentes de manipulação de resultados ou de sigilo (silêncio mortal) quando eles parecem não estar de acordo com os seus interesses. Não hesitam mesmo em impedir a veiculação de informações que as contrariem e esse fato tem sido denunciado, há muito tempo, pela própria comunidade científica.

      É preciso suspeitar sempre das pesquisas que envolvam produtos e que tendem a valorizar alguns em detrimento de outros, especialmente quando são financiados por empresas (o que é o mais comum) que têm a ganhar com essa divulgação positiva. Certamente, encontrarão sempre agências de comunicação/ RP e assessorias dispostas a este trabalho de manipulação. Algumas dessas agências se especializaram neste tipo de clientela e são recrutados por ela em virtude de sua competência para envolver jornalistas e divulgadores científicos, suficientemente ingênuos para acreditarem que a ciência está isenta desses interesses extracientíficos.

      O bom jornalista científico precisa enxergar além da notícia e suspeitar sempre deste tipo particular de divulgação.

      Os transgênicos fazem sucesso na África do Sul ou na Argentina. O antidepressivo “tal” é o que tem menor efeito colateral ou não efeito colateral algum. O McDonald´s promove uma comida saudável (e poderia também patrocinar show humorísticos!) e assim por diante. Você já leu isso em algum lugar, não é mesmo?

      Não há ciência alguma que respalde essas afirmações, mas apenas marketing, quase sempre descomprometido com a verdade, a ética e a cidadania. Essa divulgação não faz parte do Jornalismo Científico e os jornalistas que cobrem a área deveriam recusá-la terminantemente. “Pagar o mico” nessa área é comprometer a própria imagem ou reputação. Desconfie sempre dos “a convite de”, não acredite jamais que todo congresso ou evento científico realmente tenha essa característica (quem patrocina o evento e a sua própria viagem?) e fique de olho aberto.

      Se estiver tentado a acreditar no que diz a Monsanto, a Souza Cruz ou Philip Morris, a Bayer, a maioria das empresas da chamada Big Pharma , resista, consulte a Web, dê um passo atrás. Com certeza, atrás do release encontrará um gigante de boa aberta, sedento e ganancioso. No caso do McDonald´s e suas pregações “nutricionais”, desconfie do palhaço que o representa para não se tornar um clone dele. Falando nisso, você já assistiu ao The Corporation ou Super Size me?

*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e professor de Jornalismo da ECA/USP. Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

 
Home