Wilson da Costa Bueno*
Inúmeros jornais
e revistas brasileiros têm mantido com sucesso, desde
longa data, suplementos destinados às crianças
e jovens, geralmente encartados nas suas edições
de fins de semana. Embora alguns tenham sido inspirados
em uma proposta essencialmente mercadológica, constituem-se
(e a sua permanência no mercado indica isso) em espaços
importantes de interação com esse segmento
de leitores.
O conteúdo destes
suplementos é bastante diverso e a sua temática
abrange atualidades, educação, ciências,
literatura, variedades etc, ou seja, um leque bastante amplo
e que varia em termos da prioridade definida pela sua política
editorial.
Para os jornalistas
e divulgadores científicos, interessa-nos especialmente
observar o espaço (quantidade de inserção)
e a qualidade das informações sobre ciência
e tecnologia presentes nestes veículos.
As pesquisas em comunicação
em geral que têm esses veículos como objeto
não são comuns no Brasil, mas pelo menos a
ANDI – Agência Notícias dos Direitos
da Infância tem se preocupado com o seu impacto e
contribuição na formação dos
jovens e crianças brasileiras A pesquisa Mídia
dos Jovens, já repetida em algumas oportunidades,
analisa, entre outras mídias, a relevância
social das notícias inseridas nos suplementos infantis
.
A ciência e
a tecnologia, em particular associadas á divulgação
de notícias de saúde e mais recentemente de
meio ambiente, já ocupam papel de destaque nestas
publicações e, ao contrário do que
se poderia supor, o uso de fontes especializadas tem crescido,
indicando que as informações estão
gradativamente sendo qualificadas nestas áreas.
Apesar disso, alguns
problemas e desafios precisam ainda ser superados e muitos
deles têm sido apontados pelos relatórios da
ANDI.
Em primeiro lugar,
muitos suplementos infantis não têm bem definido
o seu público, ou seja, não sabem se estão
se dirigindo a crianças de 8, 10 ou 12 anos e esse
dado é fundamental. Afinal de contas, dois ou 4 anos
fazem uma diferença enorme neste período da
vida porque implicam maior ou menor experiência de
vida, volume e nível de informações
distintos e, o que é mais importante para os comunicadores,
dependendo da idade serão necessários conteúdos
(pautas, para usar o jargão jornalístico)
e discursos também distintos.
Em segundo lugar,
alguns suplementos imaginam a criança ou o jovem
a partir de uma perspectiva tradicional e subestimam a sua
capacidade de compreender ou de se interessar por determinados
temas, preferindo adotar uma visão simplista. Repetem
os papais e mamães que insistem em se comunicar com
as crianças como se elas fossem eternos bebês,
o que, numa sociedade da informação como a
que vivemos, é totalmente inadequado.
Em terceiro lugar,
praticam a chamada pedagogia da verdade, isto é,
apresentam os fatos como se fossem verdades incontestáveis,
não estimulando a reflexão, o debate em torno
de questões complexas e que não deveriam ser
tratadas como “questões fechadas”. Ao
longo de sua vida, os jovens irão, gradativamente,
percebendo que há sempre visões distintas
(muitas vezes antagônicas) sobre um mesmo problema
e isso ficará evidente nas discussões sobre
células-tronco, aborto, uso da camisinha, vantagens
ou desvantagens dos transgênicos, eficácia
da homeopatia etc.
As pesquisas da ANDI,
particularmente o Relatório de 2002, demonstram também
uma preocupação que deveria ser levada absolutamente
a sério: o fato de algumas matérias dos suplementos
infantis incluirem, de forma velada, mensagens comerciais,
ou seja, estarem sutilmente (pelo menos para as crianças,
já que não é difícil para adultos
atentos perceberem a má intenção destas
inserções) promovendo a venda de produtos.
A separação
entre o que é conteúdo editorial, independente,
comprometido com a cidadania e a relevância social
e o que é publicidade deveria estar clara, mas, infelizmente,
os nossos empresários da comunicação
e editores, em sua maioria, insistem em promover esta confusão
ou ambigüidade para atender a interesses de empresas
inescrupulosas ou não éticas. E isso não
acontece apenas nos suplementos infantis mas nos veículos
como um todo.
O marketing voltado
para as crianças tem causado um terrível prejuízo
para esse segmento, estimulando o consumo não consciente
e criando hábitos não saudáveis (como
tem sido o caso de empresas que fazem a apologia do fast-food
e de bebidas sem qualquer valor nutritivo).
Os suplementos infantis
deveriam ser considerados pelos jornalistas científicos
como veículos importantes e seria importante que
os pesquisadores nas universidades ou fora dela os estudassem
melhor e que os profissionais os contemplassem como espaços
importantes para a alfabetização científica.
Um equívoco
importante, no entanto, é imaginar que os suplementos
infantis possam ser utilizados para “aula de ciências”
porque se constituem, antes de tudo, em um espaço
aberto, livre, criativo que deve promover o estímulo
à leitura. Aqui, mais do que nunca, o jornalista
científico deve refinar a sua capacidade de contar
histórias, de reforçar conceitos e de trazer
informações ou conhecimentos que estejam em
sintonia com a realidade de vida dos pequenos leitores.
Por isso, antes de tudo, é preciso conhecê-los
melhor, interagir com eles. O bom suplemento infantil não
será jamais aquele que é feito para as crianças,
mas com as crianças. Aí está um desafio
prazeroso que valeria a pena encarar.
*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor
do Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social da UMESP e professor de Jornalismo da ECA/USP. Diretor
da Comtexto Comunicação e Pesquisa.