A ciência e a
tecnologia estão a serviço da humanidade e
representam, em essência, a expressão do talento
humano colocado a serviço da humanidade.
Pensando bem, você
endossaria, sem pestanejar, essa afirmação?
Se respondeu sim, talvez seja melhor, como diz a campanha
publicitária, rever os seus conceitos.
A ciência e a
tecnologia são, em essência, mercadorias e
estão associadas quase sempre a poder, prestígio
controle, sigilo, dominação e dinheiro, muito
dinheiro. Evidentemente, não se pode questionar,
de maneira leviana, a capacidade criativa e, em alguns casos,
a genialidade do ser humano , particularmente daqueles que
se dedicam à tarefa nobre da pesquisa, da investigação
científica, da afirmação da razão
sobre a ignorância. Não se pode condenar todas
as tecnologias e todos os produtores de tecnologias, porque,
felizmente, há muitas exceções a exaltar.
Não se pode enxergar em cada pesquisador ou cientista
um intenção malévola porque, sobretudo
nos nossos principais institutos de pesquisa e universidades,
há pessoas dedicadas e comprometidas com o País.
Mas vamos devagar com o andor: pesquisador não é
sinônimo de benfeitor e ciência e tecnologia
não se confundem com altruísmo ou justiça
social.
O que é importante
destacar é que a ciência e a tecnologia não
estão, como se pode imaginar, à disposição
de todos e, além dos excluídos – por
vários motivos – de suas benesses, há
também (cada vez mais intensamente) o mau uso da
tecnologia. Não precisamos recorrer aos horrores
das guerras (a indústria bélica é a
que recebe maiores investimentos em pesquisa ) e a episódios
dramáticos como o da bomba de Hiroshima e o agente
laranja que vitimou milhares de pessoas no Vietnã.
Temos exemplos flagrantes e atuais da postura não
ética da indústria farmacêutica (você
já viu o filme O Jardineiro Infiel? Pois é,
a realidade é ainda pior do que a ficção!),
da indústria agroquímica, da indústria
tabagista etc. Somos cobaias (você já ouviu
falar de cobaias médicos?) de interesses comerciais
e militares poderosos que insistem em submeter a vida dos
cidadãos a seus projetos de dominação
e de geração de lucros a qualquer preço.
Não se trata, efetivamente, de mais uma teoria da
conspiração (essa é sempre a alegação
dos que conspiram contra a sociedade), trata-se da realidade,
da ação nefasta de grupos econômicos,
de corporações sem ética e sem escrúpulos,
apesar do seu discurso cínico de responsabilidade
social.
É preciso perceber
que a “generosidade” das tecnologias não
pode ser definida a partir do apelo mercadológico
dos fabricantes ou do seu uso em si, mas das práticas
usuais de quem as comercializa. Assim, um remédio
não é bom em si porque pode ter a capacidade
de curar (muitos não são mais do que placebo
envolto em cápsulas coloridas e outros mais fazem
mal do que bem) ; o agrotóxico não é
“remedinho de planta”, mas veneno mesmo (morre
gente aos montes no Brasil e em todo mundo por causa dele)
e os transgênicos estão longe de matar a fome
(a não ser dos investidores da Monsanto!).
Um teste (conhecido
como crash test) promovido pela Pro Teste, uma Ong que defende
os direitos dos consumidores, mostrou que as montadoras
sediadas no Brasil “fabricam veículos seguros
para exportar e vendem carros perigosos para os brasileiros”.
Isso mesmo: teste feito em 2007 com o Fox, da Volks, fabricado
no Brasil e vendido para nós, deixou claro que o
problema de segurança nada tem a ver com o modelo
fabricado, a montadora ou mesmo o local em que é
produzido. Tem a ver com quem compra o carro e as exigências
de cada país em que ele é comercializado.
Assim, o mesmo Fox, produzido aqui e exportado para a Europa,
incorpora mais itens de segurança, são mais
seguros. Lá não pode ser vendido lá
sem esses itens, nem pensar como diz o ditado.. Aqui, eles
são opcionais e não custa barato dispor deles.
O mesmo acontece para
remédios ou agrotóxicos que, liberados para
venda aqui, são proibidos em outros países
porque nossa fiscalização é frouxa,
as autoridades costumam fechar os olhos e os lobbies são
poderosos. Verifique, se tiver tempo, quanto algumas empresas
têm destinado a parlamentares brasileiros no período
pré-eleitoral. Se quiser ser mais específico,
cheque se “representantes do povo”, aqueles
que, por exemplo, apregoam o compromisso com o meio ambiente
(por exemplo, membros dos partidos verdes), receberam doações
(algumas generosas) de indústrias ou atividades poluidoras.
Terá surpresas e decepções, certamente.
Você sabia que a Vale do Rio Doce financiou a campanha
de dezenas de candidatos na última eleição?
Por que será, não é verdade? Santa
generosidade!
A conclusão
é simples: a tecnologia existe, mas não está
disponível para todos. Na competição
pelo mercado global, algumas montadoras, para retornarmos
ao nosso exemplo do Fox da Volks, privilegiam o consumidor
de fora (serão todas?), ainda que, no Brasil, avancem
sobre os financiamentos públicos (o BNDEs sempre
dá uma mãozinha para elas), demitam sem dó
os funcionários (até doentes, como denunciou
o Diário do Grande ABC no caso recente da Volks)
e se valham da isenção de impostos (as montadoras
– não só a Volks – têm a
mania de fazer leilões com governadores para reduzir
impostos ou não pagá-los por um bom temo,
quando planejam instalar novas fábricas). Têm
tido lucros fabulosos, mas estão sempre chorando
pelas esquinas, tentando aumentar os seus privilégios.
Se você tiver
acesso ao livro Crimes corporativos: o poder das grandes
empresas e o abuso da confiança pública,
de Russel Mokhiber, publicado pela. Editora Página
Aberta, de São Paulo, em 1995 ( infelizmente está
esgotado e só se encontra em algumas bibliotecas),
encontrará, entre os casos dramáticos de falta
de ética e cidadania, vários protagonizados
pelas montadoras, as mesmas que desfilam por aqui. Basta
ver os anúncios de recall, cada vez mais freqüentes,
para perceber que alguma coisa em termos de qualidade não
anda bem por estas fábricas. Se dispuser a dar uma
navegadinha pela Web , encontrará também alguns
escândalos bem recentes em que elas estiveram envolvidas
(corrupção, propina, suicídios de funcionários
submetidos a estresse etc) , ainda que muitas delas insistam
em se proclamar socialmente responsáveis (chegam
a ganhar prêmios pela sua “atuação
cidadã”!). Algumas têm um passado trágico
de cumplicidade com governos totalitários, andaram
de mãos dadas com o nazismo, mas se sentem à
vontade para, em suas campanhas, debocharem das nossas mazelas
(lembra-se da campanha da Volks que tripudiava os nordestinos
por causa dos “anões do orçamento?).
Aquela história de macaco que pisa no próprio
rabo, não é verdade?
As tecnologias, enfim,
são geradas nem sempre por empresas éticas
e nem sempre estão disponíveis para todo mundo,
mesmo quando elas implicam em garantir segurança
para os cidadãos.
As tecnologias têm
dono, que não são nada democráticos
em compartilhá-las. Assim, os Estados Unidos, Israel
e outras potências podem dispor de armas nucleares
e valer-se delas para impor “respeito”, mas
os seus adversários não. A alegação
é de que eles não suficientemente confiáveis
(alguns não são mesmo) para ter acesso a estas
tecnologias. Podem provocar catástrofes, matar muita
gente. A pergunta é óbvia e responda rápido,
se puder: Afinal de contas, foi o Irã que jogou a
bomba atômica sobre cidades japonesas e matou centenas
de milhares de civis? Afinal de contas, foi a Coréia
do Norte que utilizou amplamente o agente laranja e dizimou
parcela da população do Vietnã? Foram
os médicos do Iraque que promoveram experiências
brutais com as crianças durante a Segunda Guerra?
O holocausto foi desencadeado pelos países subdesenvolvidos?
Foram os soldados do Afeganistão que provocaram barbáries
junto à população chinesa, uma ferida
até hoje não curada?
As tecnologias certamente
não têm tido sempre um uso social e político
adequado. Será necessário sempre estar atento
para identificar quem as divulga e quem se beneficia delas.
Debaixo da divulgação
charmosa de determinadas tecnologias, embalada por algumas
agências de comunicação/RP ou assessorias
de imprensa (há empresas éticas que não
se enquadram nesta situação e não se
pode generalizar levianamente), podem estar escondidas armadilhas
que penalizam os cidadãos. Não vá atrás
do oba-oba, dos releases que prometem maravilhas, de coletivas
que se constituem em verdadeiros espetáculos de manipulação.
Desconfie dos que fazem o convite.
Uma boa dica para não
“pagar o mico” junto à sociedade e aos
colegas de redação é verificar antes
que são os clientes destas agências, para quem
elas trabalham e para quem já andaram fazendo o jogo
sujo de “limpeza de imagem”. Se elas estiverem
prometendo acabar com a fome do mundo, divulgando remédios
miraculosos, pregando a sustentabilidade dos agrotóxicos
ou das atividades de mineração, o bom mocismo
da indústria de fast food (você acredita no
palhaço do McDonald´s?) ou de fabricantes de
drogas consideradas lícitas (como a indústria
tabagista), fuja delas.
Desconfie de apelos
publicitários travestidos de ciência e tecnologia.
Não acredite no papo da Monsanto (a maior adepta
do marketing verde no Brasil) , não a confunda jamais
com biotecnologia, embora se valha dela para estabelecer
monopólios. Ela não está interessada
em matar a fome de ninguém e seus transgênicos
exigem o uso abusivo agrotóxicos (só os fabricados
por ela!). Repudie a responsabilidade social da Souza Cruz
e da Philip Morris que, com seus produtos (são elas
mesmo que afirmam), matam milhões de pessoas em todo
mundo. Não aceite, sem questionar, a declaração
de apoio das empresas integrantes da Big Pharma à
pesquisa brasileira (você já ouviu falar no
Projeto BioAmazônia em que uma delas foi desmascarada
antes de avançar sobre a biodiversidade brasileira?).
Lembre-se sempre: tecnologia
não nasce por geração espontânea,
é produzida por alguém com interesse definido,
nem sempre coincidente com o bem-estar da sociedade. Lembre-se:
o pesquisador, quando comprometido com os interesses de
empresas comerciais, não pode ser visto como fonte
independente. Suspeite dele sempre. Você seria ingênuo
a ponto de acreditar na isenção do diretor
de pesquisa e desenvolvimento de algumas das empresas aqui
mencionadas? Você imagina que eles diriam a verdade,
se ela puder trazer embaraços aos seus negócios?
Seja um jornalismo
científico crítico. Não chame plantação
de eucaliptos de floresta nem agrotóxicos de defensivos.
Este é o papo meloso dos que pregam e praticam a
manipulação da informação. O
problema dos que pregam esse discurso não é
apenas de conceito, é de caráter. Olho vivo.