Ano I - Nº 01 - Abril de 2007

:: O uso não social da tecnologia

 

      A ciência e a tecnologia estão a serviço da humanidade e representam, em essência, a expressão do talento humano colocado a serviço da humanidade.

      Pensando bem, você endossaria, sem pestanejar, essa afirmação? Se respondeu sim, talvez seja melhor, como diz a campanha publicitária, rever os seus conceitos.

      A ciência e a tecnologia são, em essência, mercadorias e estão associadas quase sempre a poder, prestígio controle, sigilo, dominação e dinheiro, muito dinheiro. Evidentemente, não se pode questionar, de maneira leviana, a capacidade criativa e, em alguns casos, a genialidade do ser humano , particularmente daqueles que se dedicam à tarefa nobre da pesquisa, da investigação científica, da afirmação da razão sobre a ignorância. Não se pode condenar todas as tecnologias e todos os produtores de tecnologias, porque, felizmente, há muitas exceções a exaltar. Não se pode enxergar em cada pesquisador ou cientista um intenção malévola porque, sobretudo nos nossos principais institutos de pesquisa e universidades, há pessoas dedicadas e comprometidas com o País. Mas vamos devagar com o andor: pesquisador não é sinônimo de benfeitor e ciência e tecnologia não se confundem com altruísmo ou justiça social.

      O que é importante destacar é que a ciência e a tecnologia não estão, como se pode imaginar, à disposição de todos e, além dos excluídos – por vários motivos – de suas benesses, há também (cada vez mais intensamente) o mau uso da tecnologia. Não precisamos recorrer aos horrores das guerras (a indústria bélica é a que recebe maiores investimentos em pesquisa ) e a episódios dramáticos como o da bomba de Hiroshima e o agente laranja que vitimou milhares de pessoas no Vietnã. Temos exemplos flagrantes e atuais da postura não ética da indústria farmacêutica (você já viu o filme O Jardineiro Infiel? Pois é, a realidade é ainda pior do que a ficção!), da indústria agroquímica, da indústria tabagista etc. Somos cobaias (você já ouviu falar de cobaias médicos?) de interesses comerciais e militares poderosos que insistem em submeter a vida dos cidadãos a seus projetos de dominação e de geração de lucros a qualquer preço. Não se trata, efetivamente, de mais uma teoria da conspiração (essa é sempre a alegação dos que conspiram contra a sociedade), trata-se da realidade, da ação nefasta de grupos econômicos, de corporações sem ética e sem escrúpulos, apesar do seu discurso cínico de responsabilidade social.

      É preciso perceber que a “generosidade” das tecnologias não pode ser definida a partir do apelo mercadológico dos fabricantes ou do seu uso em si, mas das práticas usuais de quem as comercializa. Assim, um remédio não é bom em si porque pode ter a capacidade de curar (muitos não são mais do que placebo envolto em cápsulas coloridas e outros mais fazem mal do que bem) ; o agrotóxico não é “remedinho de planta”, mas veneno mesmo (morre gente aos montes no Brasil e em todo mundo por causa dele) e os transgênicos estão longe de matar a fome (a não ser dos investidores da Monsanto!).

      Um teste (conhecido como crash test) promovido pela Pro Teste, uma Ong que defende os direitos dos consumidores, mostrou que as montadoras sediadas no Brasil “fabricam veículos seguros para exportar e vendem carros perigosos para os brasileiros”. Isso mesmo: teste feito em 2007 com o Fox, da Volks, fabricado no Brasil e vendido para nós, deixou claro que o problema de segurança nada tem a ver com o modelo fabricado, a montadora ou mesmo o local em que é produzido. Tem a ver com quem compra o carro e as exigências de cada país em que ele é comercializado. Assim, o mesmo Fox, produzido aqui e exportado para a Europa, incorpora mais itens de segurança, são mais seguros. Lá não pode ser vendido lá sem esses itens, nem pensar como diz o ditado.. Aqui, eles são opcionais e não custa barato dispor deles.

      O mesmo acontece para remédios ou agrotóxicos que, liberados para venda aqui, são proibidos em outros países porque nossa fiscalização é frouxa, as autoridades costumam fechar os olhos e os lobbies são poderosos. Verifique, se tiver tempo, quanto algumas empresas têm destinado a parlamentares brasileiros no período pré-eleitoral. Se quiser ser mais específico, cheque se “representantes do povo”, aqueles que, por exemplo, apregoam o compromisso com o meio ambiente (por exemplo, membros dos partidos verdes), receberam doações (algumas generosas) de indústrias ou atividades poluidoras. Terá surpresas e decepções, certamente. Você sabia que a Vale do Rio Doce financiou a campanha de dezenas de candidatos na última eleição? Por que será, não é verdade? Santa generosidade!

      A conclusão é simples: a tecnologia existe, mas não está disponível para todos. Na competição pelo mercado global, algumas montadoras, para retornarmos ao nosso exemplo do Fox da Volks, privilegiam o consumidor de fora (serão todas?), ainda que, no Brasil, avancem sobre os financiamentos públicos (o BNDEs sempre dá uma mãozinha para elas), demitam sem dó os funcionários (até doentes, como denunciou o Diário do Grande ABC no caso recente da Volks) e se valham da isenção de impostos (as montadoras – não só a Volks – têm a mania de fazer leilões com governadores para reduzir impostos ou não pagá-los por um bom temo, quando planejam instalar novas fábricas). Têm tido lucros fabulosos, mas estão sempre chorando pelas esquinas, tentando aumentar os seus privilégios.

      Se você tiver acesso ao livro Crimes corporativos: o poder das grandes empresas e o abuso da confiança pública, de Russel Mokhiber, publicado pela. Editora Página Aberta, de São Paulo, em 1995 ( infelizmente está esgotado e só se encontra em algumas bibliotecas), encontrará, entre os casos dramáticos de falta de ética e cidadania, vários protagonizados pelas montadoras, as mesmas que desfilam por aqui. Basta ver os anúncios de recall, cada vez mais freqüentes, para perceber que alguma coisa em termos de qualidade não anda bem por estas fábricas. Se dispuser a dar uma navegadinha pela Web , encontrará também alguns escândalos bem recentes em que elas estiveram envolvidas (corrupção, propina, suicídios de funcionários submetidos a estresse etc) , ainda que muitas delas insistam em se proclamar socialmente responsáveis (chegam a ganhar prêmios pela sua “atuação cidadã”!). Algumas têm um passado trágico de cumplicidade com governos totalitários, andaram de mãos dadas com o nazismo, mas se sentem à vontade para, em suas campanhas, debocharem das nossas mazelas (lembra-se da campanha da Volks que tripudiava os nordestinos por causa dos “anões do orçamento?). Aquela história de macaco que pisa no próprio rabo, não é verdade?

      As tecnologias, enfim, são geradas nem sempre por empresas éticas e nem sempre estão disponíveis para todo mundo, mesmo quando elas implicam em garantir segurança para os cidadãos.

      As tecnologias têm dono, que não são nada democráticos em compartilhá-las. Assim, os Estados Unidos, Israel e outras potências podem dispor de armas nucleares e valer-se delas para impor “respeito”, mas os seus adversários não. A alegação é de que eles não suficientemente confiáveis (alguns não são mesmo) para ter acesso a estas tecnologias. Podem provocar catástrofes, matar muita gente. A pergunta é óbvia e responda rápido, se puder: Afinal de contas, foi o Irã que jogou a bomba atômica sobre cidades japonesas e matou centenas de milhares de civis? Afinal de contas, foi a Coréia do Norte que utilizou amplamente o agente laranja e dizimou parcela da população do Vietnã? Foram os médicos do Iraque que promoveram experiências brutais com as crianças durante a Segunda Guerra? O holocausto foi desencadeado pelos países subdesenvolvidos? Foram os soldados do Afeganistão que provocaram barbáries junto à população chinesa, uma ferida até hoje não curada?

      As tecnologias certamente não têm tido sempre um uso social e político adequado. Será necessário sempre estar atento para identificar quem as divulga e quem se beneficia delas.

      Debaixo da divulgação charmosa de determinadas tecnologias, embalada por algumas agências de comunicação/RP ou assessorias de imprensa (há empresas éticas que não se enquadram nesta situação e não se pode generalizar levianamente), podem estar escondidas armadilhas que penalizam os cidadãos. Não vá atrás do oba-oba, dos releases que prometem maravilhas, de coletivas que se constituem em verdadeiros espetáculos de manipulação. Desconfie dos que fazem o convite.

      Uma boa dica para não “pagar o mico” junto à sociedade e aos colegas de redação é verificar antes que são os clientes destas agências, para quem elas trabalham e para quem já andaram fazendo o jogo sujo de “limpeza de imagem”. Se elas estiverem prometendo acabar com a fome do mundo, divulgando remédios miraculosos, pregando a sustentabilidade dos agrotóxicos ou das atividades de mineração, o bom mocismo da indústria de fast food (você acredita no palhaço do McDonald´s?) ou de fabricantes de drogas consideradas lícitas (como a indústria tabagista), fuja delas.

      Desconfie de apelos publicitários travestidos de ciência e tecnologia. Não acredite no papo da Monsanto (a maior adepta do marketing verde no Brasil) , não a confunda jamais com biotecnologia, embora se valha dela para estabelecer monopólios. Ela não está interessada em matar a fome de ninguém e seus transgênicos exigem o uso abusivo agrotóxicos (só os fabricados por ela!). Repudie a responsabilidade social da Souza Cruz e da Philip Morris que, com seus produtos (são elas mesmo que afirmam), matam milhões de pessoas em todo mundo. Não aceite, sem questionar, a declaração de apoio das empresas integrantes da Big Pharma à pesquisa brasileira (você já ouviu falar no Projeto BioAmazônia em que uma delas foi desmascarada antes de avançar sobre a biodiversidade brasileira?).

      Lembre-se sempre: tecnologia não nasce por geração espontânea, é produzida por alguém com interesse definido, nem sempre coincidente com o bem-estar da sociedade. Lembre-se: o pesquisador, quando comprometido com os interesses de empresas comerciais, não pode ser visto como fonte independente. Suspeite dele sempre. Você seria ingênuo a ponto de acreditar na isenção do diretor de pesquisa e desenvolvimento de algumas das empresas aqui mencionadas? Você imagina que eles diriam a verdade, se ela puder trazer embaraços aos seus negócios?

      Seja um jornalismo científico crítico. Não chame plantação de eucaliptos de floresta nem agrotóxicos de defensivos. Este é o papo meloso dos que pregam e praticam a manipulação da informação. O problema dos que pregam esse discurso não é apenas de conceito, é de caráter. Olho vivo.

 
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