Ano I - Nº 01 - Abril de 2007

:: A formação do jornalista científico

 

      Pesquisa de âmbito nacional, coordenada pela jornalista e profa. Graça Caldas, da Umesp, e atual diretora da ABJC, revelou que apenas 10% dos cursos de Jornalismo brasileiros dispõem de disciplinas ou conteúdos voltados para a teoria e a prática do Jornalismo Científico. Ou seja, mesmo nas universidades públicas, em particular as federais, que representam parcela importante da nossa produção científica, há pouco espaço para o debate sobre a ciência e a tecnologia e interesse em capacitar profissionais para divulgá-las.

      A pergunta que decorre pela constatação deste fato é óbvia: por que isso ocorre? A resposta também é óbvia: reflexo da importância que a educação brasileira dispensa, de maneira geral, ao ensino de ciências, como se pode depreender pelo déficit de centenas de milhares de professores de Biologia, Física, Química ou Matemática no primeiro e segundo graus.

      Nossos jovens têm cada vez menos contato com as disciplinas de formação científica e, como os jovens de ontem são os professores, chefes de Departamento, diretores de universidades de hoje, não é de se estranhar que excluam da grade curricular dos cursos (inclusive de Jornalismo) conteúdos que tenham esse foco. Por isso, o Jornalismo Científico não freqüenta os cursos de Jornalismo ou de Comunicação de maneira geral.

      Podemos garantir que essa situação piorou de uns anos para cá, pelo menos nos cursos de graduação, apesar da importância crescente da ciência e da tecnologia no dia-a-dia das pessoas e da emergência de temas candentes como células tronco, mudanças climáticas, biodiversidade, transgênicos, clonagem, nanotecnologia etc.

      Há algum tempo, disciplinas como Metodologia de Pesquisa, Estatística e Lógica ainda faziam parte do universo dos cursos de Jornalismo, mas, com exceção da primeira (agora reduzida a aspectos formais da apresentação de trabalhos acadêmicos), foram literalmente excluídas do currículo.

      Como as universidades (palmas para algumas exceções, como as universidades públicas em São Paulo – USP, Unicamp e Unesp e outras poucas no resto do Brasil) também divulgam pouco e mal, e não têm uma cultura de divulgação, o cerco se fecha para parcerias entre os cursos de Jornalismo e as instituições.

      É importante destacar, no entanto, que a existência de uma disciplina ou conteúdo de Jornalismo Científico não garante, por si mesma, a capacitação de futuros profissionais para atuarem nessa área.

      É preciso discutir o perfil e o foco destas disciplinas e sobretudo articular aspectos teóricos com a prática, vista não apenas como reprodução dos modelos existentes, mas como inovadora, criativa, aberta a novas possibilidades.

      Não se trata de ensinar apenas técnicas para produção de notícias ou reportagens (elas não diferem das que prevalecem para o Jornalismo em geral), mas de chamar a atenção para as singularidades da cultura científica, do processo de produção de C & T, da avaliação crítica do impacto do progresso técnico, da conscientização sobre os interesses extracientíficos que rondam a produção e a divulgação da ciência e assim por diante.

      O jornalista científico não pode ser pensado como um mero tradutor do discurso científico, mas como um produtor de discursos, que saiba contextualizar os fatos, que enxergue além da notícia. O seu compromisso, afinal de contas é com a sociedade ou com o interesse público e, por isso, ele precisa estar atento para o fato de que, muitas vezes, cada vez mais, existem conflitos entre a ciência, patrocinada por grandes interesses, e as demandas, expectativas e necessidades da maioria da população.

      Conhecimentos básicos de história, sociologia e filosofia da ciência são fundamentais para sua formação, assim como critérios para a descoberta e avaliação das fontes (há pesquisadores – e não são poucos, comprometidos com interesses comerciais) e outras questões não menos importantes.

      Os espaços para o debate da ciência e da tecnologia nos cursos de Jornalismo precisam ser urgentemente ampliados. A ABJC – Associação Brasileira de Jornalismo Científico tem um papel essencial a desempenhar neste sentido. É o que se espera, dentre outras coisas, da nova diretoria que acaba de assumir.

 
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