Pesquisa de âmbito
nacional, coordenada pela jornalista e profa. Graça
Caldas, da Umesp, e atual diretora da ABJC, revelou que
apenas 10% dos cursos de Jornalismo brasileiros dispõem
de disciplinas ou conteúdos voltados para a teoria
e a prática do Jornalismo Científico. Ou seja,
mesmo nas universidades públicas, em particular as
federais, que representam parcela importante da nossa produção
científica, há pouco espaço para o
debate sobre a ciência e a tecnologia e interesse
em capacitar profissionais para divulgá-las.
A pergunta que decorre
pela constatação deste fato é óbvia:
por que isso ocorre? A resposta também é óbvia:
reflexo da importância que a educação
brasileira dispensa, de maneira geral, ao ensino de ciências,
como se pode depreender pelo déficit de centenas
de milhares de professores de Biologia, Física, Química
ou Matemática no primeiro e segundo graus.
Nossos jovens têm
cada vez menos contato com as disciplinas de formação
científica e, como os jovens de ontem são
os professores, chefes de Departamento, diretores de universidades
de hoje, não é de se estranhar que excluam
da grade curricular dos cursos (inclusive de Jornalismo)
conteúdos que tenham esse foco. Por isso, o Jornalismo
Científico não freqüenta os cursos de
Jornalismo ou de Comunicação de maneira geral.
Podemos garantir que
essa situação piorou de uns anos para cá,
pelo menos nos cursos de graduação, apesar
da importância crescente da ciência e da tecnologia
no dia-a-dia das pessoas e da emergência de temas
candentes como células tronco, mudanças climáticas,
biodiversidade, transgênicos, clonagem, nanotecnologia
etc.
Há algum tempo,
disciplinas como Metodologia de Pesquisa, Estatística
e Lógica ainda faziam parte do universo dos cursos
de Jornalismo, mas, com exceção da primeira
(agora reduzida a aspectos formais da apresentação
de trabalhos acadêmicos), foram literalmente excluídas
do currículo.
Como as universidades
(palmas para algumas exceções, como as universidades
públicas em São Paulo – USP, Unicamp
e Unesp e outras poucas no resto do Brasil) também
divulgam pouco e mal, e não têm uma cultura
de divulgação, o cerco se fecha para parcerias
entre os cursos de Jornalismo e as instituições.
É importante
destacar, no entanto, que a existência de uma disciplina
ou conteúdo de Jornalismo Científico não
garante, por si mesma, a capacitação de futuros
profissionais para atuarem nessa área.
É preciso discutir
o perfil e o foco destas disciplinas e sobretudo articular
aspectos teóricos com a prática, vista não
apenas como reprodução dos modelos existentes,
mas como inovadora, criativa, aberta a novas possibilidades.
Não se trata
de ensinar apenas técnicas para produção
de notícias ou reportagens (elas não diferem
das que prevalecem para o Jornalismo em geral), mas de chamar
a atenção para as singularidades da cultura
científica, do processo de produção
de C & T, da avaliação crítica
do impacto do progresso técnico, da conscientização
sobre os interesses extracientíficos que rondam a
produção e a divulgação da ciência
e assim por diante.
O jornalista científico
não pode ser pensado como um mero tradutor do discurso
científico, mas como um produtor de discursos, que
saiba contextualizar os fatos, que enxergue além
da notícia. O seu compromisso, afinal de contas é
com a sociedade ou com o interesse público e, por
isso, ele precisa estar atento para o fato de que, muitas
vezes, cada vez mais, existem conflitos entre a ciência,
patrocinada por grandes interesses, e as demandas, expectativas
e necessidades da maioria da população.
Conhecimentos básicos
de história, sociologia e filosofia da ciência
são fundamentais para sua formação,
assim como critérios para a descoberta e avaliação
das fontes (há pesquisadores – e não
são poucos, comprometidos com interesses comerciais)
e outras questões não menos importantes.
Os espaços para
o debate da ciência e da tecnologia nos cursos de
Jornalismo precisam ser urgentemente ampliados. A ABJC –
Associação Brasileira de Jornalismo Científico
tem um papel essencial a desempenhar neste sentido. É
o que se espera, dentre outras coisas, da nova diretoria
que acaba de assumir.