| Wilson
da Costa Bueno*
Muitos
profissionais, especialmente os que se proclamam não políticos,
sem ideologia, sintonizados com a verdade e a objetividade jornalística,
costumam repudiar a militância em Jornalismo, como se o compromisso
com idéias ou causas fosse um equívoco. A maioria
deles, no entanto, pratica a militância, mesmo que não
dêem conta disso. Até porque estar neutro é
uma condição absolutamente militante. Não se
pode ficar neutro quando se contempla a injustiça social,
quando se dá de cara com governantes corruptos, quando se
surpreende lobbies poderosos afrontando o interesse público
ou quando se flagra madeireiros devastando a Amazônia brasileira.
O problema está em definir
o que seja militância no fazer jornalístico.
Alguns provavelmente confundem militância
com filiação partidária e, querendo se mostrar
distantes das mazelas praticadas pelos partidos brasileiros, optam
por não assumir essa condição. Há quem
acredite que militância é o atributo que une jovens
empunhando bandeiras pelas ruas, gritando slogans sem sentido, como
os moços da TFP – Tradição, Família
e Propriedade que nos atormentavam nos faróis, em tempos
idos, contra o “dragão do comunismo”. Há
pessoas que identificam militância com o MST e, seduzidas
pelos jornalões, imaginam que , de uma hora para outra, centenas
de simpatizantes virão tomar as suas propriedade, adquiridas
com muito suor e lágrimas.
Militância em Jornalismo não
pode e não deve ter essa leitura.
Ser militante não é
fazer parte de um “tribo” qualquer e andar em grupo
tentando convencer os outros a adotarem posições extremadas.
Ser militante não é tapar os olhos e desobedecer à
razão para não enxergar o outro lado, como se existisse
apenas uma única verdade (a que defendemos). Ser militante
não significa estar disposto a pegar em armas para fazer
valer, a qualquer custo, as nossas convicções.
Ser militante significa apenas defender,
com coragem, as nossas posições, ainda que elas possam
nos criar embaraços junto a patrões ou colegas da
redação. O não militante está sempre
disposto a abdicar das suas posições para não
perder o emprego, para conseguir clientes, para ser aceito em um
grupo do qual possa extrair vantagens. O não militante tem
uma ética muito particular: busca estar de bem com a maioria
e, especialmente, com os que detêm o poder.
A militância em Jornalismo
significa não abrir mão de investigar, não
ser seduzido pelo canto de sereia das pautas encomendadas e dos
releases encaminhados por agências competentes a serviço
de empresas sem escrúpulos. A militância significa
confrontar fontes, suspeitar das notícias que nos são
jogadas no colo, enxergar além da notícia.
O militante perde o furo, mas não
perde a dignidade.
Ser militante em Jornalismo Científico
significa efetivamente ter compromissos. Em primeiro lugar, o militante
deve assumir que a ciência e a tecnologia constituem-se em
mercadorias valiosas e que algumas empresas (ou governos) fazem
tudo (realmente qualquer coisa) para vencerem os seus adversários.
Não se sentem envergonhados em ludibriar a opinião
pública e têm justificativas prontas para ações
lesivas à sociedade. Em segundo lugar, deve ter presente
que os veículos nos quais trabalham, na verdade, são
também negócios (hoje, a maioria deles verdadeiros
balcões) e que os limites entre a informação
e o marketing (no mau sentido) são cada vez mais frágeis.
Em geral, estão mais preocupados em conseguir anúncios
e, portanto, em atrair os anunciantes do que em oferecer informação
qualificada para a sua audiência (leitores, radiouvintes,
telespectadores ou internautas).
Em terceiro lugar, precisa respeitar
a diversidade de idéias e as minorias. O militante não
é um “pitbull da informação”, embora
deva saber morder os fundilhos dos que realmente merecem.
O militante persevera, não
abre mão dos seus princípios, não defende a
tese de que “profissional é aquele que agrada ao cliente,
independente de quem ele seja”. O militante sabe separar o
joio do trigo e não justifica, por quaisquer motivos, o fato
de ter recebido dinheiro ou apoio de organizações
socialmente irresponsáveis.
O jornalista científico (acho
que a observação vale para qualquer jornalista) não
produz matérias monofontes , obtidas em entrevistas coletivas,
regadas a vinho e camarão, nem anda de braços dados
com a indústria tabagista, a indústria de armas e
boa parte da indústria agroquímica, da indústria
da saúde. Não tenta convencer a sociedade de que a
Souza Cruz ou Philip Morris são socialmente responsáveis
(porque matam milhões por ano com os seus produtos e insistem
em propagá-los), de que a Monsanto quer na verdade matar
a fome com os transgênicos e que está nos poupando
do uso intensivo de agrotóxicos (quando, na prática,
está buscando, obsessivamente, o monopólio da sua
linha “Round up” para agradar os seus acionistas, ávidos
por lucros). O jornalista científico militante identifica
os monopólios (de sementes, de medicamentos, de agroquímicos)
e consegue perceber as diferenças entre a alternativa do
software livre e a gigante Microsoft (ainda que o Bill Gates se
coloque como um mecenas da humanidade).
O jornalista científico militante
está interessado não apenas na grande descoberta,
mas no impacto que ela possa acarretar para a sociedade. Ele contextualiza,
ele busca perceber além do fato em si e não adota,
nunca, uma posição ingênua. É cético,
por excelência, porque admite que não existe verdade
imutável, como tem aprendido, ao longo da sua vida, com a
história da ciência. Ele separa os cientistas do bem
dos cientistas do mal (hoje, em sua maioria, voltado para os interesses
militares e comerciais) e desconfia das teorias revolucionárias
e da lábia fácil dos pseudocientistas.
O jornalista científico militante
resiste às investidas e à chantagem dos poderosos
e denuncia o assédio dos grandes interesses.
Militância é um compromisso.
O jornalista científico que não tem compromisso algum
costuma fazer o jogo dos outros. Ele vende a sua pena e a sua fala
sem se aperceber disso. Ele é um ingênuo, porque acredita
que está contribuindo para o progresso da ciência e
da sociedade, quando está se reduzindo a um mero porta-voz
de empresas, governos e pessoas mesquinhas. Para não ser
taxado de radical , prefere ficar em cima do muro. É um omisso,
um acomodado, um covarde. Não tem espinha e se curva facilmente
para obter favores.
A imprensa brasileira precisa de
mais militância, de menos oficialismo, de mais compromisso.
Talvez seja mais fácil não ter posição,
submeter-se ao poder, fingir que nada vê e nada ouve. Mas
essa postura encerra uma armadilha perigosa. Quem perde a dignidade,
não serve pra coisa alguma. No fundo, os empresários
inescrupulosos, os poderosos, os patrões autoritários
respeitam mesmo os que militam. Por isso, empenham-se tanto em destruí-los.
O não militante é como um outdoor velho, perdido na
paisagem. Ninguém liga pra ele, embora ocupe espaço.
É apenas um nome a mais na folha de pagamento. Um dia, pela
sua absoluta inutilidade, será descartado. Militantes não
são fáceis de substituir, mas gente sem coragem e
sem caráter se encontra em qualquer esquina.
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*Wilson da Costa Bueno é jornalista,
professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social da UMESP e professor de Jornalismo Científico da ECA/USP.
Editor do Portal do Jornalismo Científico on line e da revista
digital Ciência & Comunicação. Diretor da
Comtexto Comunicação e Pesquisa.
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