Volume 2, Número 2, Julho de 2005
Coluna do Editor
Em favor de uma "cultura de divulgação científica"

 

  Os centros geradores de C & T (universidades, institutos de pesquisa, empresas de pesquisa), com honrosas exceções (como as universidades paulistas e a Embrapa, dentre algumas outras), não dispõem de uma "cultura de comunicação", isto é, não elegem a interação com a sociedade como uma de suas prioridades.

Este fato é evidente, quando se analisam diversos aspectos que caracterizam uma "cultura de comunicação". Em primeiro lugar, os centros geradores de C &T têm, em geral, uma estrutura precária para dar conta de seu esforço de divulgação científica. Não tem profissionais especializados para a tarefa de planejar e implementar planos, ações e políticas de comunicação e não alocam recursos para esta importante tarefa. Em segundo lugar, não há uma vontade explícita de incrementar o contato com os públicos (os internos , a imprensa), de modo a dar ciência e transparência às suas pesquisas e projetos em geral. Finalmente, podem, como ocorre em muitos casos, assumir, inclusive, uma visão preconceituosa e equivocada sobre este processo vital de interação.

Talvez se possa entender (mas não justificar) esta postura. A cultura científica costuma dar pouca importância à divulgação, como se pode perceber, nitidamente, no peso conferido pelos órgãos de avaliação (por exemplo, nos que avaliam a produção científica de pesquisadores e Programas de Pós-Graduação) a atividades como produção de livros didáticos e colaboração direta com a imprensa (entrevistas ou artigos). Os pesquisadores, nestes centros de produção de C & T, estão assoberdados com tarefas burocráticas e administrativas e dispõem de pouco tempo para se dedicar à divulgação. O contato com a mídia, muitas vezes se mostra frustrante por erros sucessivos e pelo sensacionalismo com que determinados órgãos de imprensa tratam as questões de C & T.

Mas é possível e necessário reverter este cenário. A Academia tem gradativamente formado bons profissionais de imprensa para o trabalho de interação com as fontes especializadas, sobretudo nos seus cursos de especialização e pós-graduação e é fácil apontar jornalistas que têm desempenhado um bom trabalho nesta área. O número de veículos e de editorias/cadernos tem crescido, ainda que em ritmo menor do que esperado e desejável.

A "cultura de divulgação científica" contribui para a legitimação dos centros geradores de C & T e para dar visibilidade ao seu trabalho. Ela é fundamental para o processo de democratização do conhecimento científico. Não é possível admitir que, num país com tantas desigualdades, a comunidade científica e particularmente a direção destas instituições ignorem o compromisso de dialogar com a sociedade ou o releguem a um segundo plano.

As universidades, os institutos de pesquisa, as empresas de pesquisa precisam prestar contas de suas atividades porque são financiadas, no Brasil, basicamente pela sociedade. É preciso que justifiquem a sua própria existência sob pena de verem, como ocorre com frequência, políticos oportunistas e pessoas desinformadas levantarem suspeitas sobre a sua importância. A legitimidade destas instituições têm a ver com os recursos para ela alocados e, portanto, com as condições básicas para que continuem contribuindo para o desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro.

É preciso deixar de lado os preconceitos e buscar parceiros na sociedade. Se os centros geradores de C & T continuarem isolados, só tenderão a perder. A comunicação com a sociedade deve ser vista como uma atividade básica, essencial. Ela é, sobretudo para as instituições públicas, uma obrigação.

O Editor