|
Ciência &
Comunicação: Há quem defenda que os centros geradores de C & T
(universidades, empresas e institutos de pesquisa), com raras exceções, não têm uma
cultura de comunicação. Baseada na sua experiência, você concorda com essa
afirmação? Se sim, arriscaria alguns motivos pelos quais isso acontece? Se não,
justifique, por favor.
Luisa Massarani: Eu arriscaria dizer que a
afirmação é correta. Os centros geradores de C&T ainda estão bastante tímidos no
que se refere a criar estratégias de comunicar temas de ciência e tecnologia para o
público geral. Isto, em geral, é feito mais por indivíduos que por razões diversas
buscam fazer divulgação científica e menos por um esforço institucional.
Em parte, creio que isto é conseqüência de uma questão cultural mais ampla. O sistema
de C&T brasileiro, neste presente momento, não valoriza a divulgação científica. O
mesmo não ocorreu em outros momentos da história da ciência brasileira. Na década de
20, por exemplo, a comunidade científica usou a divulgação científica como uma
ferramenta importante para consolidar a comunidade científica ainda embrionária
na época e seus interesses. A boa notícia é que creio que a comunidade
científica e o sistema de C & T de uma maneira geral está mais sensível à
divulgação científica do que há 20 anos. No que se refere especificamente à relação
desses centros geradores de C&T com a imprensa, creio que ainda precisamos incrementar
o papel dos assessores de imprensa. Alguns desses centros já possuem assessores de
imprensa, mas a grande maioria não. E muitas vezes a assessoria de imprensa não tem
agilidade para responder prontamente a demanda.
Ciência & Comunicação: A cobertura de C & T, levando em conta
a grande imprensa, tem, a seu ver, melhorado, ou seja, a qualificação das informações
em C & T na mídia tem estado num atamar superior ao que se encontrava há, por
exemplo, 5 anos?
Luisa Massarani: Esta é uma pergunta
perigosa... Em termos numéricos, o que observamos é um aumento substancial de notícias
de C & T inclusive em espaços não diretamente relacionados com C & T, como
quadrinhos, crônicas etc. Se entendemos divulgação científica de uma forma mais ampla,
com seu potencial de despertar o interesse das pessoas por temas de C & T e de colocar
em debate temas de C & T em contraposição a fornecer conteúdos específicos
de C &T , creio que a grande imprensa tem feito um trabalho importante. Por
outro lado, em particular na grande imprensa observa-se a retirada de atores importantes
do jornalismo científico. Os atuais jornalistas são, em muito casos, menos preparados e
têm capacidade mais reduzida de colocar a C &T em discussão de forma mais
interessante, menos contemplativa, mais crítica, mais incorporada a cultura.
Ciência & Comunicação: Como avalia a incidência de
interesses extracientificos na produção de C& T e, sobretudo, na divulgação em C
& T? O Jornalismo Científico sofre alguma ameaça real, hoje em dia, do marketing da
ciência? Ele anda refém das fontes ou tem assumido uma postura crítica?
Luisa Massarani: O jornalismo científico
praticado em nosso país e em outros países ainda é muito contemplativo e,
digamos, entusiasmado com as maravilhas da ciência. O papel do jornalista científico, a
meu ver, não é ser porta-voz da comunidade científica. O jornalista científico tem voz
própria e deve usá-la. Isto não quer dizer que estamos aqui para malhar a C & T.
Creio que nenhum de nós tem dúvidas de que a ciência e a tecnologia têm um papel
fundamental no desenvolvimento do país. Mas devemos discutir de forma mais aprofundada o
impacto da C & T na sociedade. Outro ponto importante é a ausência de questões de C
& T relacionadas ao nosso país e ao nosso continente. Publicamos muitas vezes
questões irrelevantes só porque tem o aval de uma universidade norte-americana ou
européia, em detrimento a nossos próprios interesses e necessidades. Neste sentido,
creio que os serviços de notícias como os criados pelas revistas Nature, Jama e Science
têm um efeito colateral que deve ser considerado. Por um lado, veiculam informações
importantes que passaram por um processo de peer-review, que, embora não infalível, dá
uma qualidade razoável ao material. Por outro lado, estimula a preguiça dos jornalistas
(que passam a contar com um material razoavelmente confiável em mãos) e, ainda, deixa de
lado questões nacionais e regionais.
Ciência & Comunicação: A
Internet tem, efetivamente, propiciado alternativas novas em termos de divulgação de C
& T ou ela apenas tem reproduzido as experiências tradicionais em outro formato? Que
aspectos aponta como relevantes na divulgação científica via Web? Que experiências
destaca como referência na Web?
Luisa Massarani:
A Internet é uma ferramenta fundamental tanto para a divulgação
científica como para o trabalho do jornalista especializado em ciência e tecnologia.
Para a divulgação científica, é uma ferramenta a mais que o público pode acessar
e em várias línguas. Para o trabalho do jornalista especializado em ciência e
tecnologia também foi uma mudança importante. Hoje, conseguimos rapidamente checar
informações em sites confiáveis ou por email, particularmente se somos capazes de ler
textos em outras línguas. Além disto, é possível fazer uma reportagem séria e
aprofundada unindo depoimentos de especialistas de vários países. Isto é
particularmente interessante quando observamos que, por questões culturais, cientistas
dos Estados Unidos e eventualmente de países europeus respondem muito mais rapidamente a
mensagens que cientistas brasileiros. Mas a Internet não é a panacéia que muitos
esperavam. Ela não vai resolver os problemas e desafios enormes que enfrentamos para
superar as desigualdades sociais ou para democratizar amplamente a informação. A
Internet é uma ferramenta fundamental para a divulgação científica e deve ser usada em
associação com os demais instrumentos, considerando-se suas vantagens e desvantagens.
Ciência & Comunicação: O Governo Lula está,
diferentemente dos governos anteriores, buscando priorizar o processo de divulgação
científica e, por conseguinte, o processo de democratização do conhecimento
científico. Esta percepção é correta? Em que medida observa uma maior disposição e
vontade política por parte do Governo para contribuir com o incremento da massa crítica
no Jornalismo Científico e na Divulgação Científica?
Luisa Massarani: O Governo Lula
está, sem dúvida, fazendo um trabalho importante na área de divulgação científica. A
criação de um departamento voltado para esta área dentro do Ministério de Ciência e
Tecnologia é um símbolo disto. É também emblemática a criação da Semana Nacional de
Ciência e Tecnologia, que reúne este outubro pelo menos 1.400 atividades em todo país.
Observamos também, desde o ano passado, uma alocação maior de recursos para a área.
Mas é apenas o início. Precisamos de um esforço governamental mais intenso e
sistemático nesta área.
Ciência & Comunicação: Quais os principais desafios do Jornalismo
Científico brasileiro e qual o papel a ser desempenhado pelas escolas de Jornalismo para
superá-los? Jornalismo Científico se aprende na escola?
Luisa Massarani: Em minha avaliação, o
principal desafio do jornalismo científico é encontrar seu seu próprio espaço e papel.
Como mencionei antes, não acredito que sejamos meramente porta-voz da comunidade
científica. Precisamos desenvolver estratégias mais eficientes para colocar em debate
temas de C & T o que não é tarefa fácil, particularmente quando consideramos
as limitações intrínsecas da profissão, tais como tempo e espaço reduzidos,
incompreensão por parte do editor/chefe etc. Sim, creio que Jornalismo Científico se
aprende na escola... mas entendo "escola" como algo muito amplo... É muito
comum no Brasil que os profissionais da divulgação científica sejam muito
"intuitivos", ou seja, que vão fazendo conforme os desafios cotidianos. O que
defendo é que os jornalistas especializados em ciência e tecnologia busquem refletir
mais sobre sua prática profissional e como aperfeiçoá-la. Isto não quer dizer que
todos os jornalistas especializados em ciência e tecnologia devem ir para uma escola de
jornalismo científico científico ou necessariamente fazer mestrado ou doutorado.
Acredito que devamos ter, sim, uma escola de jornalismo científico, mas não acho que
deva ser obrigatória. O aperfeiçoamento profissional pode ser feito de várias formas.
Aliás, uma de minhas tarefas a frente do Centro de Estudos do Museu da Vida, ligado à
Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, é buscar ferramentas para tentar estimular o
aperfeiçoamento profissional de jornalistas especializados em ciência e tecnologia e
divulgadores de uma forma mais ampla. Isto pode ser feito de formas variadas: palestras,
cursos, livros, artigos e cursos formais de mestrado e doutorado. Ressalte-se que
justamente este mês lançamos juntamente com Cornell University (Estados Unidos) um curso
de divulgação científica mundial, cuja versão piloto será administrada
simultaneamente nos Estados Unidos, no Brasil (Fiocruz), na África do Sul e no México.
Usaremos tanto videoconferências como palestras e aulas regionais, buscando atender às
nossas especificidades. Em breve, estaremos anunciando o curso, mas pessoas interessadas
podem entrar em contato comigo.
Ciência & Comunicação: Há quem acredite que o processo de
segmentação da mídia , que conduz, por exemplo, a cadernos especializados, como o de
ciência, de alguma forma contribui para distanciar os leitores não iniciados. Você é a
favor dos cadernos, dos programas especiais de ciência ou acredita ser mais adequado
integrar a cobertura de ciência à pauta diária?
Luisa Massarani:
Acho importante as duas coisas. É importante ter cadernos/seções specializadas em
ciência e tecnologia, de forma a dar mais ênfase à área e a uma equipe especializada,
bem como permitir que leitores interessados possam encontrar mais facilmente seu nicho.
Mas também é fundamental difundir textos de ciência e tecnologia nas mais variadas
editorias (esportes, cadernos dedicados à mulher, cadernos dedicados a crianças,
quadrinhos etc.), atraindo também leitores que dificilmente chegam às editorias de
ciência. Em levantamento que realizamos das matérias publicadas na área de genética em
2000 e 2001, por exemplo, identificamos matérias preciosas nas mais variadas editorias..
Ciência & Comunicação: O jornalismo científico é (ou deve ser)
uma tradução para o leigo do discurso científico ou é um outro discurso construído
pelo jornalista ou comunicador da ciência? O papel do jornalista científico é,
sobretudo, o de decodificador ou você vislumbra outra perspectiva para o trabalho do
profissional que divulga ciência?
Luisa Massarani: Acho limitada a
definição do jornalismo científico como mera tradução para o leigo do discurso
científico. O jornalista não é um tradutor: ele é um profissional que tem a imensa
tarefa de instigar o debate, de forma inteligente e crítica, sobre temas de ciência e a
tecnologia, em particular quando suas aplicações têm impacto importante na sociedade.
Ciência & Comunicação: Descreva, ainda que em poucas
linhas, a sua experiência no Museu da Vida da Fiocruz e no Scidev. ( Dê alguns dados
sobre o trabalho, o retorno do trabalho e , se houver novidades que virão por aí,
dê-nos algumas dicas.)
Luisa Massarani: Creio que descrevi o
trabalho na Fiocruz na pergunta 7. Reproduzo aqui: "Aliás, uma de minhas tarefas a
frente do Centro de Estudos do Museu da Vida, ligado à Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, é
buscar ferramentas para tentar estimular o aperfeiçoamento profissional de jornalistas
especializados em ciência e tecnologia e divulgadores de uma forma mais ampla. Isto pode
ser feito de formas variadas: palestras, cursos, livros, artigos e cursos formais de
mestrado e doutorado. Ressalte-se que justamente este mês lançamos juntamente com
Cornell University (Estados Unidos) um curso de divulgação científica mundial, cuja
versão piloto será administrada simultaneamente nos Estados Unidos, no Brasil (Fiocruz),
na África do Sul e no México. Usaremos tanto videoconferências como palestras e aulas
regionais, buscando atender às nossas especificidades. Em breve, estaremos anunciando o
curso, mas pessoas interessadas podem entrar em contato comigo." No SciDev.Net (www.scidev.net), coordeno o portal latino-americano.
Essencialmente, meu trabalho consiste em três frentes interligadas: produzir material
jornalístico sobre temas de C & T da América Latina (tarefa na qual conto com uma
rede de colaboradores free-lance); buscar o maior número de parcerias possíveis em
divulgação científica; coordenar a realização, em geral em estreita parceria com
organizações regionais, de encontros nos distintos países do continente, de forma a
colocar em debate os principais desafios da profissão, bem como identificar atores
importante na área no continente. Neste sentido, estão previsto três encontros em 2005.
Um deles deve ser no México; outros dois estão em fase final de discussão.
|