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| Volume 2, Número 2, Julho de 2005 | |
| Entrevista | |
| Divulgação e alfabetização científica: dialogando com Attico Chassot | |
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Ciência & Comunicação: A ciência e a tecnologia contemporâneas têm-se tornado reféns de interesses extra-científicos (comerciais, militares, políticos etc). O senhor julga que essa afirmação é correta? Se sim, o que fazer para romper estes vínculos? Attico Chassot: Acredito que essa afirmação possa ser considerada adequada, mesmo que pudesse discutir se esses interesse são extra-científicos. Vou procurar encontrar dois exemplos relacionados com o direito de propriedade intelectual. Quando alguém transforma uma semente, propriedade milenar de toda humanidade em uma semente estéril (o caso do milho híbrido, uma semente que não é semente, pois na segunda geração não pode mais ser usada como semente) somos reféns de conhecimentos que nos roubaram. Veja-se, uma outra situação, o preço de determinados remédios, onde ao lado dos altos custos dos valores agregados por pesquisas temos que pagar muitos outros valores. O preço dos remédios para portadores do vírus do HIV poderia ser muito menor se não houvesse tantos lucrando em cima da dor. O prolongamento de vidas de humanos em UTI não estaria associado a industria que fabrica equipamentos hospitalares. Eu diria que esses interesses não são extra-científicos (porque há Ciência na biopirataria ou na industria que lucra com a dor); são anti-éticos. Como romper esses vínculos: declarando bens de todos patentes que foram pirateadas (sementes, matrizes de animais...) ou patentes que foram desenvolvida para se ter lucro com dor de outros. Pode parecer quixotesca minha proposta, mas não há muitas outras maneiras de se fazer libertação. Ciência & Comunicação: Estudo recente (foi capa da revista Educação) evidenciou uma carência de 250 mil professores de ciências no Brasil, sinalizando para uma situação ainda mais dramática nos próximos 10 anos. A que se deve esta situação? Como superar este impasse? Qual o prejuízo maior, se nada for feito para atenuar o problema? Attico Chassot: Estas interrogações me remetem para as conseqüências de um acontecimento que foi sensacional, do qual a maioria dos leitores de 'Comtextos' não recorda, até porque ele já se fará cinqüentenário, em breve. No domingo, 6 de outubro de 1957, as manchetes de praticamente todos os jornais do Planeta versavam sobre o mesmo assunto. Por exemplo, o Correio do Povo de Porto Alegre destacava: "O SATÉLITE ARTIFICIAL É A MAIOR VITÓRIA DA CIÊNCIA HUMANA ATÉ OS NOSSOS DIAS". O frenesi planetário era pelo lançamento do Sputnik. No Brasil, este nome foi aportuguesado para esputinique, e assim dicionarizado, fez parte do imaginário popular; virou tema de marchas de carnaval e de chanchadas da Atlântida. Este primeiro satélite, não maior que uma bola de futebol, mudou o mundo em muitas dimensões, por exemplo, a miniaturização tecnológica. Ao lado da natural autolouvação do regime soviético pela espetacular conquista, houve, primeiro, um natural ceticismo estadunidense e desqualificação do feito. Em seguida, no mundo Ocidental, leia-se nos Estados Unidos, ocorreram reações na busca da recuperação do lugar perdido na corrida espacial. É aqui, que faço uma conexão com pergunta. Os Estados Unidos também buscaram culpados em 1957 por sua desvantagem na corrida espacial. Um apareceu em evidência: a Escola. Mais precisamente, o ensino de Ciências ou ainda mais, as deficiências do sistema educacional estadunidense foram apontados como responsáveis pelas desvantagens tecnológicas. Reuniu-se, então, os mais renomados cientistas, a maioria laureada com o Nobel de Química ou de Física, para conceber estratégias para ensinar Ciências na Escola Básica. Resultaram projetos famosos, que foram traduzidos para muitos países do bloco liderado pelos Estados Unidos. No Brasil em conseqüência surgiram os Centro de Treinamento de Professores de Ciências. No período da ditadura esse esforço foi destruído. Nos anos 70, o Brasil solicitou do Banco Mundial um grande volume de recursos para desenvolvimento científico. Um dos erros fundamentais era imaginar que poderiam substituir a liderança dos cientistas, transferindo para os professores das escolas primárias e secundárias o papel de inovadores. Fizeram uma festa de feiras de ciências com desenhos e pedaços de isopor, que pagamos em dólares. Desde então, houve tentativas, algumas até bem conduzidos, mas nada terá sucesso se não se investir maciçamente em formação de professores e nessa há uma primeira exigência: a valorização das mulheres e dos homens que fazem Educação. Isso implica também um reconhecimento salarial. As conseqüências se tal não for feito: nossa eterna dependência tecnológica. Ciência & Comunicação: Qual o papel
a ser desempenhado pela mídia no processo de alfabetização
científica? Ela o tem cumprido? Ciência & Comunicação: Os nossos centros
geradores de C & T (universidades, institutos e empresas de pesquisa)
têm, na sua opinião, conseguido comunicar-se com a sociedade?
Eles têm efetivamente contribuído para o processo de democratização
do conhecimento científico? Ciência & Comunicação: O sigilo e o controle da informação, como decorrência do patrocínio dos projetos de C & T por grupos privados, têm penalizado a comunidade científica, obstruindo o processo de circulação de informações e troca de experiências? Estas restrições, de alguma forma, prejudicam o próprio processo de divulgação científica? Attico Chassot: O dito popular
"O segredo é alma do negócio' cabe aqui como uma
luva. Assim, é fácil inferirmos conseqüências
das exigências de se ter que guardar segredos. Parece, que a expressão
'divulgação científica' carrega uma marca pejorativa
de poder tornar público apenas aquilo é banalizável.
Essa é uma leitura no mínimo ingênua. Parece que
em termos de controle da informação ninguém sabe
fazer melhor uso da mesma do que a Igreja Católica, com seus
conclaves. E vejam como consegue faturar com seus segredos. Attico Chassot: Eu sou um alienígena
nessa paróquia - cheguei a essa pergunta viciado no final da
resposta à anterior. Não conheço as disputas. Posso
imaginá-las, pois vivo na academia e ela é um lócus
- e falo das Universidades do mundo inteiro - de vaidades. A maneira
como gerimos e supervalorizamos o nosso 'poder' já deu teses
e extensa produção acadêmica. Mas não tenho
competência para responder a pergunta. Attico Chassot: Primeiro, não tenho estatura intelectual para avaliar a 'rede mundial de computadores'. Não sei quantos poderiam responder a essa pergunta, até porque na sua curta existência ela já nos pregou peças e furou futurições (as frustrações do e-comércio ou a não adesão aos e-livros). Acredito que quando se fez um ranking, no ocaso do segundo milênio e se colocou a invenção da imprensa como a maior descoberta - claro que numa leitura ocidental - esta escolha foi correta. Muito provavelmente, hoje, temos na Web a mais significativa concretização - e aqui reconheço que a palavra está mal posta - da imprensa. Eu quase diariamente olho pelo menos três ou quatro jornais europeus. Mas eu não faço uma leitura sumarenta como faço no meu cotidiano dos jornais em suporte papel. Para mim, os periódicos científicos na 'rede' só levam uma vantagem: a rapidez da disseminação da informação e a facilidade de acesso à mesma. Não parece que haja problema de credibilidade. Mesmo com todas as fraudes possíveis, vejo, por exemplo, a Wikepedia como excelente exemplo de possibilidade de divulgação do conhecimento idôneo. Parece-me que os buscadores são hoje os grandes facilitadores de nossa vida intelectual. Se me for permitido uma propaganda, destacaria o quanto o Google Scholar refinou nosso trabalho. Ciência & Comunicação: O jornalismo científico tem, a nosso ver, instaurado uma ditadura dos especialistas, considerados, no nosso campo, como as únicas fontes confiáveis. A seu ver, o cidadão comum, o saber popular, de maneira geral, não tem nada a dizer no debate sobre temas de C & T (biodiversidade, células-tronco, transgênicos, automação dos sistemas produtivos, reforma agrária etc)? O jornalismo científico é (ou deve ser) um território demarcado pelas fontes especializadas, uma elite com "currículo Lattes"? Attico Chassot: Temos aqui pelo
menos três interrogantes e vou me permitir segmentá-los.
Repito, que sou alienígena na área e não sei avaliar
a existência de da chamada ditadura dos especialistas. Ciência & Comunicação: Baseado em sua experiência, enquanto docente, pesquisador e cidadão, que conselhos o senhor daria para um jornalista que se dispõe (ou é convocado) para o trabalho de divulgação científica? Attico Chassot: Acredito que já
tenha dado conselhos demais nas minhas respostas anteriores. Mas, para
encerrar eu diria que talvez nos falte convicções acerca
que se pode usar diferentes tipos de óculos para ler o mundo:
Talvez possamos identificar em nosso redor leituras marcadas pelo senso
comum, pelos mitos, pelas religiões ou até pela Ciência.
Aqui e agora, é muito importante afirmarmos que qualquer uma
destas leituras não recebe o rótulo de que seja a mais
certa ou mais adequada. Cada uma e cada um de nós pode se afiliar
a uma destas leituras. Na proposta que estamos envolvidos - e aqui o
plural não majestático, pois nós inclui a Revista
Comtexto e seus produtores aos quais adiro aqui - há o convite
para pensarmos acerca de como a Ciência lê o mudo natural,
antecipando que não estamos desqualificando qualquer uma das
outras leituras e muito menos sugerindo que se abandone uma ou outra
em favor desta que apenas fazemos central nesta conversa.
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