Volume 2, Número 2, Julho de 2005
Entrevista
Divulgação e alfabetização científica: dialogando com Attico Chassot


Attico Chassot, professor há 44 anos, é licenciado em Química (UFRGS) e mestre e doutor em Educação (UFRGS). Autor entre outros de A ciência através dos tempos (Moderna) com mais de 60 mil exemplares vendidos. É professor do Centro de Ciências Humanas da UNISINOS, vinculado à Linha de Pesquisa Currículo, Cultura e Sociedade do Programa de Pós-Graduação em Educação.

 

 

Ciência & Comunicação: A ciência e a tecnologia contemporâneas têm-se tornado reféns de interesses extra-científicos (comerciais, militares, políticos etc). O senhor julga que essa afirmação é correta? Se sim, o que fazer para romper estes vínculos?

Attico Chassot: Acredito que essa afirmação possa ser considerada adequada, mesmo que pudesse discutir se esses interesse são extra-científicos. Vou procurar encontrar dois exemplos relacionados com o direito de propriedade intelectual. Quando alguém transforma uma semente, propriedade milenar de toda humanidade em uma semente estéril (o caso do milho híbrido, uma semente que não é semente, pois na segunda geração não pode mais ser usada como semente) somos reféns de conhecimentos que nos roubaram. Veja-se, uma outra situação, o preço de determinados remédios, onde ao lado dos altos custos dos valores agregados por pesquisas temos que pagar muitos outros valores. O preço dos remédios para portadores do vírus do HIV poderia ser muito menor se não houvesse tantos lucrando em cima da dor. O prolongamento de vidas de humanos em UTI não estaria associado a industria que fabrica equipamentos hospitalares. Eu diria que esses interesses não são extra-científicos (porque há Ciência na biopirataria ou na industria que lucra com a dor); são anti-éticos. Como romper esses vínculos: declarando bens de todos patentes que foram pirateadas (sementes, matrizes de animais...) ou patentes que foram desenvolvida para se ter lucro com dor de outros. Pode parecer quixotesca minha proposta, mas não há muitas outras maneiras de se fazer libertação.

Ciência & Comunicação: Estudo recente (foi capa da revista Educação) evidenciou uma carência de 250 mil professores de ciências no Brasil, sinalizando para uma situação ainda mais dramática nos próximos 10 anos. A que se deve esta situação? Como superar este impasse? Qual o prejuízo maior, se nada for feito para atenuar o problema?

Attico Chassot: Estas interrogações me remetem para as conseqüências de um acontecimento que foi sensacional, do qual a maioria dos leitores de 'Comtextos' não recorda, até porque ele já se fará cinqüentenário, em breve. No domingo, 6 de outubro de 1957, as manchetes de praticamente todos os jornais do Planeta versavam sobre o mesmo assunto. Por exemplo, o Correio do Povo de Porto Alegre destacava: "O SATÉLITE ARTIFICIAL É A MAIOR VITÓRIA DA CIÊNCIA HUMANA ATÉ OS NOSSOS DIAS". O frenesi planetário era pelo lançamento do Sputnik. No Brasil, este nome foi aportuguesado para esputinique, e assim dicionarizado, fez parte do imaginário popular; virou tema de marchas de carnaval e de chanchadas da Atlântida. Este primeiro satélite, não maior que uma bola de futebol, mudou o mundo em muitas dimensões, por exemplo, a miniaturização tecnológica. Ao lado da natural autolouvação do regime soviético pela espetacular conquista, houve, primeiro, um natural ceticismo estadunidense e desqualificação do feito. Em seguida, no mundo Ocidental, leia-se nos Estados Unidos, ocorreram reações na busca da recuperação do lugar perdido na corrida espacial. É aqui, que faço uma conexão com pergunta. Os Estados Unidos também buscaram culpados em 1957 por sua desvantagem na corrida espacial. Um apareceu em evidência: a Escola. Mais precisamente, o ensino de Ciências ou ainda mais, as deficiências do sistema educacional estadunidense foram apontados como responsáveis pelas desvantagens tecnológicas. Reuniu-se, então, os mais renomados cientistas, a maioria laureada com o Nobel de Química ou de Física, para conceber estratégias para ensinar Ciências na Escola Básica. Resultaram projetos famosos, que foram traduzidos para muitos países do bloco liderado pelos Estados Unidos. No Brasil em conseqüência surgiram os Centro de Treinamento de Professores de Ciências. No período da ditadura esse esforço foi destruído. Nos anos 70, o Brasil solicitou do Banco Mundial um grande volume de recursos para desenvolvimento científico. Um dos erros fundamentais era imaginar que poderiam substituir a liderança dos cientistas, transferindo para os professores das escolas primárias e secundárias o papel de inovadores. Fizeram uma festa de feiras de ciências com desenhos e pedaços de isopor, que pagamos em dólares. Desde então, houve tentativas, algumas até bem conduzidos, mas nada terá sucesso se não se investir maciçamente em formação de professores e nessa há uma primeira exigência: a valorização das mulheres e dos homens que fazem Educação. Isso implica também um reconhecimento salarial. As conseqüências se tal não for feito: nossa eterna dependência tecnológica.

Ciência & Comunicação: Qual o papel a ser desempenhado pela mídia no processo de alfabetização científica? Ela o tem cumprido?

Attico Chassot: Respondo primeiro a questão final com um solene não. Aqui, sou seduzido a contar uma anedota. Para que não pensem que conspurco esta entrevista, uso a palavra anedota na primeira das acepções de dicionarização: Relato sucinto de um fato jocoso ou curioso. Há não muito tempo, estava em um hotel e percebi que não havia indicações do 13º andar no painel do elevador. Em outro momento, entrei no mesmo, e solicitei ao ascensorista, de maneira muito circunspeta, que marcasse 13. Ele procurou no painel e perguntou pelo número de meu apartamento e disse-me, então, a que andar devia dirigir-me. Perguntei-lhe há quanto tempo que ele trabalhava no hotel. Contou-me que estava ali há quase um ano, confirmando que nunca havia notado que não havia 13º andar - ou melhor, o 13º andar existia, só não havia essa numeração -, mas soube me explicar, com corretas inferências acerca das razões pelas quais se devia ter optado pela não presença do 13. Quando, no dia seguinte, no evento que me levara ao hotel, cujos proprietários espantam maus agouros com a eliminação de números, houve uma discussão acerca da previsibilidade de um acontecimento na noite seguinte haveria um eclipse lunar e se comentava o quanto, há tempos mais remotos, esse fenômeno assustaria os humanos pelo seu caráter excepcional, mas que agora pode ser previsto com muita antecedência. Afirmei aos que estavam comigo que poderia prever que dentro os presentes - quase todos jornalistas envolvidos com divulgação científica, hospedados no hotel -, que ninguém estava em apartamentos que iniciava com 13. Houve uma surpresa, pois ninguém se dera conta do inusitado. Explico porque trago essa evocação. Primeiro o quanto, usualmente somos pouco observadores de nosso entorno. Os fatos e os fenômenos estão em nosso redor. A observação é uma das exigências primeiras para fazer Ciências. Quem não vê o fenômeno não pode fazer qualquer outra inferência sobre o mesmo. Fenômenos acontecem ao nosso lado. Podemos não vê-los... ou, sermos testemunhas cegas, mesmo quando partícipes do mesmo.
Todavia, há outras lições a tirar do meu relato, mas antes não resisto e quero contar outra anedota, relacionada com a afirmação sobre a nossa não sensibilidade à observação do nosso cotidiano.
Dois amigos se encontram em uma muito movimentada rua de uma mega-metrópole. Um deles se surpreende ao ver o outro com uma rede de caçar borboletas. O lepidopterólogo disse ao amigo: "Vou te provar como estou no lugar certo!" Tirou de sua carteira uma nota de um real, a colocou discretamente na calçada e disse: "Vejamos quanto tempo o dinheiro permanece até que alguém o recolha!" Não levou 20 segundo e um transeunte se apossou do dinheiro. Disse, então, o colecionador de borboletas: "As pessoas acham o que procuram. Aqui nesta cidade, na verdade todos parecem estar em busca de dinheiro. Eu procuro borboletas e lá naquela flor, que poucos vêem, há uma que me parece exótica! Tchau, que vou a minha pesquisa!...".
Como leitor de jornais, eu dou-me conta que só se notícia o esotérico. O trivial não aparece. E isso ocorre porque não nos damos conta que no edifício não há 13º andar ou que há flores e nelas há borboletas nas metrópoles. Talvez aqui valesse a recomendação. Usualmente, conhecer a Ciência é assunto quase vedado àqueles que não pertencem a uma hermética comunidade científica. Já discuti em diversos textos o quanto há necessidade de nós, professoras e professores de disciplinas escolares, especialmente aquelas da área de Ciências, fazermos a migração do esoterismo para o exoterismo. Se me fosse permitido um recado aos leitores de Comtexto, especialmente aqueles envolvidos com jornalismo, diria que é preciso migrar do esoterismo para o exoterismo.

Ciência & Comunicação: Os nossos centros geradores de C & T (universidades, institutos e empresas de pesquisa) têm, na sua opinião, conseguido comunicar-se com a sociedade? Eles têm efetivamente contribuído para o processo de democratização do conhecimento científico?

Attico Chassot: Acredito ter respondido esta pergunta no segmento anterior. Conhecer a Ciência é assunto quase vedado àqueles que não pertencem a uma esotérica comunidade científica. Quando reflito acerca desses assunto recordo as significativas contribuições de Tomas Kuhn em seu Livro As estruturas das revoluções científicas. Enquanto houver o encastelamento na soberba daquilo que se pensa saber não haverá democratização do conhecimento. Não quero parecer redundante, mas vou repetir o que disse antes: é preciso migrar do esoterismo para o exoterismo.

Ciência & Comunicação: O sigilo e o controle da informação, como decorrência do patrocínio dos projetos de C & T por grupos privados, têm penalizado a comunidade científica, obstruindo o processo de circulação de informações e troca de experiências? Estas restrições, de alguma forma, prejudicam o próprio processo de divulgação científica?

Attico Chassot: O dito popular "O segredo é alma do negócio' cabe aqui como uma luva. Assim, é fácil inferirmos conseqüências das exigências de se ter que guardar segredos. Parece, que a expressão 'divulgação científica' carrega uma marca pejorativa de poder tornar público apenas aquilo é banalizável. Essa é uma leitura no mínimo ingênua. Parece que em termos de controle da informação ninguém sabe fazer melhor uso da mesma do que a Igreja Católica, com seus conclaves. E vejam como consegue faturar com seus segredos.

Ciência & Comunicação: A relação jornalistas x pesquisadores/cientistas, que tradicionalmente tem sido tensa, está, a seu ver, melhorando nos últimos anos? Esta tensão, ainda existente, decorre de fatores intrínsecos ao próprio "ethos" das duas áreas ou por absoluta falta de compreensão entre as partes?

Attico Chassot: Eu sou um alienígena nessa paróquia - cheguei a essa pergunta viciado no final da resposta à anterior. Não conheço as disputas. Posso imaginá-las, pois vivo na academia e ela é um lócus - e falo das Universidades do mundo inteiro - de vaidades. A maneira como gerimos e supervalorizamos o nosso 'poder' já deu teses e extensa produção acadêmica. Mas não tenho competência para responder a pergunta.

Ciência & Comunicação: Como o senhor avalia a Web, enquanto ambiente onde se divulga a ciência e a tecnologia? Os periódicos científicos nela inseridos (alguns que só existem na Internet) já adquiriram credibilidade junto à comunidade científica ou há ainda resistência a eles? Se sim, por que razão?

Attico Chassot: Primeiro, não tenho estatura intelectual para avaliar a 'rede mundial de computadores'. Não sei quantos poderiam responder a essa pergunta, até porque na sua curta existência ela já nos pregou peças e furou futurições (as frustrações do e-comércio ou a não adesão aos e-livros). Acredito que quando se fez um ranking, no ocaso do segundo milênio e se colocou a invenção da imprensa como a maior descoberta - claro que numa leitura ocidental - esta escolha foi correta. Muito provavelmente, hoje, temos na Web a mais significativa concretização - e aqui reconheço que a palavra está mal posta - da imprensa. Eu quase diariamente olho pelo menos três ou quatro jornais europeus. Mas eu não faço uma leitura sumarenta como faço no meu cotidiano dos jornais em suporte papel. Para mim, os periódicos científicos na 'rede' só levam uma vantagem: a rapidez da disseminação da informação e a facilidade de acesso à mesma. Não parece que haja problema de credibilidade. Mesmo com todas as fraudes possíveis, vejo, por exemplo, a Wikepedia como excelente exemplo de possibilidade de divulgação do conhecimento idôneo. Parece-me que os buscadores são hoje os grandes facilitadores de nossa vida intelectual. Se me for permitido uma propaganda, destacaria o quanto o Google Scholar refinou nosso trabalho.

Ciência & Comunicação: O jornalismo científico tem, a nosso ver, instaurado uma ditadura dos especialistas, considerados, no nosso campo, como as únicas fontes confiáveis. A seu ver, o cidadão comum, o saber popular, de maneira geral, não tem nada a dizer no debate sobre temas de C & T (biodiversidade, células-tronco, transgênicos, automação dos sistemas produtivos, reforma agrária etc)? O jornalismo científico é (ou deve ser) um território demarcado pelas fontes especializadas, uma elite com "currículo Lattes"?

Attico Chassot: Temos aqui pelo menos três interrogantes e vou me permitir segmentá-los. Repito, que sou alienígena na área e não sei avaliar a existência de da chamada ditadura dos especialistas.
E vou para o final da questão considerando preconceituoso falar-se em uma elite com currículo Lattes. A plataforma Lattes não é elitista. Pode até estar sendo usada como uma régua inadequada para se fazer certos cortes. Qualquer um pode gratuitamente preencher o seu currículo Lates e este hoje é um facilitador de nossas vidas. Tenho uma orientanda que pesquisa o uso da plataforma Lates para fazer alfabetização científica no ensino médio. Ela traz o depoimento de uma professora que com sério problema ocular, consultou os currículos Lattes de um determinado departamento de oftalmologia para verificar que médicos pesquisavam a doença que a afligia. Muito provavelmente foi a das primeiras pessoas que chegou a um consultório e ao ser perguntada quem fizera a indicação, respondeu o Lattes. Posso não ser simpático com meu entrevistador, mas acredito que currículo Lattes faz inclusões, também, talvez num futuro próximo, entre os jornalistas. Posso contar que conheço um responsável pela pesquisa de uma Universidade que anda com seu notebook e a qualquer momento ranqueia os professores de sua instituição.
Quanto à questão acerca do conhecimento popular e as tecnologias de ponta, minha resposta é o contrário do enunciado: tem tudo a ver. Mesmo não tendo a consideração de cientistas mais ortodoxos me permito citar aqui Feyerabend, em seu livro 'Contra o Método': Qualquer idéia, embora antiga e absurda, é capaz de aperfeiçoar nosso conhecimento. [...] o conhecimento de hoje pode, amanhã, passar a ser visto como conto de fadas; essa é a via pelo qual o mito mais ridículo pode vir a transformar-se na mais sólida peça da Ciência. Claro que esta é uma outra postura para pensar na Ciência. Não acredito que possa converter em feyerabendianos alguns dos leitores de Comtexto.

Ciência & Comunicação: Baseado em sua experiência, enquanto docente, pesquisador e cidadão, que conselhos o senhor daria para um jornalista que se dispõe (ou é convocado) para o trabalho de divulgação científica?

Attico Chassot: Acredito que já tenha dado conselhos demais nas minhas respostas anteriores. Mas, para encerrar eu diria que talvez nos falte convicções acerca que se pode usar diferentes tipos de óculos para ler o mundo: Talvez possamos identificar em nosso redor leituras marcadas pelo senso comum, pelos mitos, pelas religiões ou até pela Ciência. Aqui e agora, é muito importante afirmarmos que qualquer uma destas leituras não recebe o rótulo de que seja a mais certa ou mais adequada. Cada uma e cada um de nós pode se afiliar a uma destas leituras. Na proposta que estamos envolvidos - e aqui o plural não majestático, pois nós inclui a Revista Comtexto e seus produtores aos quais adiro aqui - há o convite para pensarmos acerca de como a Ciência lê o mudo natural, antecipando que não estamos desqualificando qualquer uma das outras leituras e muito menos sugerindo que se abandone uma ou outra em favor desta que apenas fazemos central nesta conversa.