Volume 2, Número 2 , Julho de 2005
   
  Literatura
  Periodismo Científico Y Divulgación de la Ciencia
Manuel Calvo Hernando
Madrid/Espanha, Asociación de Autores Científico-Técnicos y Académicos, 2005
 

 

O autor, uma das maiores referências mundiais na área de Jornalismo Científico, nos brinda, novamente, com outro trabalho relevante e que visa sobretudo contribuir com os pesquisadores/autores dispostos a encarar a difícil tarefa de divulgar conhecimento técnico-científico para o grande público.
A obra tem inúmeras virtudes, como a de descrever e analisar, de maneira didática, os desafios inerentes ao processo de divulgação científica, mas agrega outras contribuições: destaca prestigiados divulgadores de ciência em todo o mundo, resgata o esforço de popularização do conhecimento científico na Iberoamérica, enuncia as distinções entre o discurso científico e jornalístico e dá orientações práticas para o trabalho de divulgação.
Uma leitura valiosa para jornalistas e divulgadores de ciência e que tem a capacidade de seduzir todos aqueles que estão comprometidos com o processo de democratização do conhecimento científico.

Tecnologia Social em debate

"Falar em tecnologias sociais implica abordar processos que, ao mesmo tempo, se inserem na mais moderna agenda do conhecimento e na mais antiga das intenções - a superação da pobreza." Com essa frase, presente nas primeiras páginas do recém-lançado Tecnologia Social - Uma Estratégia para o Desenvolvimento (216 páginas), o ministro Luiz Gushiken sintetiza o objetivo/espírito do livro, uma coletânea de artigos de autores como Paul Singer, professor de economia da USP e Secretário Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, e Renato Dagnino, pesquisador e professor titular do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp.

"A idéia de publicar o livro surgiu quando começamos a discutir a criação da Rede de Tecnologia Social e percebemos que faltavam textos para subsidiar nossos debates", conta Rodrigo Fonseca, representante da FINEP na comissão organizadora da Rede (uma iniciativa da Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP, da Fundação Banco do Brasil, da Petrobras, da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica da Presidência, do Sebrae, do Ministério da Ciência e Tecnologia e do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome). A Rede de Tecnologia Social será oficialmente lançada no início de 2005.

"Além disso, percebemos que existem várias abordagens conceituais e teóricas sobre o tema e, por isso, o livro também é uma forma de dar voz a esses vários pontos-de-vista", acrescenta ele. Exemplos disso são os artigos "Sobre o marco analítico-conceitual da tecnologia social" (Renato Dagnino, Flávio Cruvinel Brandão e Henrique Novaes), "Tecnologias sociais e políticas públicas" (de Antonio Lassance e Juçara Pedreira) e "Reflexões sobre a construção do conceito de tecnologia social" (do Instituto de Tecnologia Social - ITS).

Rodrigo Fonseca ressalta que a FINEP esteve presente durante todo o processo de elaboração do livro (incluindo a etapa de seleção dos autores), e que uma das preocupações editoriais foi o "diálogo" entre o tema tecnologia social e sua inter-relação com outras formas de ação social. Daí a importância dos artigos "Senaes e a economia solidária - democracia e participação ampliando as exigências de novas tecnologias sociais" (Paul Singer e Sonia Maria Portella Kruppa), "Tecnologia social e desenvolvimento local" (Silvio Caccia Bava) e "Sistema local de informação e cidadania" (Ladislau Dowbor).

Exemplos práticos

Teodoro Koracakis, representante da FINEP na equipe editorial responsável pela publicação do livro, destaca que "foram selecionados textos que conseguem conectar reflexão teórica a experiências reais de tecnologias sociais".

No breve artigo "Tecnologia social: a experiência da Fundação Banco do Brasil na disseminação e reaplicação de soluções sociais efetivas", Jacques Pena e Claiton José Mello citam casos de sucesso, como o da cisterna de placas pré-moldadas, desenvolvida na Paraíba. Essa tecnologia oferece à população uma alternativa para obter água limpa e fácil de ser tratada. Sua implementação é simples: consiste na construção de uma estrutura para captação e armazenamento da água da chuva por meio de calhas instaladas nas casas, ligadas a uma cisterna de placas. Atualmente, existe uma meta de diversas instituições e do próprio Governo Federal de implantar um milhão de cisternas na região do semi-árido.

Outro exemplo, também citado no livro, é o da estação de tratamento de esgoto compacta e de baixo custo desenvolvida pela Universidade Federal do Espírito Santo, que pode ser construída tanto em regiões urbanas como rurais. Para se viabilizar, o projeto foi financiado pela FINEP por meio do Programa de Pesquisa em Saneamento Básico (Prosab). Enquanto uma estação convencional precisa de 3.500 metros quadrados para cada mil habitantes, a versão desenvolvida no Espírito Santo ocupa apenas 70 metros quadrados para a mesma quantidade de pessoas. Essa estação já está presente em 40 municípios brasileiros e dois no exterior, beneficiando cerca de três milhões de pessoas.

Museus e centros de ciência virtuais. Complementação e potencialização do ensino de ciências através de experimentos virtuais
Marcelo SABBATINI
Departamento de Teoria e História da Educação.
Universidade da Salamanca. Novembro de 2004.
Orientadores: Dr. Miguel Anjo Quintanilla e Dr. Joaquín García Carrasco

Publicado originalmente em: Revista Electrónica Teoría de La Educación Educación y Cultura En La Sociedad de La Información, Salamanca, v. 6, n. 1, 2005.

Será possível experimentar uma experiência "real" ao visitar um museu virtual? E ainda mais paradoxalmente, seria possível retornar a uma realidade muitas vezes perdida na artificialidade das exposições dos museus científicos tradicionais, através de aplicações do mundo digital? O objetivo principal desta tese de doutorado é caracterizar as diferenças entre os museus científicos virtuais e os museus tradicionais, relacionando as novas possibilidades oferecidas pelos primeiros, assim como os desafios de sua implementação. Como objetivo secundário são pesquisadas as novas possibilidades de ensino e aprendizagem em ciência oferecidas pelas novas tecnologias de comunicação, em especial Internet, que poderiam incorporar-se às atividades dos museus científicos virtuais, com especial ênfase para os experimentos virtuais e os ambientes virtuais de aprendizagem.

A primeira parte da tese consiste em uma ampla revisão crítica da literatura sobre o tema, com especial atenção para a série de conferências denominadas "Museums and the Web", realizadas dede 1997 até a atualidade, onde são debatidas a filosofia, os objetivos e as questões de gestão e avaliação dos sites Web de museus, mais além daquelas considerações puramente técnicas. O principal traço distintivo do museu virtual seria a capacidade de interconectar toda informação disponível, além de conectar os usuários a esta informação e os usuários entre si. Na prática esta capacidade assume a forma de recursos interativos multimídia, de participação em comunidades de usuários de interesses comuns transcendendo limites geográficos, de permitir a usuários deficientes físicos ou que de outra maneira não poderiam aceder fisicamente ao museu o acesso a conteúdos culturais antes inacessíveis, de estabelecer um canal de comunicação e diálogo entre os visitantes e os profissionais do museu, e similarmente, da formação de grupos de interesses especiais e de projetos intermediados pelo museu, que reencontra assim, seu papel de foro imparcial, de ponto de encontro de toda a sociedade.

Nesta primeira parte o leitor também pode encontrar uma revisão bibliográfica de todos os campos disciplinares relacionados com a museologia científica e com o ensino de ciências. Assim, a comunicação pública da ciência e suas diferentes modalidades, incluindo o Jornalismo Científico (Capítulo 2); os museus científicos e centros de ciência e seu papel na percepção pública da ciência e da tecnologia (Capítulo 3); o ensino e aprendizagem da ciência, a educação no museu e em outros contextos informais de aprendizagem (Capítulo 4), os princípios teóricos e aplicação das novas tecnologias de informação e comunicação à educação (Capítulo 6) e os conceitos de virtualidade e simulação como formas de representação da realidade (Capítulo 1) são estudados com o objetivo de estabelecer os marcos de referência para a argumentação posterior.

Na segunda parte, mediante um estudo de caráter empírico, busca-se de identificar os conteúdos e estratégias de ação utilizadas por museus e centros de ciência no âmbito digital. Através de uma análise de conteúdo sistemática e profunda se identificaram quais são estes conteúdos e funcionalidades e qual a situação dos museus virtuais da América Latina e Península Ibérica em relação com o resto do mundo. Como resultado, observa-se uma grande diferença dos museus situados neste âmbito em comparação com outros países, na medida em que não só não se aproveitam as potencialidades dos museus realmente "verdadeiramente" interativos (aqueles que proporcionam visitas genuínas em si mesmas no domínio digital) mas a informação relacionada com o museu físico não é transportada à Internet, demonstrando pouca ênfase no marketing e na captação de novos visitantes. Os dados obtidos foram analisados estatisticamente, especialmente com a geração de três índices de correlação que refletem, respectivamente, a medida em que estes museus têm como conteúdos 1) a informação relacionada com o museu físico, 2) a informação mais básica sobre o museu virtual e 3) os conteúdos de interação e comunicação mais sofisticados. A partir dos resultados, tiram-se algumas conclusões a respeito da trajetória de construção destas instituições do "terceiro entorno". Em primeiro lugar, o museu físico é um ponto de partida para a construção do museu virtual, com a transposição dos conteúdos já existentes a uma representação digital, para logo passar para experimentação com visitas puramente virtuais. E de forma relacionada, para chegar a um museu virtual verdadeiramente interativo é necessário passar obrigatoriamente por um bom museu virtual "básico". Em conjunto, estes resultados parecem indicar que as mudanças conceituais, culturais e organizacionais necessárias para a implementação dos museus virtuais devem apoiar-se nas iniciativas existentes, para, a partir daí, utilizar o conceito de virtual como interação social (frente a um enfoque excessivamente baseado no artefato digital) para construir sua própria identidade.

Em último lugar, na terceira parte é realizada a proposta de uma iniciativa de caráter tecnológico denominada "Repositório Digital de Recursos Multimídia em Ciência e Tecnologia", cujo objetivo principal é estabelecer vínculos entre o ensino formal das escolas e os museus científicos e centros de ciência, em sua missão comum de aumentar o interesse por e fazer acessíveis os conhecimentos científicos e tecnológicos. A base de argumentação de tal proposta é que as ações formativas realizadas nos museus científicos e centros de ciências virtuais podem (e devem) estar em consonância com o panorama mais general da educação suportada tecnologicamente e da educação à distância, particularmente através da concepção de uma economia de "objetos de aprendizagem". Esta convergência poderia alcançar-se utilizando padrões técnicos educativos adequados, com uma adaptação para a inclusão dos objetos museísticos virtuais. A convergência conceitual entre "metacentro", ou museus de museus e os repositórios digitais, entendidos como dispositivos centrais de acesso à informação, pode servir de base, então, para ações colaborativas que resultem em um benefício econômico, através da economia de recursos, e em um fortalecimento da imagem dos museus virtuais frente ao resto da sociedade. Mas também em exposições e atividades mais ricas, frutos da ação sinergética entre distintos profissionais e diferentes instituições, possivelmente em âmbito intercultural e internacional.

Em seu conjunto, trata-se de uma tese "realista", na qual se reconcilia os conceito de "real" e de "virtual", na medida em que se propõe o último apenas como um meio, um canal, para realizar ações pedagógicas e museísticas de efeitos reais. Assim, cabe destacar que mais que uma tentativa de substituir os museus tradicionais e a experiência de visita e de contato com o objeto museístico, os museus virtuais encontram sua razão de ser naquelas experiências que pertencem exclusivamente ao âmbito digital. O conceito de museu virtual adentra um estágio de maturidade, com a constatação de que constitui uma ameaça às instituições reais, e sim uma forma alternativa de expressão e de ação, além de um campo de inovação, propício a novas experiências museísticas, por uma parte, e à pesquisa acadêmica e científica, por outra. Em conclusão, os museus virtuais abrem inumeráveis possibilidades de acesso às manifestações e criações culturais que nem a escola nem os textos podem resolver por suas limitações como instrumentos de acesso à cultura.