Volume 3
Número 4

20 de julho de 2006
 
 * Edição atual    
Documento sem título

          A ciência como agenda política

          Antes mesmo de definidas as candidaturas para a eleição presidencial e dos Estados em 2006, os debates entre os postulantes já estavam a pleno vapor, particularmente nos meios de comunicação, especialmente com o embate PT x PSDB (Lula x Alckmin) para a Presidência da República.

          Como de costume, a discussão tem se centrado (e podemos imaginar que tenderá a permanecer assim até o dia das eleições) em determinados temas, como segurança, ética e corrupção, desenvolvimento, alimentada por interesses particulares e pela busca do voto a qualquer preço. Poucas chances novamente de a ciência e a tecnologia ganharem espaço, seja nos programas de governo, seja nas falas dos candidatos que, a exemplo de tantos outros que já os sucederam, não as contemplam entre suas temáticas preferidas, certamente admitindo que elas estão longe das preocupações de brasileiros e brasileiras.

          Há um imenso equívoco nestas posições, simplesmente porque a ciência e a tecnologia tendem a ser percebidas como processos e/ou atividades que se desenvolvem em lugares privilegiados por mentes também privilegiadas, quando não como algo que nada tem a ver com o "aqui e agora".

          Embora o presidente Lula esteja se reportando, até com alguma frequência, ao programa do Biodiesel, notadamente para aproveitar um nicho bastante explorado atualmente pela mídia, existe um discurso enorme entre a teoria e a prática. O Governo nem mesmo tem conseguido manter estável o preço do álcool que continua oscilando ao sabor dos interesses dos usineiros, que estão mais atentos ao preço internacional do açúcar do que motivados para a adesão a qualquer alternativa energética. Fala-se em Nanotecnologia, mas os recursos são tímidos para colocar o Brasil em condições de competir com outros países que, de há muito, já perceberam as vantagens de financiar projetos estratégicos nessa área. A vigilância sanitária tropeça nas próprias pernas e sofre assédio permanente dos grandes lobbies industriais nos quais se destaca o permanente esforço da indústria farmacêutica, da indústria agroquímica etc para aumentar vigorosamente os seus lucros.

          As universidades e os centros de pesquisa (estaduais ou federais) continuam enfrentando inúmeras dificuldades, com os investimentos para a pesquisa e os salários dos pesquisadores deteriorando-se a olhos vistos, numa lento mas dramático processo de sucateamento.

          Lula e Alckmin têm mesmo pouco a falar sobre ciência e tecnologia porque, ao longo de suas trajetórias, não tem contribuído efetivamente para alterar o cenário desfavorável em que elas se encontram. Enquanto isso, o País despenca no ranking da produtividade e da inovação e continua apostando que o futuro está apenas na exportação de commodities.

          Alguns centros de excelência, como a Embrapa, têm sido penalizados por este olhar vesgo e têm se valido da competência e dedicação de seus pesquisadores e técnicos para manter e ampliar projetos de relevância para o País. Ao mesmo tempo, surgem recursos para auxiliar empresas e setores que, se encontram dificuldades para manter empregos, é porque têm se caracterizado por uma gestão pouco competente, como as montadoras.

          A comunidade científica, as universidades, os institutos de pesquisa, os jornalistas e comunicadores de ciência não podem se omitir nesse momento e estarem empenhados para que a ciência e a tecnologia frequentem a agenda dos candidatos. Elas não podem continuar sendo acionadas apenas quando servem a interesses eleitoreiros e podem render bons espaços na mídia.

          A ciência e a tecnologia brasileiras precisam de compromisso, não de discursos.

 

 
Imprimir   Enviar para um amigo