Volume 3
Número 4

20 de julho de 2006
 
 * Edição atual    
Documento sem título

          Divulgação científica e células tronco, por Karla Pelegrino

          Dra. Lygia da Veiga Pereira é pesquisadora e professora livre-docente do departamento de Genética e Biologia Evolutiva, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, onde ministra aulas de Genética Humana. Sua linha de pesquisa envolve, dentre outros projetos, a geração de modelos animais para estudo de síndrome de Marfan, a geração e a caracterização de novas linhagens de células tronco embrionárias de camundongo e o processo de inativação do cromossomo X. Ela é formada em física pela PUC-RJ, obteve seu título de mestrado em ciências biológicas pela UFRJ e seu título de PhD pela Mount Sinai School of Medicine, City University of New York, MSSM, Estados Unidos. Além de pesquisadora, ocupa o cargo de diretora científica da empresa CordVida, que armazena células tronco do sangue do cordão umbilical. É autora de diversos artigos científicos em revistas especializadas, como PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), além de ter produzido vários artigos publicados em jornais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Revista Galileu, dentre outras. Também é autora dos livros Clonagem - da ovelha Dolly às células-tronco (São Paulo: Editora Moderna, 2005), Clonagem, Fatos e Mitos (São Paulo: Editora Moderna, 2002) e.Sequenciaram o genoma humano... E agora? (São Paulo: Editora Moderna, 2001) e escreveu capítulos em livros como Bioética e biorisco: abordagem transdisciplinar (O Admirável Mundo Novo da Clonagem. In: Bioética e biorisco: abordagem transdisciplinar. Silvio Valle e José Luiz Telles. Rio de Janeiro, 2003).

Ciência & Comunicação: Qual é a importância da divulgação científica?

Lygia Veiga Pereira: Eu acho fundamental. Da mesma forma que se divulgam os acontecimentos de economia e outros setores de nossas vidas, de uma forma em que as pessoas entendam, o mesmo deve acontecer com a ciência. Ainda há que se pensar que há um público por trás da ciência, financiando a pesquisa e que precisa estar ciente do que se produz. As pessoas têm que saber o que está acontecendo. Muitas destas pesquisas têm implicações pra população, como os transgênicos. Quanto mais as pessoas estiverem informadas sobre os acontecimentos científicos, mais protegidas elas vão estar de propostas de mau uso das novas tecnologias. No caso das células tronco, por exemplo, se as pessoas estiverem bem informadas, ficam reduzidas as chances de um charlatão de vender falsos tratamentos.

Ciência & Comunicação: E como você avalia quantitativa e qualitativamente a divulgação científica pelos meios de comunicação? O espaço para divulgação é suficiente e a qualidade da cobertura é positiva?

Lygia Veiga Pereira: A impressão que eu tenho é que nos últimos anos a ciência tem recebido mais atenção na mídia, tanto na impressa quanto na televisão. Através de temas como o genoma, transgênicos e as células tronco, que são coisas mais próximas de uma aplicação para o indivíduo, as pessoas têm tido interesse maior, e na medida em que esse interesse cresce, a mídia dá mais espaço. O espaço tem sido bom. A Folha e o Estado têm páginas diárias de ciência. Se formos comparar com o New York Times, que, somente na terça-feira, traz um caderno de ciência, não estamos mal, porque nossa produção, nestes dois jornais, é diária.

Ciência & Comunicação: Que problemas você identifica na cobertura de Ciência e Tecnologia pelos meios de comunicação? Como estes problemas poderiam ser resolvidos ou minimizados?

Lygia Veiga Pereira: Temos que ser cautelosos quanto aos conflitos de interesse existentes dentro da mídia. A prioridade é vender jornal, ter audiência, e, às vezes, para atingir esse objetivo, os fatos são veiculados com sensacionalismo. Cito como exemplo a capa da Veja referindo-se às células tronco como células milagrosas. Mesmo que na terceira página apareça uma frase dizendo tratar-se de projetos experimentais, o tom principal é mesmo sensacionalista. Eu acho que se, por um lado, temos tido mais espaço para a ciência na mídia, por outro, observamos este aspecto sensacionalista, talvez porque assim a matéria se torna mais atraente para o público em geral . O cientista teria, certamente, uma postura mais reservada, mais discreta. Para minimizar este problema, seria necessário que os meios de divulgação científica adotassem uma postura mais cautelosa quanto às descobertas científicas.

Ciência & Comunicação: Nesse contexto, quais veículos e jornalistas científicos brasileiros você destacaria? Que instituições, em sua opinião, desenvolvem um bom trabalho de comunicação?

Lygia Veiga Pereira: Eu falaria dos jornais Folha e Estado de São Paulo

Ciência & Comunicação: E a revista da FAPESP?

Lygia Veiga Pereira: Sim, mas para ler FAPESP, a pessoa já tem que ter um interesse por ciência. Eu estou falando dos meios de divulgação científica em massa. A revista FAPESP, com certeza, é a fonte brasileira mais completa sob este aspecto, mas a divulgação científica, nesse caso, não é tão acessível como nos jornais que citei. Ela não tem tanto floreio quanto Galileu e Scientic America, que tentam popularizar mais a notícia. O público FAPESP é mais restrito. Às vezes, as pessoas têm de ter um conhecimento maior para poder compreender a matéria.

Ciência & Comunicação: Como você vê o relacionamento entre jornalistas e pesquisadores no Brasil?

Lygia Veiga Pereira: Não sei ao certo o que dizer. A aproximação entre o jornalista e o pesquisador é necessária para que possa haver o acesso às informações que serão transmitidas à população.

Ciência & Comunicação: E qual a sua visão quanto à formação do jornalista científico no Brasil?

Lygia Veiga Pereira: Sinceramente, não estou ciente sobre como se dá essa formação, em termos profissionais, acadêmicos ou mesmo das especializações de um jornalista científico.

Ciência & Comunicação: Mas você acha que eles estão preparados para lidar com a divulgação da ciência? Tomando como base as experiências que você já teve no contato com jornalistas, qual a sua avaliação?

Lygia Veiga Pereira: Há de tudo, desde a situação irritante causada por um jornalista que vem fazer uma entrevista sem ter lido nada, que não sabe nada, que poderia ter entrado na internet e se informado um pouco mais sobre os assunto. Muitas vezes, o repórter chega aqui esperando ter uma aula particular sobre células tronco. Mas há também aquele bem informado, que vai buscar extrair de você uma visão a mais sobre o assunto. Isso é legal. Aquele que não faz o seu "dever de casa" é insuportável.

Ciência & Comunicação: Recentemente vivenciamos um momento crítico na divulgação de uma descoberta científica, com a revelação de que as pesquisas sobre clonagem humana desenvolvidas pelo sul-coreano Woo-Suk Hwang foram fraudadas (1), o que levantou diversas discussões sobre a validade dos dados científicos publicados. Na sua opinião, houve falha da revista Science ao publicar os artigos? Como os meios de divulgação científica poderiam evitar situações como estas?

Lygia Veiga Pereira: Algo interessante, que ficou bastante evidenciado com a fraude da Coréia, com notícia sobre clonagem terapêutica em seres humanos, em artigos publicados em 2004 e 2005, foi o fato de a mídia ter vendido isso já como uma verdade. Isso ocorreu até mesmo na área científica, porque o fato foi publicado na revista Science. Isso é um exemplo extremo, mas é algo que ilustra bem a diferença que há entre a ciência de livro-texto e a ciência de revista científica. Uma descoberta publicada numa revista científica terá que ser muito bem consolidada por outros grupos de pesquisas, por trabalhos adicionais, para que possa ser incorporada a um livro texto como uma verdade científica. Já a revista científica tem a durabilidade de um mês, de uma semana, dependendo da periodicidade. O livro-texto tem que ter uma duração de longo prazo. Então, por isso, para a informação ser incluída em um livro-texto, tem de estar muito bem consolidada. Acontece que, para a imprensa, os fatos só têm graça quando acabam de ser publicados em revista científica. Se ela for esperar estudos posteriores que confirmem a notícia, ela já terá perdido a graça. É essa a história do conflito de interesses da imprensa.

Então, nós, cientistas e público, temos que tomar cuidado com esse momento muito frenético que estamos vivendo em relação às células tronco, porque as coisas têm se progredido de maneira rápida demais e fica difícil para se concluir, pelo menos de imediato, o que de fato é relevante. Precisamos distinguir muito bem o que é um achado de uma verdade científica.

Um dos problemas que acontecem hoje em dia é que o acesso a informação é tão grande e rápido, que é inevitável que saia um artigo de alguém dizendo que fez uma clonagem terapêutica de um ser humano e que isso rapidamente seja admitido como uma verdade científica. Foi interessante como lição, para sermos mais cautelosos.

Ciência & Comunicação: Comparado ao serviço de divulgação da ciência no mundo, qual sua avaliação sobre a divulgação que se faz no Brasil?

Lygia Veiga Pereira: Programas internacionais como o National Geographic, Discovery Channel fazem bons programas de divulgação científica. No Brasil, a Globo News, a TV Cultura e o canal Futura têm procurado fazer programas de qualidade também. A FAPESP fez junto com o canal Futura uma série de programas de divulgação científica, tendo o Gabriel Pensador como apresentador, o que foi uma idéia legal para atrair o público jovem (2). Eu acho que temos tido iniciativas de divulgação científica que merecem ser destacadas.

Ciência & Comunicação: Os centros produtores de pesquisa, como a universidade, contribuem para o processo de divulgação científica? Você acha que eles têm uma estrutura adequada para divulgar seus resultados de pesquisa?

Lygia Veiga Pereira: Acho que tudo ainda é muito informal. Não existe uma formação de pesquisador para isso. Dependerá muito do talento individual de cada pesquisador em divulgar ou não. Alguns pesquisadores saberão transmitir de uma maneira acessível ao público as informações sobre ciência, outros não. E não quer dizer que um seja melhor ou pior que o outro por isso, assim como há aqueles que sabem e os que não sabem dar aulas. Isso não vai determinar o bom ou mau pesquisador que a pessoa será.

Ciência & Comunicação: Como você vê a disposição do pesquisador para divulgar ciência?

Lygia Veiga Pereira: É uma coisa muito pessoal. Não faz parte do mínimo que o pesquisador tem que ter para poder pesquisar. Isso é um algo a mais. Eu não fui contratada pela USP por essa minha capacidade, é uma coisa que eu tenho a mais, ótimo, mas não é uma exigência da academia.

Ciência & Comunicação: Mas você acredita que os órgãos de financiamento, como a FAPESP, contribuem para o pouco interesse que alguns pesquisadores têm em produzir artigos de divulgação científica em revistas não especializadas?

Lygia Veiga Pereira: Não. O que acontece é que a FAPESP está me dando dinheiro para fazer uma pesquisa que se publique em revista especializada. Eles podem até abrir linhas de financiamento para divulgação científica e nesse caso, eles vão avaliar isso de uma outra forma. Quando somos avaliados pela CAPES, no relatório você tem um espaço para artigos de divulgação científica, há um reconhecimento, mas claro, isso não está na mesma categoria de publicações em revistas especializadas.

Ciência & Comunicação: Com o acesso facilitado às informações sobre a produção científica brasileira, você crê que a população possa participar mais ativamente das decisões dos rumos que a pesquisa deve tomar?

Lygia Veiga Pereira: Eu acho que a participação sistemática da população, no sentido de decidir os caminhos que a ciência deve ou não tomar, fica difícil, é pedir demais. Mas há momentos que a população tem de participar: por exemplo, o Brasil vai aceitar que se utilizem embriões humanos para pesquisa? Você tem um aspecto científico nesta questão, mas também cultural, social, religioso e a decisão que o país vai tomar tem que ser uma média ponderada de todos esses aspectos. A comunidade científica tem uma posição e uma argumentação, mas isso por si só não é suficiente. Dessa forma, a população, levando em consideração os aspectos científicos, vai pesar o benefício que pode ser obtido por determinada pesquisa versus suas crenças religiosas, sua cultura, para no final tomar uma decisão, que pode não ser a que a comunidade científica gostaria, mas que reflete nossa cultura. Mas isso, claro, contanto que as pessoas estejam bem informadas para decidir. Por exemplo, a discussão sobre a destruição do embrião humano foi conturbada, em determinados momentos, por falta de informação. Eu preciso saber que, se por um lado estou protegendo a vida, dentro da minha concepção do que é vida, por outro lado eu estou abrindo mão de um desenvolvimento científico, que um dia pode levar à cura de algo. Eu preciso saber que estou comprometendo a fertilização in vitro, pois essa área envolve a criação desses embriões. O que não pode ocorrer é a pessoa tomar a decisão sem saber o preço que está pagando por ela.

Ciência & Comunicação: Como você avalia a importância que se dá a ciência na sociedade brasileira? Como é o interesse e o acesso da população brasileira à informação científica?

Lygia Veiga Pereira: A desvalorização da pesquisa está em parte refletida pela desvalorização da carreira acadêmica e do pesquisador. Como pode ser observado em parte pelas condições de trabalho, pelo salário, pela infra-estrutura que se tem. A percepção que as pessoas têm do professor universitário ainda envolve um certo glamour intelectual, mas por outro lado, ele continua sendo mal pago. Avaliando a média da população brasileira e saindo do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais, podemos perceber que as pessoas não conseguem ao menos entender a roubalheira que está acontecendo na política. Como se pode pedir a elas que entendam, por exemplo as pesquisas sobre células tronco, sobre o genoma? É complicado. Mas, o importante, é que as pessoas estão interessadas, o que já é uma bom motivo para que se incremente a divulgação de temas científicos..

            Notas

1) Em dois artigos publicados na prestigiada revista Science, em 2004 (Evidence of a Pluripotent Human Embryonic Stem Cell Line Derived from a Cloned Blastocyst) e 2005 (Patient-Specific Embryonic Stem Cells Derived from Human SCNT Blastocysts), Hwang descreveu, pela primeira vez, a clonagem de embriões humanos, declarando que, a partir deles, obteve linhagens de células-tronco embrionárias humanas. O evento foi considerado um marco, já que abria perspectivas reais para a terapia celular. A revelação da fraude foi feita por Sung-Il Roh, um dos colaboradores de Hwang e co-autor de um artigo publicado na revista Science, em junho deste ano. Ele informou que Hwang teria fabricado parte dos resultados apresentados, sendo que das onze linhagens de células-tronco embrionárias supostamente estabelecidas, nove seriam falsas (posteriormente constatou-se que todas eram falsas). Sung-Il Roh revelou também que Hwang teria usado mais de 900 óvulos, ao invés dos 185 declarados no mesmo artigo da Science. Essa notícia foi conhecida menos de um mês depois de Hwang ter admitido que usou nos seus estudos, óvulos doados por mulheres que faziam parte de sua equipe de pesquisadores, além de outras que receberam dinheiro em troca da doação. A fraude levou a Science retratar-se em janeiro de 2006. O diretor chefe de redação Donald Kennedy lembrou que a fraude na publicação científica dificilmente será eliminada, mas lembrou que a verdade na ciência depende de confirmação.

2) A pesquisadora referia-se ao programa Ponto de Ebulição

 

 
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