Volume 3
Número 4

20 de julho de 2006
 
 * Edição atual    
Documento sem título

          O preconceito contra a divulgação científica

          Governos, pesquisadores, educadores etc reconhecem , pelo menos em discurso, que a divulgação científica - e o jornalismo científico em particular - desempenham papel fundamental no processo de democratização do conhecimento. Estas duas atividades têm como objetivo reduzir o analfabetismo científico e permitir, com isso, que um número maior de cidadãos brasileiros participe ativamente do processo de tomada de decisões e consiga entender o que está acontecendo à sua volta, com impacto dramático no universo do trabalho, do lazer, na sua própria vida afinal.

          Esta constatação não tem sido acompanhada, no entanto, de medidas práticas para estimular a circulação de informações de ciência e tecnologia junto ao chamado público leigo, seja através dos meios de comunicação, seja pela edição de livros didáticos, patrocínio de publicações especializadas (fascículos e guias ) ou produção de recursos multimídia (CDs, DVDs), sites etc.

          Muito pelo contrário: assiste-se, com a cumplicidade de boa parte de professores, pesquisadores, de instituições e de governos, o esvaziamento do processo de divulgação, ainda que, aqui e acolá, surjam iniciativas importantes, como as promovidas pela FAPESP, em São Paulo (revista, agência de notícias, bolsas de pesquisas) e pela equipe coordenada pelo prof. Ildeu Araújo (com seu projeto de apoio à divulgação científica), efetivamente comprometida com o aumento da massa crítica na área.

          Os nossos centros de produção de ciência e tecnologia (universidades, institutos de pesquisa etc) , ressalvadas as exceções - que são poucas - continuam ignorando a divulgação da ciência, sem uma política definida e ações concretas para tornar acessíveis aos cidadãos os resultados de seus projetos e trabalhos.

          O que mais incomoda , no entanto, é a visão equivocada dos órgãos ou entidades que avaliam os programas de pós-graduação em Comunicação, que continuam dando as costas ao esforço necessário, obrigatório, de interação entre a Academia e a sociedade. Isso está consolidado no sistema de avaliação da Capes para a área que não valoriza os esforços feitos nestes sentido, julgando-os como produção ou contribuição menor.

          A avaliação da produção de Programas e de docentes não pode reduzir-se ao esforço de disseminação (circulação de informações entre especialistas) , mas contemplar (e portanto incentivar) a participação de professores e pesquisadores na divulgação de resultados de pesquisa e no diálogo com a sociedade. É importante publicar um artigo numa revista científica Qualis A, mas não é menos importante colaborar com a mídia, produzindo artigos ou debatendo como fonte temas de interesse nacional.

          Se o modelo atual não for alterado, continuaremos reforçando o distanciamento entre os centros de produção do conhecimento e a comunidade que os financia. Esta falta de sensibilidade não contribui para fortalecer as universidades e os institutos de pesquisa, mas os torna vulneráveis a críticas, a incompreensões daqueles que julgam que o investimento em pesquisa não é importante porque não traz retorno. Alguns governantes de plantão e muitos parlamentares sanguessugas tendem a acreditar que a ciência e a tecnologia devam fazer parte apenas dos programas de Governo de países desenvolvidos, que é mais importante construir "singapuras" do que canalizar recursos para a pesquisa.

          A divulgação científica não pode ser vista como despesa, mas como investimento. Ela é, sobretudo, um ato de cidadania e de inclusão social.

 

 
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