Volume 2, Número 2, Julho de 2005
Artigos
O papel da divulgação científica na formação das crianças: a experiência da Estação Ciência (1)

Carla de Oliveira Tôzo, Jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo - SP


Introdução

Os Meios de Comunicação adquirem a cada dia maior importância na formação dos cidadãos, principalmente das crianças e adolescentes. Neste aspecto, as áreas de Comunicação e Educação encontram-se estreitamente inter-relacionadas. Como afirma CALDAS (2003, p.75), "a informação é parte integrante do progresso educativo. Isto porque, agregados à informação estão valores, crenças e ideologias que se constituem em fatores decisivos para a aquisição do conhecimento".

Os veículos de Comunicação oferecem uma possibilidade impar de incluir o desenvolvimento das áreas Científicas e Tecnológicas do país nas salas de aula e na vida das pessoas.

A circulação da informação científica, desmistificada, analisada, interpretada, tem o poder de acabar com o fetiche da mercadoria, da religião do consumo. No mundo da informação rápida, fragmentária, a ilusão do conhecimento provoca uma busca desenfreada por notícias científicas que, veiculadas de forma apressada, pasteurizada, descontextualizada, prometem soluções rápidas para problemas que afligem a humanidade (CALDAS, 2003, p. 76).

O conhecimento tem um elemento de liberdade. O acesso a ele transforma a pessoa em sujeito ativo na construção de sua história. A democratização do saber científico é essencial para que, além da tomada de consciência, todos sejam capazes de atuar de forma crítica nos processos sociais que envolvem a Ciência e a Tecnologia.

A aquisição do conhecimento científico pode se dar de muitas maneiras: através de Cientistas, Jornalistas, Institutos de Pesquisa, Universidades, Escolas e Museus e Centros de Ciências, dentre outros.

Nesse sentido, esta dissertação pesquisou a divulgação científica feita pelos Centros de Ciências, tendo como referencial a Estação Ciência. Ela é um Centro de Difusão Científica, Tecnológica e Cultural da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo (USP), que tem como objetivo oferecer à população, principalmente por meio de exposições, oportunidades de conhecer e analisar fenômenos, teorias e pesquisas científicas.

Levando em conta todas essas perspectivas, esta pesquisa descreve e analisa a atuação da Estação Ciência (sob a direção da USP desde 1990) como divulgadora científica e educadora não formal; a sua relação com a sociedade e o papel que exerce no processo de aquisição do conhecimento científico de seus visitantes. Neste paper é apresentada apenas uma pequena parte da pesquisa desenvolvida para a dissertação.

Metodologia

Esta pesquisa seguiu a metodologia qualitativa, que tem ocupado um lugar de destaque entre as diversas possibilidades de estudar os fenômenos que envolvem os seres humanos e suas relações sociais. Este trabalho, além de qualitativo, também é descritivo de caráter analítico. Para GIL (1999, p.44), as pesquisas descritivas têm como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou, então, o estabelecimento de relações entre variáveis. A pesquisa descritiva pode assumir diversas formas, entre as quais se destaca o Estudo de Caso. O Estudo de Caso desenvolvido neste trabalho utilizou como ferramentas de pesquisa: coleta de dados, a observação dos fatos e entrevistas semi-estruturada, que proporcionou aos entrevistados (crianças, professores, coordenadores das atividades, entre outros), a exposição de sua visão sobre a Estação e os trabalhos que ela realiza.

Como referencial teórico metodológico a linha utilizada foram os Estudos Culturais. Dentro dos Estudos Culturais, a análise do objeto foi fundamentada na Cultura Científica. A expressão Cultura Científica engloba a idéia de que o processo que envolve o desenvolvimento científico é um processo cultural, seja ele considerado do ponto de vista de sua produção, de sua difusão entre os pares, na dinâmica do ensino e da educação e na divulgação para a sociedade, como um todo.

A Estação Ciência é parte integrante da Cultura Científica, porque faz a divulgação e explicação das descobertas científicas e tecnológicas para a sociedade como um todo e auxilia no ensino e educação através das suas exposições, atividades e cursos.

Em função da seleção dos grupos de alunos de faixas etárias e séries diferentes fez-se necessário, em alguns momentos, a utilização de recursos do método comparativo. Para aprofundamento do tema, foi utilizada, também, a metodologia de Grupo Focal através da observação participante. A técnica de Grupo Focal permite a identificação e o levantamento de opiniões que refletem o grupo em um tempo relativamente curto, otimizado pela reunião de muitos participantes e pelo confronto de idéias que se estabelece, assim como pela concordância em torno de uma mesma opinião, o que permite conhecer o que o grupo pensa.

A idéia inicial desta pesquisa era selecionar, aleatoriamente, ou através de números pares ou ímpares dez alunos de uma sala específica (3ª ou 4ª série) que tivessem participado da visita à Estação Ciência com auxílio da lista de chamada. Porém, como dos 34 alunos da 4ª série A, apenas 13 visitaram a Estação, a pesquisa com o método de Grupo Focal, recaiu sobre os 11 que foram à Escola na data de aplicação do método. Foram realizadas duas reuniões com um intervalo de quinze dias. A primeira, totalmente utilizada para a discussão sobre Ciências e a visita à Estação Ciência, e a segunda, para a discussão baseada em vídeos com conteúdos científicos.

Nas diferentes etapas da pesquisa de campo foram desenvolvidas pesquisas bibliográficas e documental e entrevistas semi-estruturadas com o atual e ex-diretor da Estação Ciência, coordenadores das atividades oferecidas pela Instituição, alguns monitores e professores e coordenadores da Escola selecionada para a pesquisa através da lista de agendamento de visitas da Estação. Além da discussão com as crianças através da realização do Grupo Focal.

Cultura Científica

A Ciência e a Tecnologia têm impacto sobre diferentes dimensões sociais: econômica, política, educacional e cultural, entre outras. A proximidade da Ciência com a Arte, encontra diversos exemplos ao longo da história. O escultor, pintor, engenheiro e cientista Leonardo da Vinci costumava afirmar que a Ciência e a Arte completavam-se.

A Arte, além de produzir conhecimento, também colabora para que a Ciência possa ser entendida por todos. Ela leva a Ciência aos livros (principalmente os livros de ficção científica, que através da Literatura, muitas vezes, antecipa os feitos futuros da Ciência), ao Teatro, Cinema, Fotografia, Música entre outros.

Entre os autores que escreveram sobre os diferentes tipos de Cultura, destaco o britânico SNOW que, em 1959, proferiu em Cambridge, Inglaterra, a famosa conferência, As duas culturas, que mais tarde tornou-se um livro, ou melhor, um clássico da reflexão sobre as diferenças que separariam a Cultura humanística voltada para as artes e a Cultura voltada para a Ciência. A primeira Cultura a que ele se refere é a do mundo dos literatos e intelectuais humanistas ou clássicos. A segunda é a dos cientistas, do conhecimento científico. SNOW (1959, pp. 14 e 15) observou, com surpresa, que esses dois mundos praticamente não se comunicavam entre si, além de se desprezarem mutuamente.

Intelectuais literários num pólo; no outro, cientistas, e, como mais representativos, cientistas físicos. Entre os dois um abismo de incompreensão mútua; por vezes - especialmente entre jovens -, hostilidade e aversão, mas, sobretudo, falta de entendimento. Cada um deles tem do outro uma curiosa idéia falseada. As suas atitudes são tão diferentes que, mesmo no plano emocional, pouco têm de comum. (...) Os não-cientistas têm arraigada à impressão de que os cientistas são superficialmente otimista, desconhecedores da condição humana. Por outro lado, os cientistas crêem que os intelectuais literários sofrem de uma ausência total de previsão, sendo, em especial, indiferentes para com os seus irmãos, num profundo sentido anti-intelectual, ansiosos por limitarem a arte e o pensamento ao momento existencial. E assim sucessivamente. (...)

Em uma segunda edição do livro, em 1963, SNOW propôs, em um novo ensaio, chamado As Duas Culturas: Uma segunda visão, a revisão de seu próprio pensamento. Propôs uma Terceira Cultura, que seria formada pelos literatos ou humanistas com um bom conhecimento de Ciência, fazendo surgir, a Cultura Científica. "A Cultura Científica é realmente uma Cultura, não só num sentido intelectual, mas também num sentido antropológico" (SNOW, 1959, p.18).

Vivemos numa época em que a Ciência demonstra a cada dia o seu poder. O conhecimento que ela nos deu venceu distâncias, reduziu as doenças e abriu as portas para a compreensão dos mistérios da natureza, mas não resolveu todos os males da humanidade.
Como um instrumento para a descoberta da 'verdade' - o que 'está por trás´-, a carência não tem igual. Mesmo assim, deveríamos ser cautelosos em comemorar seus triunfos de modo demasiado acrítico, pois eles foram distribuídos desigualmente. Em meio à abundância, há carência; doenças há muito conhecidas pelos médicos ainda matam os pobres e desprivilegiados; e em suas bem ordenadas explicações dos fenômenos naturais, a ciência deixa muita gente indiferente ou até alienada. O que a ciência nos diz pode ser verdadeiro, mas não é a única verdade que importa (MAYOR e FORTI, 1998, pp. 119 e 120).

A Cultura Científica apresenta grande complexidade, já que na sua própria denominação surgem variações importantes de acordo com o contexto cultural no qual está imersa. Na França, prefere-se usar culture scientifique, que é compreendida de forma ampla, sendo a Ciência vista de forma integrada à Cultura geral. Na Grã-Bretanha, tem sido bastante usada à expressão public understanding of science, entendida como algo mais abrangente do que uma tradução literal (compreensão pública da ciência) poderia sugerir, na qual estão também incluídas as diversas modalidades de Divulgação Científica. Já nos Estados Unidos prefere-se, em geral, scientific literacy (alfabetização científica), com significado mais reduzido.

A Cultura Científica da população, é decorrência natural da percepção pública da importância do conhecimento, facilitando assim o exercício mais consciente da cidadania. O interesse por assuntos de Ciência e Tecnologia por meio da mídia e o hábito de visitar Museus e Centros de Ciências ajuda na formação da Cultura Científica. Nos Centros de Ciência, as atividades desenvolvidas numa perspectiva lúdica e interativa colocam a Ciência como algo palpável, real, tangível. Desta forma o aprendizado é facilitado e a curiosidade realimentada. Nesse aspecto, estudar o papel da Divulgação Científica na formação da Cultura Científica através dos Museus e Centros de Ciências, (no caso específico dessa pesquisa, a Estação Ciência), é fundamental para uma melhor compreensão dos processos de comunicação na apreensão do conhecimento científico e tecnológico. Assim, o acesso da população ao conhecimento científico é essencial para a formação de uma Cultura Científica e, conseqüentemente, de uma visão crítica da sociedade.

Estação Ciência

A Estação Ciência é um Centro de Difusão Científica, Tecnológica e Cultural da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo (USP). Fundada em 24 de junho de 1987, tem como objetivo oferecer à população oportunidades de conhecer e analisar fenômenos científicos. Biologia, Astronomia, Geologia, Geografia, Oceanografia, Geofísica, Matemática, Física, Informática, Tecnologia, História e Humanidades são as áreas de conhecimento mais abordadas nas exposições permanentes da Estação. Além disso, oferece outras atividades como: cursos, oficinas, palestras, projetos e conferências.

Nos últimos anos, o público da Estação tem sido de aproximadamente 200 mil por ano, sendo que a maior freqüência é de estudantes, principalmente do Ensino Fundamental e Médio, tanto de escolas públicas ou privadas. Para receber o público escolar e também o espontâneo, o Centro conta com uma equipe de estagiários ou monitores (estudantes universitários), que auxiliam nos experimentos, dão informações e esclarecem dúvidas sobre o material exposto. Ao agendar a visita, o educador responsável pela Escola ou grupo passa por um Encontro Pedagógico, momento em que conhece previamente as exposições.

O Centro também dispõe da Experimentoteca (Laboratório Portátil de Ciências para empréstimo as escolas), Projeto Clicar (espaço de Educação Não-formal para crianças e adolescentes em situação de risco social), ABC na Educação Científica ou Mão na Massa (Ciências para crianças do Ensino Fundamental), Laboratório Virtual (tem como objetivo divulgar Ciência de um modo divertido, pela Internet, com animações e jogos interativos), Núcleo de Artes Cênicas (seu papel principal é pesquisar e sugerir atividades voltadas à interface da Ciência com a Arte. Para que isso aconteça, desenvolve projetos como publicações de livros, seminários, palestras e também peças de Teatro) e Mostras Científicas (voltada a professores, diretores de Instituições de Ensino e todos profissionais da área educacional, além dos estudantes com a realização de oficinas pedagógicas, aulas-espetáculo, conferências, mesas-redondas, exposições de materiais e outros serviços).

O carro chefe da Estação Ciência são as exposições, sejam elas permanentes ou itinerantes (podem ser expostas em qualquer outro local). Exposições que abrangem diversas áreas do conhecimento científico e tecnológico (Biologia, Astronomia, Geologia, Geografia, Oceanografia, Geofísica, Matemática, Física, Informática, Tecnologia, História e Humanidades), estão instaladas nos dois pisos da Instituição. Algumas delas são: Dinossauros, Painel da Evolução do Universo, área de Física e Óptica, Transformação de Energia, Bacia Hidrográfica, Matemática, Espaço Petrobrás, Cobre, Mapa Urbano, Planetário, Biologia dividida em Corpo Humano e Seres Vivos (marinhos, terrestres e vegetais), entre outras.

Monitores

A Estação conta com 50 monitores, sendo oito para a área de Biologia, 17 na área de Física (que é a maior da Estação), 15 na área de Humanas e 10 na Matemática. Basicamente, o trabalho desenvolvido por esses estagiários é a recepção dos alunos e as explicações sobre as mostras e experimentos. O papel dos monitores dentro da Estação é muito importante, já que, são eles lidam diretamente com o público. No entanto, durante todo o processo de pesquisa, verificou-se que os monitores estavam se sentindo desmotivados e sobrecarregados. A falta de plano de estágio, o número pequeno de capacitações (uso da linguagem adequada e atendimento ao público) e "desinteresse" por parte dos superiores em ouvi-los são os responsáveis pelo desinteresse e desmotivação desses jovens.

Quando eu entrei, entrei e já aprendi. A chamada educação pela oralidade. Você aprende o que ouviu de um monitor, que ouviu do outro e assim sucessivamente. Você vai ouvindo os discursos, pega o que você acha legal, adapta e fala. Aqui não tem um plano de estágio e eu sinto muita falta disso. Não tem uma capacitação que passe para gente a didática, a metodologia direitinho. Cada um busca seu próprio conhecimento, porque eles te dão os textos com as informações técnicas, mas é você sozinha que tem que ir além (monitora da Estação Ciência, 2004)*.

Para eles, o aprendizado de como ser monitor acontece efetivamente na prática do dia-a-dia, observando os monitores mais antigos.
Para ser monitor com sinceridade, você aprende com o mais velho. Você recebe o material escrito que acaba não auxiliando por causa do uso das palavras técnicas e você precisa ver no dia-a-dia como lidar com as crianças. Você vê os outros monitores (...) Tem muito intercâmbio entre a gente, uns ajudam os outros, caso contrário, quem for entrando não consegue se adaptar facilmente (monitor da Estação Ciência, 2004)*.

Assim, fica claro que esses problemas na formação dos monitores, pode dificultar ou até mesmo comprometer o "aprendizado" do público da Estação.
No momento, eu tenho uma opinião pessoal bem crítica. Talvez, seja até anti-ético estar falando, mas, com as mudanças que estão ocorrendo (algumas para melhor e outras para pior) e com o fato de que a gente está trabalhando com sessenta e pouco monitores e cinco supervisores, não sei ao certo, o primordial seria o que? Sentar, conversar e em grupo resolver as coisas. Eu tenho sentido que muitas mudanças têm sido altamente centralizadas (...) Eu vejo assim, já que, é a gente que lida diretamente com o público, vê as necessidades deles, somos nós que temos o maior número de sugestões, opiniões (...) Nada mais justo que chegar para a gente e perguntar se isso ou aquilo vai dar certo (monitora da Estação Ciência, 2004)(2).

Com a nova gestão (janeiro de 2004) e contratação de novos supervisores (estudantes de Pós-Graduação) para a área de Monitoria, algumas idéias estão surgindo como: capacitação constante, o uso de roteiro pelos monitores, cursos de Museologia para aprender a lidar com o público e de oratória. "Essas eram coisas que não tinham ou quando tinham era com um espaçamento de tempo muito grande. A nossa idéia é fazer isso freqüentemente, para que os monitores estejam sempre se aprimorando", explicou Josiane, uma das novas supervisoras.

Escola

Tendo como objetivo principal examinar o papel dos Centros de Ciências como motivadores na aquisição do conhecimento científico para crianças das 3ª e 4ª séries (faixa etária 9-10 anos) e como complemento do ensino formal de Ciências, fez-se necessário acompanhar a visita de uma escola à Estação. Com base na lista de agendamento da Instituição, foi possível acompanhar um dos Encontros Pedagógicos (realizado em março de 2004) e, conseqüentemente selecionar a escola com a qual seria possível realizar a pesquisa. Situada na zona leste da cidade de São Paulo, a escola Lúcio de Carvalho Marques (ensino público) tem 36 professores e 850 alunos da 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental I (divididos nos períodos da manhã e tarde).

A escola Profº Lúcio como qualquer outra escola do ensino público apresenta algumas carências como: falta de laboratórios, desmotivação dos professores e limitação dos professores dessas séries (1ª a 4ª) em lecionar Ciências. Devido a formação generalista que esses professores tem, as aulas de Ciências não fogem do roteiro: leitura, cópia, leitura conjunta, questionário e correção na lousa. Dificilmente são realizadas atividades complementares e, quando ocorrem, acaba sendo a elaboração de desenhos e cartazes.
Devido as dificuldades pedagógicas e estruturais da Escola, ela não realizou nenhuma preparação pedagógica com as crianças antes e após a visita. Apenas para não deixar o "passeio" passar em "branco", no retorno foi solicitado que fizessem desenhos representando a Estação Ciência.

Visita

A Escola fez duas visitas à Estação Ciência, uma com a turma da manhã, outra com a da tarde, levando apenas alunos das 3ª e 4ª séries. Embora tenha acompanhado as duas, o período da manhã foi o escolhido para a minha análise. Tive a oportunidade de acompanhar todo o trajeto e a visita da turma da manhã e durante todo esse período foi possível verificar a ansiedade das crianças em conhecer a Estação e o interesse delas pela Ciência.

No entanto, a recepção da Estação por parte dos monitores foi bem burocrática, o que pode ser explicado pela desmotivação demonstrada por eles no tópico (1.2.1). Ao invés de motivar as crianças para a visita que se iniciaria em breve, ele apenas se preocupou em passar "regras" de como as crianças deveriam se comportar.

Dentro da Estação o encantamento e a curiosidade pela Ciência eram demonstrados a todo o momento pelas crianças. Mesmo com algumas limitações (timidez, dúvidas no uso mais adequado da linguagem, tempo de explicação), os monitores procuraram manter uma relação interativa com as crianças, como pode ser verificado no diálogo abaixo:

MONITOR: Todo mundo tomou café?
CRIANÇAS: Sim.
MONITOR: Então tá todo mundo com energia?
CRIANÇAS: Tá.
MONITOR: Gente, energia é uma coisa que eu não consigo destruir, pegar. O que eu consigo fazer é transformar um tipo em outro. O que vocês comeram no café da manhã?
CRIANÇAS: Bolacha, leite, café, pão, refrigerante, salgadinhos.
MONITOR: Gente um dia essas coisas que vocês comeram já foram plantas. Do que elas precisam para viver?
CRIANÇAS: Ar.
MONITOR: Se eu colocar uma planta com água no quarto escuro ela vai sobreviver?
CRIANÇAS: Não. A Planta precisa do sol para se alimentar. [E desse modo vai explicando sobre a Energia]

O interesse das crianças pela Ciência também ficou visível durante a realização do Grupo Focal.

Grupo Focal

Para dar uma seqüência lógica aos temas abordados no Grupo Focal, foi utilizado um roteiro pré-fixado dividido em oito fases: perfil das famílias das crianças e o relacionamento com o bairro; interesse e conhecimento sobre Ciências; aulas de Ciências na visão dos alunos; visão dos cientistas; Estação Ciência; Ciência na Mídia; discussão sobre o vídeo (Poluição do ar e Lixo) e textos científicos (Por que Espirramos e Por que temos meleca). No caso, a discussão sobre o vídeo e os textos não foi aprofundada, pela demonstração de pouco interesse das crianças, o que, por si só, reflete algumas das deficiências do Ensino de Ciência.

A primeira parte da discussão (família e bairro) pretendeu apenas entender sobre o ambiente em que esses alunos vivem. Foram feitas perguntas referentes a Escolaridade (a maioria cursou até a 8 série do Ensino Fundamental), vinculo empregatício dos pais (nenhum estava desempregado, mas desempenhavam funções que não exigiam um grau de Escolaridade alto como segurança, mecânico, indústria, vidraçaria, vendedora, doméstica), moradia e bairro.

Quanto à moradia, as casas em média tinham entre três e seis cômodos e o número de pessoas convivendo juntas seguiu a média de quatro pessoas por casa. A maioria delas mora no mesmo bairro desde que nasceram (sete) e as restantes (quatro) vieram de outros bairros, municípios e até estados (Bahia).

No entanto, como as acompanhei na visita a Estação e, talvez por esse motivo minha imagem estava muito associada com a Instituição, as crianças acabavam conduzindo a discussão sempre para a visita. Afirmaram gostar da visita, mas, reclamaram de não ter conhecido tudo (em especial o Planetário) e também mostraram curiosidade sobre quem seria o "dono" da Estação. Quando conversavam sobre a visita, descreviam com detalhes as exposições.

MICHEL: Eu gostei do alimento que vai até o pé [sobre a explicação dado a respeito do Corpo Humano].
LUCAS: Eu adorei.
DÊNIS: Eu gostei da parte que fala dos olhos, que você vai precisar usar óculos [curioso é que ele não cita a Bobina de Tesla, experimento que participou como voluntário].
LUCAS: Eu gostei do Planetário e de como o nosso corpo se alimenta.
MICHEL: O mais legal foi aquele lá que o Fábio tomou choque.
FÁBIO: Eu gostei do carro de vidro e do telefone [Curiosamente o grupo não recebeu explicações sobre o carro exposto. Nem sempre o que foi explicado é o que mais chama a atenção das crianças].
DANIELA: Corpo Humano, cadeira.
ERICK: Eu gostei daquele que tem a barragem para não invadir a água.
CAROL: Choque.
CRISTIANE: Aquele que rodamo o negócio e a cadeira.
VICTOR: É as roldanas! [grita com amiga].
JAQUELINE: Gostei de tudo. Mais do telefone, porque tinha os telefones antigos.
FÁBIO: Eu nunca tinha visto telefone antigo.
DÊNIS: Eu já, na televisão.

Elas falaram também da importância dos monitores para a compreensão dos assuntos abordados na Estação.
LUCAS: Eles são interessantes. Já sabem tudo, explicam para nós como é a Estação Ciência.
DÊNIS e FÁBIO: Os monitores ta ajudando nóis, vendo como é a Estação. Porque sem eles, a gente não ia saber nada, não ia entender nada.

Os próprios monitores afirmaram reconhecer o papel que exercem perante as crianças e disseram procurar ajudá-los na compreensão dos termos científicos. Uma das monitoras da área de Humanas explicou que o ideal é mostrar às crianças que a Ciência está no dia-a-dia delas. "As crianças chegam aqui questionando a gente, se somos professores, cientistas (...) eu digo que não, que também sou estudante. Porque aqui eu estou apenas mostrando a Ciência para eles. A Ciência que está no dia-a-dia. Diferente da postura da Escola, tento mostrar a realidade, que a gente produz Ciência a todo o momento. Tento passar essas informações de uma forma bem divertida" (3), relatou.

Quanto a definição sobre Ciências, demonstraram dificuldades em expressar o que pensavam e acabavam conduzindo o assunto sempre para a Estação Ciência. Já sobre as aulas de Ciências, afirmaram gostar das aulas e disseram que a professora sempre passava lição do livro e da lousa, além de fazerem exercícios. Experimentos, só de vez em quando. Em alguns casos, os alunos nem sabiam o que significava essa palavra.

Observações

Entender o significado e a importância da Ciência no dia-a-dia é o primeiro passo para a formação da Cultura Científica. Espera-se que uma visita a um Centro ou Museu de Ciências ajude nessa formação. Para alguns especialistas, esses locais têm apenas a função de despertar o interesse da criança pela Ciência. "Eu como monitor tento despertar o interesse das pessoas. O monitor não tem o papel de ensinar. Por quê? Primeiro porque o tempo que ele fica com o público é muito pouco e ali ele só está transmitindo uma idéia. No Planetário, por exemplo, você desperta o interesse das pessoas em estar olhando para o céu, coisas simples que ela não tinha o costume de fazer. Isso é muito legal", disse um dos monitores (3).

Despertar o interesse das pessoas pela Ciência desde cedo é muito importante, pois é nesse momento que um futuro cientista ou pesquisador será formado. "Eu quis ser cientista porque lá em casa tinha uma revista que falava da Terra e aí eu achei o máximo e botei na cabeça que eu queria ser cientista", explicou uma das supervisoras do setor da monitoria (4). A Estação Ciência tem um grande potencial motivador. Uma visita à Estação encanta as pessoas, principalmente as crianças. No entanto, esse potencial não está sendo bem utilizado, bem aproveitado e de ambos os lados.

Os professores que esbarram em diversas dificuldades ao ensinar Ciências procuram um local como a Estação como se ele fosse o grande salvador de todos os males. A Estação tem consciência dessa demanda, mas, infelizmente não tem podido fazer muito para mudar esse cenário. Em relação às crianças especificamente, o método usado pelo Centro parece não atingir as expectativas do público. Os professores e os alunos reclamaram muito da curta duração da visita. Realmente, ver tudo da Estação, em uma única visita (durante apenas duas horas), é impossível e, também nem um pouco indicado. Não adianta nada passar pelas exposições de uma maneira superficial apenas para permitir que as pessoas conheçam todo o acervo. Porém também é complicado a criança ficar mais de uma hora na parte de Física, passar rapidamente pela Biologia, e sequer passar pela Matemática, por exemplo. O ideal é que conheça todas as áreas. Para isso, é necessário que para as crianças, seja feita uma visita dirigida, com linguagem e roteiros especiais, decididos juntamente com a Escola, aprofundando cada conteúdo em visitas específicas, após a primeira, de conhecimento geral.

Reforçar a relação Museu/Escola também é muito importante. Não adianta a Estação durante o Encontro Pedagógico sugerir que as escolas façam projetos pedagógicos se elas [as escolas] não sabem nem por onde começar. O ambiente das escolas públicas geralmente apresenta diversos problemas. Elas não têm computador; não têm laboratórios e, quando têm, falta material; os professores (principalmente os de 1ª a 4ª série) não sabem como passar os conceitos científicos corretamente.

Não podemos apenas criticar a Estação. Ela tem desempenhado um papel excepcional durante seus quase 20 anos, mesmo atravessando vários problemas de natureza econômica e estrutural. Seu espaço físico tem se tornado pequeno em relação ao grande número de visitantes e, além disso, os recursos financeiros não são abundantes. Para alguns monitores, a forma como as coisas vêm sendo conduzidas não é
adequada. Eles acreditam que a Estação pode oferecer muito mais. Questionados sobre o papel dos Museus e Centros de Ciência na formação da Cultura Científica e no ensino de Ciências, parecem pensar da mesma forma crítica.

MONITOR 1: A Estação contribui, desperta e ao mesmo tempo é uma coisa jogada. Do jeito que está sendo levado o processo (diretoria, supervisão) acaba ficando no ar. A Estação tem muita coisa a oferecer. Ela precisa mudar o atendimento. O que eu vejo hoje é que ela está preocupada em atender (não importa como) o maior número de pessoas. E eu acho que isso não é interessante (...) Já que tem o agendamento, deveria limitar e atender melhor essas pessoas. Desse modo, iríamos ajudar mais, despertar o interesse.
MONITOR 2: Da forma como está instituído tudo isso aqui, acho que nem fede e nem cheira...
MONITOR 3: Eu já acho que mesmo da forma que está, ajuda. O problema é que a gente aqui dentro, que está ligado diretamente, acha, acredita que poderia ser melhor. Por que de cada 100 que não querem saber de nada e você souber estimular, 80 vão querer saber mesmo da forma que é hoje. Para quem vem de fora é válido, está perfeito, mas essas pessoas não aproveitam nem um décimo do que poderia aproveitar, porque ela não sabe como. Funciona mais como uma curiosidade. É como um jogo de vídeo-game e não é isso que a gente quer que aconteça (...) vira um passeio. Vem, olha e vai embora.
SUPERVISORA: Eu acho que ela [a Estação] deve basicamente despertar o interesse pela Ciência e aí a pessoa vai começar a entender, querer saber mais, ser cientista, por exemplo.(5)

Os problemas apontados pelos professores da Escola Lúcio de Carvalho Marques parecem ser, [pelo menos em parte], percebidos pelos próprios monitores, o que talvez explique as mudanças que vêm ocorrendo, como: aumento da visibilidade da Estação no bairro e na cidade; ampliação das áreas de conhecimento abordadas; ida da Estação até o público [em praças e espaços públicos]; aumento no número de capacitação dos monitores; a criação de roteiros para as visitas e uso de linguagem especial para crianças [pelo menos na área de GeoCiências]. No entanto, antes do término desta pesquisa não será possível verificar se essas mudanças estão sendo percebidas pelo público, já que elas tendem a surtir efeitos a longo prazo.

Por fim, após analisar todos os aspectos que envolveram a visita à Estação Ciência e a visão que os professores e alunos tiveram dela, chegou-se à conclusão que a Estação apenas desperta o interesse das crianças pela Ciência. Porém esse interesse, quando não
trabalhado ou despertado às crianças de uma forma desconectada [como foi observado em algumas exposições], perde o seu valor. A Estação precisa atuar em parceria com a Escola. Ambas as partes precisam se unir. O caminho para que isso aconteça pode ser resumido da seguinte forma: visita com linguagem, roteiro e tempo especial, adequados as diferentes faixas etárias e parceria entre Museu e Escola no desenvolvimento de um projeto pedagógico, que possa ser trabalhado em sala de aula. O atendimento às sugestões dos monitores e professores para a melhora do processo de aquisição do conhecimento científico, certamente, constituem um passo importante para um melhor aproveitamento da visita.

Notas

1) A Pesquisa foi realizada entre os anos de 2003 e 2004. As entrevistas e Grupo Focal ocorreram em 2004.
2) Entrevista realizada em 20 de agosto de 2004.
3) Entrevista a autora em 20 de agosto de 2004.
4) Entrevista a autora em 20 de agosto de 2004.
5) Respostas obtidas em entrevista a autora em 20 de agosto de 2004.

Referências Bibliográficas

CALDAS, Graça. Comunicação, Educação e Cidadania: o papel do jornalismo científico. In: GUIMARÃES, Eduardo (orgs). Produção e circulação do conhecimento. Campinas, São Paulo: Ponte Editores, 2003. pp.73-80

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1999

MAYOR, Federico e FORTI, Augusto (orgs). Ciência e poder. 1ª ed., São Paulo: Papirus Editora, 1998.

SNOW, C.P. As duas culturas. Lisboa: Dom Quixote, 1959.