Volume 2, Número 2, Julho de 2005
Artigos
O texto de C&T nos magazines semanais: uma análise semiótico-discursiva

M Emília P Manente, jornalista da Secretaria de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo e professora das Faculdades Integradas São Pedro - Faesa


 

Introdução

Esta pesquisa teve como objetivo principal identificar o tratamento dado aos textos de Ciência & Tecnologia publicados em Veja, IstoÉ e Época, editados sob a rubrica de C&T, verificando se os mesmos estão inseridos na área do jornalismo de divulgação científica ou na do jornalismo de um modo geral. Para desenvolver esta pesquisa tomamos como objeto de análise 50 edições - 16 revistas Veja; IstoÉ e Época com 17 edições cada uma - publicadas no período de março a junho de 2001, das quais foram estudados 65 textos. Destes, selecionamos oito, com a temática da Genética, que foram analisados com mais profundidade. Em nosso estudo, verificamos a natureza desses textos e a construção da narratividade nos mesmos. Partindo da posição de que os textos analisados são textos sobre 'a' e não 'da' ciência, nossa hipótese de trabalho se pautou pela premissa de que suas construções são representações semiótico-discursivas do 'fazer ciência', de onde se conclui que eles tendem para o jornalismo de um modo geral e não para o jornalismo de divulgação científica. Por causa da abrangência das questões tratadas nesta pesquisa, utilizamos um recorte teórico bastante amplo: buscamos apoio na Semiótica da Cultura, particularmente nas teorias desenvolvidas por M. Bakhtin e I. Lotman, no que se refere a gêneros discursivos e modelização de linguagem; na Análise do Discurso francesa, com J. Authier-Revuz e E. Orlandi, e na Teoria da Comunicação, nos atendo aos teóricos que tratam de questões ligadas ao jornalismo de divulgação científica, entre eles, W. Bueno, C. Hernando, J. Melo.

Todos sabemos que uma pesquisa sempre parte de uma busca pessoal. De uma pergunta para a qual procuramos uma resposta, no sentido de resolvermos algo que dentro de um determinado contexto se coloca como um problema. Esta pesquisa partiu de uma busca pessoal e outra como profissional em uma área específica da práxis humana: o jornalismo científico. Jornalista há quase 20 anos e trabalhando na Secretaria de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo há cerca de doze, venho me deparando com pautas referentes às áreas de Ciência e Tecnologia (C&T) e sempre tive receio de escrever e de editar textos sobre esses assuntos. A falta de uma cultura de divulgação científica nas universidades, as dificuldades que enfrentamos ao tentar filtrar o discurso científico, o estilo hermético que perpassa a fala do pesquisador muitas vezes foram empecilhos na hora de explicarmos ciência a um público leigo, que é a maioria dos nossos leitores.

Não podemos nos esquecer de que, além dessas dificuldades, outras permeiam a relação entre jornalistas e cientistas. Uma delas é o timing que norteia as duas profissões: nós, jornalistas, nos nutrimos da agilidade dos fatos, queremos tudo para ontem; trabalhamos premidos pelo fechamento da edição, enquanto que os pesquisadores se nutrem de outro tempo, o tempo do amadurecimento das idéias para a comprovação de hipóteses, que sempre ocupa um longo período, muito embora alguns também trabalhem com a urgência em descobrir novas fórmulas de medicamentos, novos aparatos tecnológicos. A não compreensão das práticas que regem cada uma dessas profissões muitas vezes causa o que chamamos de 'ruído' comunicacional.

Jornalistas e pesquisadores, embora trabalhando em campos distintos, precisam descobrir caminhos conjuntos que levem a uma divulgação das pesquisas e das descobertas científicas. Se por um lado os jornalistas não devem reduzir a descoberta científica a um texto simplificador e, muitas vezes, errôneo e sensacionalista, por outro, os pesquisadores devem procurar construir uma linguagem acessível que ajude a divulgar e socializar suas descobertas de forma clara e segura.

Sabemos que a divulgação e a socialização do saber científico depende, em muitos casos, da maneira como o pesquisador comunica suas descobertas ao jornalista/divulgador, que as repassa à sociedade. Superar os descompassos que existem entre jornalistas e pesquisadores é um dos maiores desafios da área da divulgação científica. É bem verdade que muitos avanços têm sido conseguidos, particularmente na última década, no sentido de superar essas diferenças. Os cientistas têm se conscientizado da importância do trabalho do jornalista/divulgador e da seriedade na divulgação da ciência. Estes por outro lado, têm conseguido superar as dificuldades históricas desse relacionamento e têm deixado de ser apenas uma 'ponte' entre a ciência e a imprensa e se convertidos em parceiros na divulgação das descobertas e da socialização do conhecimento científico-tecnológico.

Sabemos também que são inúmeras as pesquisas desenvolvidas nas universidades e nas instituições de pesquisas em todo o País, mas o resultado desse trabalho, até bem pouco tempo atrás, não chegava à sociedade, que colabora com a manutenção e funcionamento dessas entidades. Se esse fato continua acontecendo nos dias de hoje, deve-se, muitas vezes, à falta de uma integração entre nós, jornalistas e os pesquisadores. É através dessa integração, desse intercâmbio de conhecimentos que as novas descobertas científicas e tecnológicas são levadas ao conhecimento da sociedade. Se o compromisso das universidades é com o ensino, a pesquisa e a extensão, o nosso é com a divulgação dos avanços da ciência, colaborando, dessa forma, com a democratização do conhecimento.

Acreditamos ser de fundamental importância um trabalho conjunto de jornalistas e cientistas no sentido de socializar, tornar público os fatos, os acontecimentos e as descobertas relacionados à ciência, intensificando a difusão das pesquisas desenvolvidas não somente no âmbito das universidades, mas em todos os laboratórios de pesquisa. Jornalistas e cientistas, embora trabalhando em campos distintos, são parceiros na divulgação da ciência. E a sociedade está cada vez mais interessada na publicização de fatos que envolvem essa área. O jornalista espanhol e especialista em jornalismo científico Manuel Calvo Hernando nos diz:

"La ciencia es, pues, para los periodistas, un objetivo informativo de gran alcance y de gran repercusión. No es verdad que la gente esté solamente interesada por el fútbol y los sucesos al leer un periódico. Quienes hemos escrito alguna cosa sobre temas científicos tenemos con frecuencia testimonio del interés que despiertan esta clase de trabajos, por el hecho de situar ante el lector un mundo fascinante y lleno de energías y posibilidades. El periodista está obligado a servir a sus lectores una explicación sencilla y honesta del desarrollo de la humanidad en este aspecto vital y decisivo" (Hernando, 1977, p. 22).

Um dos principais problemas que permeiam essa relação, muitas vezes conturbada, e apontado pelos pesquisadores: a falta de formação acadêmica e de conhecimento sobre o assunto a ser reportado por parte do jornalista/divulgador. Essa é uma realidade que perpassa a convivência entre esses dois atores sociais e, de fato, precisa ser mudada. O País carece de cursos nessa área, particularmente no âmbito da graduação. Há tentativas de oferecimento de cursos isolados. É urgente a necessidade de ampliação de cursos sobre jornalismo científico para uma melhor formação acadêmica aos jornalistas que se dispõem a escrever sobre C&T.

Cada vez mais venho suspeitando que a principal dificuldade que perpassa o meu fazer jornalístico é a linguagem empregada em um estilo hermético pelos pesquisadores e que muitas vezes dificulta a divulgação da ciência. Outros pesquisadores já se debruçaram sobre esse assunto antes de mim. A maioria deles, porém, estudou o jornalismo científico a partir de revistas especializadas na área. Como exemplos podemos citar Isaltina Gomes, Alessandra Carvalho, dentre outros que tomaram como objeto de análise revistas como Galileu, Super Interessante e Ciência Hoje. A professora Maria José Coracini1 , por exemplo, na sua tese de doutorado, fez um brilhante trabalho analisando o que classifica de discursos científicos primários, isto é, os discursos dos pesquisadores.

O nosso objetivo, no entanto, não é o jornalismo especializado na divulgação de C&T e nem a análise do discurso primário de cientistas, mas entender como as revistas destinadas a um público leigo e que publicizam matérias de informações gerais constroem um texto que nomeiam de Ciência & Tecnologia. Queremos entender se ao publicizarem textos sob a rubrica C&T as revistas Veja, IstoÉ e Época fazem divulgação científica ou apenas jornalismo. A nossa preocupação, portanto, é para com a relação estreita entre linguagem e público-alvo, uma vez que a enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados (Bakhtin, 2002, p. 112).

Mais adiante, Bakhtin vai nos dizer que a palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor (2002, p. 113).

Partimos do pressuposto de que as publicações ditas especializadas em C&T têm maneiras específicas de construir seus textos, uma vez que sabem para que auditório estão escrevendo, ou seja, a linguagem empregada nessas revistas é uma espécie de ponte que liga o locutor com o interlocutor. O mesmo não ocorre com as revistas que veiculam informações gerais, como é o caso de Veja, IstoÉ e Época, objeto de nossa pesquisa.

Trata-se de diferentes modelizações da linguagem, isto é, de configurações de códigos e de usos da linguagem. Enquanto que nas primeiras a modelização do texto não precisa ocorrer de maneira visível, nas segundas a modelização da linguagem do pesquisador precisa acontecer para que os textos construídos sejam compreensíveis ao público a que se destinam. Para a Semiótica da Cultura, todos os sistemas culturais são modelizações de linguagens. Por isso, estamos trabalhando nesta dissertação com a definição de que o texto de DC é um texto da cultura que se torna concreto graças a modelizações de linguagens. Para que a informação científica, seja ela de que área for, vire notícia (um gênero típico do jornalismo) e ganhe assim o espaço noticioso de qualquer publicação, tem que ser modelizada, ou seja, transformada em texto compreensível ao auditório para o qual se destina.

"A semiótica da cultura não consiste apenas no facto de que a cultura funciona como um sistema de signos. É necessário sublinhar que já a relação com o signo e a signicidade representa uma das características fundamentais da cultura, {...} Mas para cumprir essa função, a cultura - e, em particular, o seu dispositivo central codificador - tem de possuir determinadas propriedades indispensáveis. 1. Tem de possuir uma alta capacidade modelizadora, quer dizer, deve descrever o maior círculo possível de objectos, incluindo o maior número de objectos ainda desconhecidos - e este é o requisito óptimo dos modelos cognoscitivos - ou então estar em condições de declarar inexistentes os objectos que a referida capacidade modelizadora não permite descrever. 2. A sua sistematicidade tem de ser concebida pela colectividade que a utiliza como instrumento para atribuir um sistema àquilo que é amorfo. Por isso, a tendência dos sistemas de signos para se automatizarem é o constante inimigo da cultura, contra o qual trava uma luta incessante" (Lotmam & Uspenskii, 1981, p. 45-52-3)

Em um texto de DC, seja ele construído em qualquer gênero: notícia, reportagem, entrevista, existem pelo menos dois tipos de discursos: o do cientista e o do jornalista/divulgador. Também não podemos nos esquecer do veículo de comunicação onde será publicado. Ambos têm códigos próprios: desconhecer esses códigos, seja por parte do pesquisador, ou do jornalista, pode levar a 'ruídos' e à ruptura no processo de comunicação. Por isso que estamos trabalhando com a teoria da modelização. O jornalismo científico tem a função de modelizar os textos dos cientistas e torná-los acessíveis à maioria da população, isto é, tornar as pesquisas, as descobertas científicas em informação a ser veiculada nos mais diversos veículos de comunicação.
A primeira modelização é aquela do texto jornalístico: a informação científica tem de virar notícia, ou seja, um gênero típico do jornalismo. Para nós a construção de textos de divulgação científica deve sempre levar em consideração o auditório a que é dirigido. A linguagem utilizada precisa sofrer uma modelização específica quando se escreve para um público que sabe/entende de C&T e para outro que não sabe/não entende, mas que também necessita ser informado do que acontece nos laboratórios dos cientistas. Bakhtin já nos alertou que a enunciação precisa levar em consideração o meio social onde se localiza o sujeito.

O falante tende a orientar o seu discurso, com o seu círculo determinante, para o círculo alheio de quem compreende, entrando em relação dialógica com os aspectos deste âmbito. O locutor penetra no horizonte alheio de seu ouvinte, constrói sua enunciação no território de outrem, sobre o fundo perceptivo do seu ouvinte (Bakhtin, 1975, p. 91).

Metodologia

Escolhemos como objeto de análise as revistas Veja, IstoÉ e Época tendo como recorte temporal 50 edições publicadas no período de março a junho de 2001. Os 65 textos publicizados2 sob a rubrica C&T formam o corpus de nossa análise. Porém, para uma melhor compreensão deste trabalho, fizemos um outro recorte, desta vez temático, de oito textos publicizados sob o antetítulo ou chapéu3 de Genética, para serem mais bem estudados dentro de algumas categorias de análise que serão explicitadas a posteriori.

Partimos do pressuposto de que o jornalismo é uma prática discursiva que engloba vários gêneros e que textos jornalísticos são textos da cultura que se tornam concretos quando publicizados em jornais ou em revistas semanais. Nesta dissertação, trataremos somente de textos verbais escritos, isto é, aqueles editados no suporte do papel e, mais especificamente, no veículo de comunicação revista.

Partindo do pressuposto de que essas revistas, destinadas a um público leigo, publicizam textos - entendidos aqui como objetos da significação e da comunicação - sobre 'a' e não 'da' ciência, esta investigação está trabalhando com as seguintes hipóteses: 1) os textos editados sob a rubrica de C&T são representações semiótico-discursivas do 'fazer-ciência' e 2) logo, são textos que tendem para o jornalismo de um modo geral e não para o jornalismo de divulgação científica.

Entendendo que o fazer jornalístico se pauta por diferentes práticas e que a apreensão de parte da 'realidade' que compõe esse fazer é publicizada sob diferentes formatos do gênero discursivo, esta pesquisa tem dois temas principais: a natureza dos textos de Ciência & Tecnologia publicados nessas revistas e a construção da narratividade nesses textos recortados.

Para uma melhor compreensão e para efeitos didáticos, dividimos esta dissertação em três capítulos. No primeiro, trataremos do percurso teórico da pesquisa. Falaremos sobre a definição de termos que serão amplamente utilizados neste trabalho, como divulgação científica, jornalismo científico, ciência, bem como dos gêneros discursivos encontrados nas revistas analisadas. No segundo capítulo, explicitaremos o corpus de análise, a construção da rubrica C&T em Veja, IstoÉ e Época, além de fazermos um mapeamento do corpus, momento em que iremos analisar os 65 textos editados sob a rubrica de C&T. No terceiro, faremos uma análise dos textos encontrados sob o tema da Genética editados nas três revistas. Após a análise, teceremos as nossas considerações finais.

As pesquisas e as descobertas científico-tecnológicas vêm ganhando cada vez mais espaço tanto nas páginas dos jornais como nas revistas de circulação nacional, dirigidas a um público leigo. Notícias, reportagens, entrevistas, seções, colunas, artigos, notas, fotos, ilustrações e infográficos trazem para o dia-a-dia da sociedade, entendida aqui como público leitor, assuntos que até bem pouco tempo eram discutidos em salas fechadas ou em conferências entre pares. Com a democratização da informação e com a sociedade cada vez mais consciente de seus direitos - no nosso caso específico, o direito à informação -, os cientistas se viram na obrigação de sair dos seus fechados laboratórios e prestar contas à sociedade sobre as suas pesquisas, que muitas vezes podem mudar, para o bem ou para o mal, o destino da humanidade. Exemplos recentes não faltam: o caso do césio 137, Chernobyl, clonagem humana, entre outros.

Por outro lado, os meios de comunicação se viram na obrigação de ter em seus quadros profissionais especializados para escrever textos sobre C&T. Prova disso é que hoje muitos jornais e revistas dirigidos a um público leigo veiculam textos sobre esses assuntos. É bem verdade que muitas críticas são feitas à veiculação de material que os pesquisadores classificam de 'não ciência' e também de a 'espetacularização' da ciência. No entanto, nos últimos anos, particularmente na última década, têm surgido, no Brasil e também no mundo, várias publicações e programas de rádio e tevê com o intuito de reportar com seriedade as descobertas científico-tecnológicas. Muitas dessas publicações e desses programas contam com profissionais/jornalistas altamente qualificados e também com profissionais/cientistas reconhecidamente preocupados em socializar o conhecimento produzido nos laboratórios.

Portanto, uma das tarefas do jornalismo científico é transformar as pesquisas e as descobertas científicas em informação a ser veiculada nos mais diversos meios de comunicação. Em outras palavras, transformar o conhecimento científico em produto de informação, quer dizer, em linguagem (Velho, 2001, p. 6).

Três jeitos diferentes de publicizar um fato

Durante os meses pesquisados, ficamos atentos para encontrar um mesmo assunto abordado concomitantemente pelas três publicações para que pudéssemos fazer uma análise semiótico-discursiva da maneira como as três revistas publicizaram esse acontecimento. Isso aconteceu na última semana de março de 2001, quando a imprensa brasileira noticiou o nascimento do primeiro clone animal brasileiro. Um feito elogiado e considerado um avanço significativo em torno das pesquisas que estão sendo realizadas na área da biotecnologia.

Ao analisarmos a publicização desse acontecimento, pudemos verificar como as três revistas trataram o assunto, ou seja, como as três publicações inseriram esse assunto em seus campos noticiosos. Somente na IstoÉ esse fato ganhou destaque e ocupou duas páginas sob a rubrica de C&T. A revista trouxe naquela semana, à páginas 84-85, uma matéria intitulada: Vitória Nacional - Primeiro clone nascido no Brasil, uma bezerra da raça simental marca o início da corrida para a produção de animais resistentes a doenças.

Já na revista Época, o mesmo fato mereceu uma pequena nota no Portal de Época, uma miscelânea de notícias curtas, notas, fotos, charges, frases. A nota tinha como título: O Brasil na era do clone.

Na Veja, o acontecimento ganhou um quarto de página e trazia como título: Quase uma Dolly - Brasileiros produzem o primeiro animal clonado a partir de células de embriões.

As três publicações deram tratamento completamente diferente ao assunto, ao transportá-lo para os seus campos noticiosos. Podemos ver que o acontecimento gerado pelo nascimento do primeiro clone brasileiro foi publicizado em três formatos do gênero jornalístico.

IstoÉ publicizou-o em forma de reportagem. O texto começa de forma poética para descrever o nascimento de Vitória, o primeiro animal clonado no Brasil, uma bezerra da raça simental. Depois descreve a trajetória da pesquisa feita pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e as diferenças entre a clonagem de Vitória e Dolly, a primeira ovelha clonada no mundo. A reportagem traz como ilustração uma foto da bezerra e outra do médico veterinário, chefe da pesquisa.

A revista Época publicizou o acontecimento em forma de nota. A revista traz, semanalmente, uma coluna fixa chamada Portal de Época. Na semana de 26 de março, a nota sobre o acontecimento inicia as páginas do Portal. A página 31 traz: Ciência - O Brasil na era do clone. Ao contrário da reportagem da revista IstoÉ, a nota de Época faz uma ironia velada à pesquisa da Embrapa ao afirmar que Vitória não é a Dolly brasileira. Acompanha a nota um infográfico que demonstra as diferenças entre um e outro método de clonagem.

O mesmo fato, publicizado por Veja, é classificado como notícia. A revista apenas descreve o acontecimento e mostra as diferenças da clonagem da Vitória, brasileira, e da Dolly, escocesa. A notícia vem acompanhada de uma foto da bezerra sendo carregada nos braços por um pesquisador da Embrapa.
Tanto na revista Época como na Veja, o que temos é apenas o relato puro e simples do fato. Ambas utilizam como ilustração a foto da bezerra Vitória, como comprovação do que estão noticiando. As duas revistas utilizam a terminologia clone e clonadas, como pressuposto de que estão publicizando ciência. O mesmo acontece quando indicam o órgão que fez a pesquisa, a Embrapa para dar um suporte de cientificidade e de autoridade ao acontecimento publicizado.

A narração em forma de reportagem na revista IstoÉ utiliza uma terminologia que identifica o acontecimento como um fato da ciência: clone, biotecnologia, animais geneticamente modificados, embriologistas, filhotes transgênicos e experimentos são alguns termos que o texto utiliza. A reportagem também dá voz ao coordenador da pesquisa, o médico veterinário Rodolfo Rumpf, e ao ministro da Agricultura da época, Pratini de Moraes, utilizando o recurso de autoridade de ambos para dar credibilidade ao fato narrado.

Em um paper apresentado durante o XXVI Congresso Brasileiro de Comunicação, realizado em Campo Grande, MS, em setembro de 2001, no Núcleo de Pesquisa sobre Comunicação Científica e Ambiental, Dalmo Oliveira da Silva, da Embrapa, faz uma leitura crítica do discurso elaborado pela imprensa brasileira acerca da experiência da clonagem realizada pela empresa. Após tecer comentários sobre a publicização desse acontecimento em diversos meios de comunicação do País, Oliveira corrobora da nossa opinião ao concluir que o estilo em que o texto é publicado varia de acordo com meio e com o auditório para o qual se destina, o fato científico, ao ser anunciado publicamente, é apropriado, principalmente no exercício do jornalismo, por vários estilos. A seqüência é uma distribuição por canais diferenciados para um público (audiência) também extremamente distinto. À medida que se afasta da matriz científica torce sua sintaxe, construindo um enunciado mais adequado à audiência. A variabilidade dos estilos discursivos que se apropriaram da informação sobre a clonagem de Vitória mostra como este tipo de informação pode ser oferecida a públicos de interesse generalizado, desde que devidamente ou indevidamente manipulada (Oliveira, 2001, s/p).

De acordo com as definições já explicitadas entre fato de DC e fato narrado como sendo simplesmente da área do jornalismo, podemos dizer que, nesse caso específico, das três revistas analisadas, somente IstoÉ fez divulgação científica em suas páginas. Veja e Época narraram o acontecimento, ou seja, ambas publicizaram um texto jornalístico referente à área de C&T, mas não fizeram divulgação científica.

Considerações finais

A pergunta formulada no início deste trabalho retorna agora, só que de maneira diferenciada: se no início eu me perguntava por onde se começa a escrever uma dissertação, aqui me questiono: como se termina um trabalho de pesquisa? A primeira conclusão a que chego é a de que ele não tem fim. Assim como a vida, que está sempre em movimento dialético, um trabalho de pesquisa nos leva a outro, mais outro e assim sucessivamente. No entanto, precisamos colocar um ponto final neste trabalho. Como fazê-lo?

Decidi por usar dois tipos de ponto final. No primeiro, pretendo retomar o que foi mais relevante do que estudei, pesquisei e escrevi. No segundo, tentarei retomar, em um exercício de reflexão, meio que livre, algumas percepções que foram se alinhavando e tomando corpo no trabalho de interpretação do objeto pesquisado. É isso que tentarei formular nos parágrafos que virão a seguir.

1) O jornalismo de divulgação científica busca, por meio de uma modelização de linguagem, vulgarizar, isto é, tornar acessível ao grande público as idéias em movimento que é a ciência. Na tentativa de transformar essas 'idéias' em fatos, o Jornalismo de Divulgação Científica nem sempre encontra o melhor caminho e muitas vezes acaba resvalando pela publicização da 'anticiência'.

2) Ao refletir sobre as dificuldades que perpassam a relação entre cientistas e jornalista/divulgador, percebi que se essas 'idéias' não forem bem explicadas para o jornalista elas não o serão também para o grande público. Os cientistas tendem a culpar os meios de comunicação e, por conseguinte, os jornalistas pela qualidade (ou pela falta de) do que noticiam ou do que escrevem, responsabilizando ambos pelas notícias negativas ou truncadas que chegam ao grande público. Os meios de comunicação e os jornalistas, por outro lado, censuram o cientista pelo seu hermetismo, pela desatenção e pela pouca vontade de democratizar suas 'idéias', de sair dos 'Montes Olimpos' onde vivem. Tudo isso gera dificuldade na hora de modelizar o discurso do cientista e de fazê-lo compreensível ao grande público.

3) Essas diferenças que dificultam a relação entre cientistas e jornalistas só serão superadas quando ambos entenderem que cada um produz um tipo de discurso. Não cabe ao cientista reduzir o seu discurso aos termos da vulgarização e nem é tarefa do jornalista aprender a empregar a linguagem do cientista. A este compete transmitir suas 'idéias' de maneira clara e àquele, modelizar essas 'idéias' de forma que possam se tornar compreensíveis ao grande público. Sobre isso, já escreveu Zamboni:

"Não cabe, portanto, demandar dos discursos vulgarizados os mesmos imperativos aos quais responde o discurso da ciência. Produzido em circunstâncias outras, dirigido a um outro público e desempenhando novas funções num outro sistema produtivo, a divulgação obedece aos ditames de uma nova inserção social e econômica, na qual se torna um bem em disputa por mercado. Ela deve, portanto, nessa nova ordem, adquirir potencialidade de mercadoria vendável, atrair consumidores e gerar lucros para as empresas de comunicação." (Zamboni, 1997, p. 186).

4) As revistas de informações gerais analisadas neste trabalho optam por lidar com os fatos e não com as 'idéias'. As idéias não são mercadoria vendável, não atraem consumidor e nem geram lucros, além do que, demandam um tempo maior para serem entendidas, analisadas e modelizadas, algo impossível para o jornalismo da instantaneidade, do tudo para ontem. Na nossa análise, percebemos uma ou outra tentativa feita por profissionais de Época e também de IstoÉ, que tendem para o jornalismo de divulgação científica, como o definimos anteriormente.

A) Este trabalho de pesquisa teve início por causa da minha dificuldade de escrever e de editar textos relativos à área de C&T. No decorrer do trabalho, pudemos perceber diversos pontos de vista de pesquisadores que estudam o Jornalismo de Divulgação Científica. Estudá-los nos fez entender que jornalistas e pesquisadores trabalham em campos diferentes e utilizam discursos também diferentes. No entanto, embora falando de forma diferente, ambos utilizam a mesma língua.

B) Conseguir entender que a diferença entre os dois tipos de discursos tem a ver fundamentalmente com as regras de produção de seus enunciados (Possenti, 2002, p. 238) fez-nos repensar nossos medos e concluir que ao pesquisador compete elaborar um enunciado compreensível e ao jornalista, modelizar esse discurso fazendo com que, dessa forma, o hermetismo característico da ciência se torne compreensível para um auditório leigo no assunto reportado.

C) Ao conseguir entender que saber ciência não significa, necessariamente, saber comunicar essa ciência, me sinto plenamente recompensada por este trabalho de pesquisa. O medo e a insegurança que reportei ao iniciá-lo deixaram de existir quando tomei conhecimento desse fato. Muitas vezes, o trabalho do jornalista/divulgador é criticado pela falta de densidade e pela superficialidade ao reportar determinado assunto. Às vezes, a crítica é pertinente. No entanto, freqüentemente, esquecemos que os dados, as idéias de determinado texto tiveram como base a fala de um cientista que por diversos fatores não conseguiu comunicar com clareza o assunto a que o jornalista precisava ter acesso.

D) Por fim, acreditamos que este trabalho possa ajudar a outras pessoas, leigas como eu, a entender um pouco melhor o mundo fechado da ciência. O cientista/pesquisador não é nenhum bicho-papão de quem devemos ter medo ou insegurança quando vamos entrevistá-lo. Não podemos esquecer que a nossa função é a de perguntar. E perguntar sempre, até conseguir modelizar a fala do entrevistado. Não podemos nunca acreditar que vamos escrever um maravilhoso texto sem antes conseguir entender o assunto que vamos reportar. Espero que este trabalho, que ajudou a amenizar as minhas inseguranças nessa área, possa servir também de ajuda para outras pessoas que têm interesse pelo Jornalismo de Divulgação Científica.

Notas

1) A tese de doutorado da professora Maria José Coracini foi publicada pela Educ/Pontes em 1991 e recebeu o título de Um fazer persuasivo: o discurso subjetivo da ciência.

2) Estamos utilizando os termos publicizado ou publicização como sinônimo de publicado ou editado.

3) Chapéu: palavra ou expressão curta colocada acima de um título. Usada para indicar o assunto de que trata o texto ou os textos que vêm abaixo dela. (Novo Manual da Redação FSP, 1992, p. 130-131)

Referências

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