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Se chamarmos de comunicação primária à
comunicação interpares dos cientistas e de comunicação
secundária à comunicação da ciência
ao público (Divulgação Científica, Comunicação
Pública da Ciência), alguns autores (Jacobi & Schiele,
1988) denominam esta passagem de tradução intersemiótica
para diferenciá-la das traduções, propriamente
ditas, entre línguas naturais.
De fato trata-se, na divulgação científica, de
uma transposição na mesma língua natural, da linguagem
utilizada pelos cientistas para se comunicarem entre si, para a linguagem
natural que pode ser compreendida pelo público leigo. A comunicação
interpares é, em boa parte, formalizada com termos próprios
a cada disciplina (2) apenas compreensíveis aos especialistas
de cada área.
Os obstáculos à divulgação científica,
ou seja, à passagem da informação produzida pelos
cientistas ao público podem ser de natureza lingüística,
semiótica, epistemológica, deontológica, sociológica,
fenomenológica, de comunicação de massa, etc.
Em cada uma destas dimensões podem ser analisados fenômenos
que, devido a divergência entre as "culturas" dos cientistas
e dos jornalistas, se refletem em seu modo de comunicação
(primária ou secundária) e podem se constituir em obstáculos
à divulgação científica.
Uma matriz multidisciplinar, que é transcrita a seguir, descreve
algumas destas dimensões disciplinares. Neste texto exploraremos
apenas as dimensões do etos e dos tempos da ciência, do
jornalismo e das decisões políticas.
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Comunicação primária
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Referências |
Comunicação
Secundária |
| Dimensões |
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| Signos |
Referencial |
(Jakobson, 1969:129) |
(Referencial, Fática, Emotiva,
Estética |
| Língua |
Idioleto (Barthes, 1971/64) |
Tradução
intersemiótica
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Natural
(Jacobi & Shiele, 1988) |
| Juízo |
Empirismo Lógico
Apodíctico
(Kuhn, 1978:57)
(ciência normal)
(Paradigma) |
|
Componente retórico
Roqueplo, 1974:177/194
(Gregory & Miller, 1998:114/117)
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| Etos |
Critérios internos da comunidade de cientistas
Segredo em ciência
|
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Julgamento do público, das editorias
e dos pares
Segredo em DC |
| Conceito de novidade |
(Cultura científica)
Sujeita a verificação,
Empirismo Lógico
ou corroboração
(Popper, 1965:57) |
|
(Cultura jornalística)
Como evento inesperado
(Wolf, 1996:222/234)
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| Tempo |
Normal da pesquisa |
Tempo político |
Do fechamento das edições |
| Semiótica |
Denotativa |
(Hjelmslev,1975)
1975:212/219 |
Conotativa |
| Discurso competente |
Legitimador |
|
Obstáculo na interface I1
(?)
|
| Controle de qualidade |
Pela revisão dos pares |
|
Pela editoria e mercado |
| Mídia |
Especializada |
|
Massiva |
| Deontologia |
Normalização por critérios
internos
(Science, 9/07/93:149) |
|
Código de Ética dos Jornalistas
(Belsey, 1994) |
| Fenomenologia |
Reducionista |
(Bachelard, 1996) |
Senso comum |
|
Conceitos |
29/68 |
"Impressão primeira" |
| Signos icônicos |
Gráficos, esquemas |
|
Fotografias, figuras |
Etos da Ciência
O etos da ciência já foi definido como: "o complexo
de valores, e normas que se consideram obrigatórios para o homem
de ciência" (Merton, 1977:357).
Em geral a ética profissional é constituída por
padrões de uma particular profissão, ocupação
ou grupo dentro de uma sociedade: Ética dos negócios,
da medicina, da engenharia, da publicidade, etc. Os preceitos éticos,
por sua vez, podem ou não, ser correlatos aos preceitos legais.
Uma ação pode ser antiética sem se constituir numa
infração à lei (praticar uma concorrência
desleal), e vice-versa (dirigir com excesso de velocidade para levar
um paciente ao hospital). As leis demandam uma expressão unívoca,
ambígua e pública, bem como as sanções em
caso de descumprimento, também determinadas pública e
univocamente. O etos é a ética representada por valores,
crenças atitudes, ações explícitas ou introjetadas.
Merton considera o etos da ciência como constituído por
quatro imperativos institucionais: O Universalismo, Comunismo, Desinteresse
e o Ceticismo organizado Estes imperativos foram configurados por Merton
em 1942, (Ibidem), e como veremos na seqüência, são
historicamente datados e articulados a epistemologia hegemônica
na época: a do empirismo lógico.
Universalismo: O universalismo, segundo Merton, afirma
que as pretensões à verdade, quaisquer que sejam as fontes,
devem ser submetidas a critérios impessoais e preestabelecidos.
O empirismo lógico, por sua vez, através de uma de suas
vertentes, a do movimento pela ciência unificada, defendia a idéia
de uma só ciência, uma só linguagem e vocabulário,
implicando uma intercomunicação entre as teorias e sua
redução a um único nível que seria o da
ciência da física. Ora supondo as respostas dos fenômenos
naturais como unívocas, a pesquisa submetida a uma metodologia
rigorosa e precisa sempre daria respostas, que retificadas ou ratificadas
pela experiência, jamais poderiam ser conspurcadas por preconceitos
ou má conduta de qualquer natureza. Afinal o universalismo, como
imperativo institucional, nada mais seria que um prolongamento da epistemologia
hegemônica na época. Desvios ou erros de qualquer tipo
poderiam, cedo ou tarde, ser constatados por experimentos mais apurados,
numa ciência atrelada a uma linguagem unificada.
Muita águia correu após o aparecimento das "Revoluções
Científicas"de Kuhn (Kuhn, T, 1978). A própria idéia
de incomensurabilidade entre teorias pertencentes a paradigmas diferentes,
viria a minar indelevelmente o universalismo epistemológico,
base da possibilidade do imperativo do universalismo ético.
Comunismo e Desinteresse: O comunismo no sentido, mertoniano,
implica que os produtos da atividade científica enquanto fruto
da colaboração da comunidade de cientistas seja propriedade
comum e conseqüentemente, os direitos de produtor individual sejam
severamente limitados. Se bem que o direito ao reconhecimento individual
das descobertas seja assegurado aos seus autores este reconhecimento
social constitui a sua maior recompensa. O Desinteresse está
em que o cientista, em seu trabalho, não procura tirar proveito
pessoal além de sua remuneração e o reconhecimento
por suas realizações.
O segredo em ciência é, portanto a antítese do comunismo
e do desinteresse. A ideologia da ampla publicidade em ciência
é uma herança da Revolução Científica
dos séculos XVII e XVIII. Ela emergiu como uma reação
contra a teoria do esoterismo em ciência que nos séculos
XVI e XVII. As atitudes das épocas clássicas e medievais
em relação à publicidade do conhecimento científico
eram fruto, em grande parte, do princípio que os "segredos
da natureza" assim como os segredos de estado e os segredos divinos
seriam corrompidos se caíssem em mãos de pessoas indignas
deles. (Eamon,W:1991:333). Incorporada pela filosofia iluminista a doutrina
da ampla publicidade em ciência chegou até nosso tempo
e foi retomada por Merton como decorrente de seus imperativos do etos
da ciência.
O advento dos grandes projetos envolvendo interesses militares como
foi o Projeto Manhattan da primeira bomba atômica e os que o seguiram,
bem como o surgimento de pesquisas industriais, biológicas e
de medicamentos envolvendo enormes recursos materiais tornaram a restituir
um papel importante ao segredo (3) em ciência.
Um outro fator mais visível agora, do que há algumas décadas
atrás, é a ocorrência de má conduta em ciência.
A erosão dos imperativos mertonianos na prática dos cientistas
fez com que os problemas éticos originados pela má conduta
em ciência dessem causa a formulação de normas capazes
de normalizar a conduta ética dos cientistas.
Conduta Imprópria em Ciência(4): Em 1992,
um painel de especialistas elaborou um relatório (5) definindo
a conduta imprópria em ciência como: a fabricação,
falsificação ou plagio na proposta, na execução
ou no relato de uma pesquisa. A conduta imprópria em ciência
não inclui erros de julgamento; erros no registro, seleção
ou análise dos dados, diferenças de opiniões envolvendo
a interpretação dos dados ou conduta imprópria
não relacionada ao processo de pesquisa.
A fabricação é a confecção de dados
ou resultados. A falsificação consiste na mudança
dos dados ou resultados. O plágio é descrito no relatório
como o "uso de idéias ou palavras de outrem sem dar o devido
crédito". O plágio deve incluir casos em que sentenças
ou frases sejam usadas sem citação da fonte.
Como ainda restaram muitas ambigüidades, alguns anos depois, uma
Comissão para a integridade na pesquisa composta por 12 membros
propôs algumas definições como:
"É um princípio fundamental que os cientistas
sejam confiáveis e justos na sua conduta na pesquisa e na disseminação
dos resultados. A violação deste princípio consiste
em má conduta na pesquisa. Especificamente a má conduta
em ciência é um mau comportamento que falha em respeitar
as contribuições ou propriedades intelectuais de outros,
que intencionalmente impede o progresso da pesquisa ou arrisca corromper
ou comprometer a integridade das práticas científicas.
Os exemplos abaixo incluem, mas não são limitados a":
Apropriação indébita: Um pesquisador ou revisor
não deverá, seja intencionalmente ou por descuido, plagiar,
o que significa a apresentação de idéias ou palavras
de outros como suas próprias sem mencionar as fontes.
Interferência: Um pesquisador ou revisor intencionalmente e sem
autorização não deverá seqüestrar ou
danificar qualquer material relativo a pesquisa de outrem.
Apresentação tendenciosa: Um pesquisador ou revisor, não
deverá: a) por má fé ou descuido com a verdade
apresentar material falso ou, b) omitir um fato de modo que o que é
apresentado, no conjunto, estabelece ou apresenta um material de óbvia
falsidade.
(Estes comportamentos são um subconjunto ações
de má conduta que são da responsabilidade das instituições
onde a pesquisa foi conduzida).
A definição também estabelece que a obstrução
à investigação sobre a má conduta constitui,
por sua vez, um ato de má conduta, assim como o não acatamento
dos regulamentos federais sobre a pesquisa como aqueles que se referem
a utilização de materiais de risco referentes a animais
e seres humanos.
O Institute of Scientific Information de Filadélfia, a mais conhecida
base de dados do gênero registra mais de um milhão de artigos
científicos por ano (6). Comparado com este número a quantidade
de casos de fraude e de graves atos de conduta imprópria em todo
o planeta é irrisória. (7)
No entanto as implicações de tais casos, para as instituições
envolvidas e mesmo para a comunidade científica do país,
podem ser devastadoras em tempo consumido, em possíveis litígios,
no prejuizo à reputação de pesquisadores e mesmo
para a imagem pública da ciência.
Como o procedimento para apuração da conduta imprópria
é delicado, pois envolve a própria reputação
dos suspeitos, alguns procedimentos padronizados têm sido sugeridos
para evitar constrangimentos desnecessários e proteger os inocentes
de acusações não fundamentadas ou injustas. Um
destes procedimentos contêm várias etapas (8) onde todas
as possibilidades, como, de mal entendidos ou acusações
provenientes de um conflito pessoal ou a não intencionalidade
da conduta imprópria podem ser descartadas antes de se proceder
a uma investigação oficial. Manter as investigações
primárias no nível da instituição onde ocorrem
as supostas infrações protege os acusados, mas pode representar
uma situação de mal estar para a própria instituição.
O ORI (Office of Research Integrity ) recebeu cerca de 1.000 alegações
de conduta imprópria entre 1993 e 1997. (9) Encerrou cerca de
150 investigações decidindo que a conduta imprópria
tinha ocorrido em cerca da metade dos casos. Dos 76 pesquisadores culpados
71% foram impedidos de receber ajuda federal por um prazo que variava
de 18 meses até 8 anos. 80m % dos casos envolviam falsificação
de dados. (10)
Na Europa apenas os países escandinavos têm procedimentos
padronizados para aferição da conduta imprópria.
Em sete anos, o comitê dinamarquês somente considerou 25
casos e achou fundamentação em apenas 7. Não obstante
duas prestigiosas instituições a INSERM na França
e a Sociedade Max Plank na Alemanha tiveram recentemente casos de investigação
de fraude (11). No Brasil não há um levantamento estatístico
de ocorrências de conduta imprópria. Certos casos isolados,
no entanto, podem ganhar publicidade. (12)
Uma das providências para evitar a conduta imprópria seria
a guarda pelas instituições dos registros de laboratório
e arquivo dos mesmos por dez anos. Sabe-se também que a maior
parte dos casos de conduta imprópria ocorre nas pesquisas biomédicas.
Em Outubro de 1999 uma nova definição foi elaborada (13)
de acordo com a qual a conduta imprópria consiste em: "fabricação,
falsificação ou plágio na proposta, execução
ou revisão da pesquisa ou no relato dos resultados". A falsificação
inclui os dados obtidos por manipulação e o plágio
inclui especificamente a informação encontrada na revisão
pelos pares. Esta nova definição não trata de disputas
entre autores que devem ser decididas pela arbitragem de colegiados
específicos.
Até a poucas décadas, acreditava-se que a fraude em ciência
era rara. Além disto, os procedimentos científicos eram
supostamente autocorrigidos de modo que a descoberta da fraude seria
inevitável. Atualmente como as pesquisas de laboratório
são mais dispendiosas e, às vezes os experimentos são
de replicação difícil e trabalhosa a fraude se
tornou menos rara.
Além disto a competição acirrada por publicação
em periódicos de prestígio, por subsídios para
a pesquisa e também as lutas acirradas pela ascensão na
carreira podem ocasionar estes deslizes éticos no desempenho
dos pesquisadores.
A revisão pelos pares joga um papel importante na fase final
da pesquisa, mas não pode resolver todos os problemas. Citar
em demasia o trabalho próprio e minimizar o de outros são
também críticas freqüentes feitas pelos revisores.
O etos do jornalismo, por seu lado envolve um ideário essencialmente
de publicidade integral. O artigo 10 do Código de Ética
do Jornalista diz que "O acesso à informação
pública é um direito inerente à condição
de vida em sociedade, que não pode ser impedido por nenhum tipo
de interesse" (14) Há portanto uma disjunção
entre o etos da ciência e o etos do jornalismo. Este fato pode
originar dilemas tanto ao cientista como ao jornalismo.
Conflitos de interesses: As "culturas" ou etos da ciência
e do jornalismo podem engendrar alguns conflitos de interesses, alguns
dos quais procuraremos identificar:
1. Interesse genérico do progresso da ciência: (I1).
Procurar a maior publicidade possível dos resultados da comunicação
primária. Neste ponto as opiniões se dividem entre aqueles
que defendem ampla e irrestrita publicidade sendo a seleção
feita pelos próprios interessados e a publicidade ampla apenas
das pesquisas já referendadas pelo procedimento da avaliação
"pelos pares"
2.Interesse dos produtores do conhecimento científico (I2)
Procura um equilíbrio entre a ampla publicidade (I1) a garantia
do reconhecimento da prioridade dos resultados das pesquisas. (I3).
Em suma o "sistema" da ciência admite um vetor de cooperação
e outro de competição entre os próprios cientistas.
A composição entre estes dois vetores de valor variável,
de acordo com o setor disciplinar, interesses econômicos envolvidos,
importância da pesquisa, etc, fornece a direção
e a força do vetor resultante.
3. Interesse dos periódicos científicos impressos.
(I4) Evitar que a publicação de seu material, já
revisado pelos pares, seja dado ao público antes do dia do aparecimento
da edição impressa.
4. Interesse dos jornalistas (I5) Ter a maior precedência
possível no relato dos resultados da pesquisa (comunicação
primária) ao público (comunicação secundaria.
Uma conciliação entre os interesses (I4) e (I5) é
o sistema de embargos.
Embargos: O sistema de embargos visa conciliar os interesses
dos periódicos (I4) científicos com o interesse dos jornalistas.
(I5). O embargo consiste num "acordo entre cavalheiros" segundo
o qual o uso público da informação é proibido
até uma data específica que coincide com a data da publicação
do peródico científico que detém a informação.
Tanto a revista Nature como a Science enviam para mais de mil jornalistas
em todo o mundo o material que será publicado nestas revistas
na semana seguinte. (Marshall, E, 1998:860/869), 1Os jornalistas dispõem
então de alguns dias para consultar outras fontes, estudar o
assunto e elaborar suas matérias. Os jornalistas, por sua vez,
se comprometem a não deixar vazar qualquer informação
até a data da publicação da revista.
O sistema dos embargos tem seus defensores e seus detratores. Os primeiros
alegam que por este sistema os jornalistas dispõem de mais tempo
para elaborar suas matérias, os periódicos conservam seu
ineditismo, os próprios cientistas ganham uma exposição
mais acurada e o público uma melhor informação.
Os que se posicionam contra o sistema alegam que nada justifica qualquer
atraso na publicidade dos resultados das pesquisas, o prazo da retenção
é arbitrário e, principalmente no caso das revistas primárias
médicas, os editores não desejam que seus subscritores
médicos de suas publicações sejam surpreendidos
por notícias na mídia antes de ter o número da
revista científica em mãos.
Tempos da ciência, do jornalismo e das decisões políticas:
Sabemos que os tempos da pesquisa científica e das reportagens
em jornalismo são bastantes diferentes. O tempo da pesquisa é
contado em anos (dissertações, teses, projetos de pesquisa)
ou mesmo lustros ou décadas (grandes projetos, etc). O tempo
da notícia jornalística é contado em dias ou mesmo
horas, é o tempo do fechamento das edições. Esta
diferença nem sempre é levada em consideração
nos descompassos e críticas mútuas entre cientistas e
jornalistas: pedantes e incompreensíveis os primeiros, superficiais
e sensacionalistas os segundos.
A "verdade" da pesquisa científica é fruto de
um longo e laborioso trabalho de pesquisa, sujeito à rigorosa
comprovação empírica e avaliação
pelos pares. Um dos valores da "verdade" da noticia jornalística
é a atualidade do fato novo e inesperado, muitas vezes contrariando
teorias científicas consagradas, daí o seu caráter
de "inesperado"
Um terceiro tempo é o tempo da tomada da decisão política.
Este tempo depende de vários fatores: Pressão do "quarto
poder" (imprensa), envolvimento da opinião pública,
equação das forças políticas etc.
Estes fatos têm dado origem a dois tipos de questões: 1.
Se as decisões de interesse público devem ser tomadas
de acordo com um cronograma estabelecido pela esfera política
e não pela esfera científica ou técnica, estas
decisões serão tomadas antes que um consenso científico
tenha sido atingido justamente porque, em geral, o tempo da política
é mais escasso que o tempo da decisão científica.
2. A segunda questão, decorrente da anterior, é de se
saber como tomar uma decisão baseada em conhecimento científico
entes que haja um consenso entre os próprios cientistas?
Analisando esta problemática, Collins (Collins & Evans, 2002)
coloca algumas dúvidas decorrentes:
1. Deve a legitimação política de decisões
técnicas no domínio público ser maximizada referindo-as
a um amplo processo democrático ou deveriam ser apenas ser baseadas
no melhor parecer especializado? A primeira opção arrisca
uma paralisia tecnológica. A segunda convida ao incremento da
oposição do público mais esclarecido.
2. Em temas onde tanto o público como a comunidade científica
tem contribuições a dar podemos qual o valor do conhecimento
técnico científico em relação ao conhecimento
do público leigo?
3. Como tomar boas decisões de modo correto?
Tudo isto deságua no problema específico que necessita
ser resolvido:"Como tomar decisões baseadas no conhecimento
científico antes da formação do consenso científico?
(Collins, Idem).
Muitas vezes, antes que as decisões legais possam ser sugeridas
ao governo por um consenso entre os cientistas, as pressões de
grupos econômicos por um lado, ambientalistas e políticos
por outro, geram inquietações e controvérsias que
refletem na agenda setting da mídia massiva e, conseqüentemente
em parcelas da opinião pública informada e que se preocupa
com o exercício da cidadania.
Um exemplo no Brasil é a lei de Biossegurança proposta
pelo governo ao legislativo em Fevereiro de 2004. Basta seguir a cobertura
do tema pela imprensa diária mais significativa durante alguns
dias (15) para verificar o "cipoal" no qual foi transformada
esta problemática.(Novaes, 2004) Como, no entanto, obter um parâmetro
confiável do "estado da arte" dos transgênicos,
objeto parcial desta lei sob o aspecto científico? Uma pista
é um texto publicado pela revista Science (Wolfenbarger R &
Phifer,P,R, 2000) cujo resumo transcrevemos abaixo:
"Discussões sobre os riscos e benefícios de se
adotar organismos geneticamente transformados são fortemente
polarizados entre grupos pro e contra a biotecnologia. Todavia o atual
estado de nosso conhecimento é freqüentemente esquecido
neste debate Uma revisão da literatura científica existente
revela que experimentos cruciais tanto dos riscos ambientais, como dos
benefícios na utilização dos transgênicos
ainda não foram feitos. A complexidade dos sistemas ecológicos
apresenta importantes desafios aos experimentos para ter acesso aos
riscos e benefícios destes organismos e isto gera inevitáveis
incertezas sobre estes produtos. Em conjunto, os estudos existentes
mostram que os riscos e benefícios podem variar espacial e temporalmente
em cada caso de acordo com o produto a ser modificado e as condições
ambientais."
Em suma o "tempo" da política empurra normas legais
goela abaixo, enquanto que o "tempo" da ciência nos
aconselha um prudente compasso de espera enquanto cada produto transgênico,
em sua especificidade própria e do ambiente no qual será
cultivado, sejam, em cada caso, cuidadosamente avaliados quanto aos
seus riscos e benefícios.
Entre os "luditas"· (16) representados pelas ONGs e
"verdes"de variada natureza (17), e os vorazes interesses
de algumas multinacionais (18) detentoras de patentes de transgênicos,
o interesse público demanda menos demagogia e lobismo e mais
informação científica .
Notas
1) Este texto é um capítulo de um livro denominado: Elementos
para uma teoria multidisciplinar da divulgação científica
ainda em preparo.
2 )Em verdade as pesquisas científicas são expressas numa
linguagem que abrange, em proporção variável a
cada disciplina, termos do jargão específico de cada uma
delas, eventualmente fórmulas matemáticas que expressam
suas leis, tudo isto articulado a frases da linguagem natural.
3) O segredo em ciência pode ter um papel positivo em algumas
instâncias, como por exemplo, quando os cientistas suspendem a
publicação de suas pesquisas até estarem seguros
de seus resultados.
4) A aceitação do termo "conduta imprópria
em ciência" como sucedâneo do termo "fraude em
ciência" para rubrica de certos procedimentos legais ou paralegais
gerou também uma polêmica. A transição parece
ter sido defendida por advogados e não por cientistas uma vez
que "conduta imprópria" permite uma maior latitude
na defesa.(SCHACHMAN, H,K, 1993)
5) Responsible Science:Ensuring the Integrity of the Research Process
(National Academy Press, Washington, DC, 1992) vol.1 Apud Science, 9/Julho/93,
p.149
6) Nature, nº 6704 de 22/Outubro/98, p.727
7) Alguns casos se tornaram notórios e mereceram ampla publicidade
8) Science, 27/Agosto/93, p.1109.
9) Este número ainda é relativamente baixo tendo-se em
conta que o Science Citation Index listou cerca de um milhão
de artigos em 5.600 periódicos selecionados em 1998 o que corresponde,
possivelmente a apenas um décimo do total de periódicos
científicos publicados no mundo.(Cf Nature, 4/Março/99,
p. 13.
10) Nature, 4/Março/99 p.13/17
11) Nature, 22/Outubro/98, p.727.
12) Folha de S.Paulo, 10/Dezembro/95, p. 5-14
13) Science, 28/Janeiro/00
14) http://www.aureliogalvao.jor.br/ética/ética1.htm
15) O Estado de São Paulo, (05/02: A17) : (06/02: A10): (07/02:
A15) (08/02:A14)
16) Os ludistas (Luddites) foranm aqueles que destruíram em 1812
as novas máquinas têxteis recém introduzidas na
Inglaterra por medo de que sua produção muito superior
à dos trabalhadores manuais deixaria estes desempregados. Deste
então o termo "ludita" designa aos que se opõem,
por razões supostamente sociais, ao desenvolvimento técnico.
17) O movimento contra os orgaqnismos geneticamente modificados no Brasil,
é liderado pelo GreenPeace e pela campnaha por yum Brasil livre
de Transgênicos que conta com 85 entidades não-governamentais.
18) Além da Monsanto, várias empresdas multinacionais
e nacionais, como a Dupont, Novartis Bayer e Basf, desenvolvem projetos
de pesquisa com plantas transgênicas no Brasil:
Bibliografia
COLLINS, H,M & EVANS,R "The Third Wave of Science Studies"
in Social Studies of Science, SAGE,Pub. Vol.32, Abril 2002, p.235/296
EAMON,W "From secrets of nature to public knowledge" in LINDBERG,D,C
& WESTMAN,R (Eds), Reappraisals of the Scientific Revolution, New
York, Cambridge Uni.Preass, 1991
JACOBI,D & SCHIELI,B Vulgariser la science, Seyssel:Ed.ChVallon,
1988
KUHN.T. Estrutura das Revoluções Científicas,
São Paulo, Pewrspectiva, 1978
MARSHALL,E "Embargoes: God, Bad or Necessary Evil?"in Science,
30/10/1998,p.860
MERTON, R.K La sociologia de la ciencia, Madrid, Alianza, Universidad,
1977
NOVAES,W, "O cipoal dos transgênicos" in O Estado de
Sâo Paulo, 13/02/2004, A3
SCHACHMAN, H,K "What is Misconduct in Science" in Science
, 9/07/93, p.148
WOLFENBARGER,L, & PHIFER,P,R, "The EcologicaL Risaks and Benefits
of Genetically Engineeered Plants," in Science, 15/Dezembro/2000,
p.2088/2092
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