Volume 2, Número 2, Julho de 2005
Artigos
A subjetividade no discurso de divulgação científica

Lívia Machado Cordeiro (UFRGS)
Orientadora: Profa. Ms. Carmem Luci Costa da SILVA (UFRGS)


 

Resumo
:A partir da noção de "aparelho de funções" de Benveniste (1989), o presente trabalho objetiva analisar as marcas do sujeito enunciador no discurso de divulgação científica, representadas pelos elementos de inversibilidade do diálogo e pelos indicadores de modalidade.

Palavras-chave: enunciação; discurso; divulgação científica; indicadores dialógicos; modalidade.

1. Introdução

Faz parte do consenso a idéia de que o discurso de divulgação científica não evidencia a posição de seu autor em nome de uma "pretensa cientificidade" e, por isso, é comum ouvirmos que tal modo de dizer é apenas informativo. No entanto, estamos questionando essa suposta neutralidade: como se apresenta a voz responsável pelo discurso de divulgação científica? O sujeito enunciador apresenta posições em seu dizer? Há marcas dialógicas nesse discurso?

Nesse sentido, o presente trabalho trata de verificar a posição do locutor no discurso de divulgação científica, através da exploração de mecanismos lingüísticos que atestam o seu engajamento enunciativo. Procuramos, mais especificamente, analisar as marcas lingüísticas do sujeito no discurso, representadas pelo aparelho de funções (Benveniste, 1989), mostrando, a partir disso, a atitude que o mesmo assume na enunciação.

Acreditamos que esta descrição/análise é relevante, uma vez que tem ocorrido uma crescente divulgação das descobertas científicas, em função das ciências estarem se voltando aos interesses e necessidades sociais, através de reportagens em revistas específicas, como é o caso dos textos usados como corpus neste estudo. Tais reportagens são constituídas por uma linguagem menos formal do que a usada na área científica, procurando atender às demandas dos leitores que buscam um maior entrosamento com as práticas sociais e melhoria da qualidade de vida.

Assim, optamos por evidenciar a postura que o locutor assume frente ao discurso científico, com a utilização de marcas que demonstram o seu comprometimento enunciativo. Entendemos que tais marcas fazem parte da inversibilidade de papéis entre locutor e alocutário (asserção, intimação e interrogação) e atitudes assumidas por este locutor em seu dizer, através dos indicadores modais (verbos modais, advérbios, expressões modalizadoras, etc.).

Para tanto, baseamo-nos no referencial teórico da Lingüística da Enunciação, por entendermos que esta é a linha de pesquisa que mais se aproxima de nossa proposta, visto a enunciação, como acontecimento enunciativo, ser definida por Benveniste (1970: 82) como o "colocar em funcionamento a língua por um ato individual de apropriação". Nessa perspectiva, buscamos verificar a presença dos sujeitos enunciadores no interior do discurso e as relações que os mesmos estabelecem com os seus alocutários.
Nosso estudo se organiza em seis partes, sendo elas: (1) introdução do trabalho, com o objetivo do estudo, justificativa e corpus utilizado; (2) exposição do referencial teórico com as principais questões da enunciação e com as categorias selecionadas para análise; (3) amostragem da metodologia (descrição do corpus e dos procedimentos de análise); (4) análise do corpus; (5) uma breve reflexão sobre os resultados e (6) conclusão sobre o trabalho exposto.

2. Dos princípios teóricos

2.1 Enunciação e intersubjetividade

A Teoria da Enunciação ganhou impulso na França com a obra do lingüista Émile Benveniste, o qual propôs estudar a subjetividade na língua, vinculando-a a noção de enunciação, tratada como ato produtor do enunciado. Benveniste (op. cit.) postulou que se considerasse, como objeto de estudo, a atividade lingüística dos falantes. Uma atividade que evidenciasse os constituintes do aparelho formal da enunciação, sendo eles: um locutor; um alocutário; uma referência e outras "entidades lingüísticas", aquelas criadas na e pela enunciação, tais como tempo, lugar e elementos dêiticos (1).

A enunciação é, por definição, uma instância conceitual, ela se caracteriza pelo conjunto de fatores e atos que determinam a produção de enunciado. Por sua natureza de troca, o ato de enunciação insere-se também dentro de uma categoria de atos que coloca em relação dois sujeitos: um sujeito que produz, o "eu", e um sujeito para quem se destina o enunciado produzido, o "tu": "(...) Toda a enunciação é, explicita ou implicitamente, uma alocução, ela postula um alocutário" (Benveniste, 1989: 84). Sendo assim, a enunciação é caracterizada como uma atividade em processo - um processo que estabelece um diálogo entre locutor e alocutário.

O texto, nosso objeto de estudo, é o resultado deste circuito de produção, já que nele existem um eu e um tu pressupostos. O processo de enunciação pode ser entendido como o lugar onde se materializam os recursos lingüísticos da alocução verbal, tornando possível a identificação do processo de sua produção. Com isso, entendemos a escrita como uma das formas de atividade de funcionamento da língua. É através dessa atividade que se evidencia a ação do locutor na construção de enunciados e a instauração da relação língua/mundo.

2.2 A enunciação e o aparelho de funções

Benveniste (op. cit.) considera que a enunciação manifesta a linguagem como um modo de ação. Para realizar essa ação, o locutor dispõe de um aparelho de funções para influenciar de algum modo o comportamento do alocutário. Tal aparelho comporta mecanismos como: interrogação, intimidação, asserção e modalidade. Ao utilizar o mecanismo denominado interrogação, o enunciador busca provocar uma "resposta", através de um processo de comportamento com dupla entrada, ou seja, o locutor, ao perceber que o conteúdo de sua enunciação pode ser validado, mas não é ele quem valida, faz uso da interrogação. Ele não assume a posição entre verdadeiro ou falso, deixando ao alocutário a decisão de ser, ou não, validada a enunciação. Sendo assim, vemos que este mecanismo possui um valor intersubjetivo.

Já, na asserção, o locutor valida o conteúdo de sua enunciação, comunicando certezas.

Quanto à intimação, temos a relação imediata do locutor ao alocutário, através do uso de ordens e apelos, que são, geralmente, marcadas com verbos no imperativo.

Por fim, temos o mecanismo da modalidade, que marca as atitudes do locutor em relação ao que enuncia para o alocutário. Com relação aos elementos de modalização, veiculadores de atitudes do falante com relação ao que é dito, Benveniste (op. cit.) realizou um estudo, considerando que, como categoria lógica, a modalidade compreende a possibilidade; a impossibilidade e a necessidade. Para este teórico, na perspectiva lingüística, esses três modos se reduzem a apenas dois, devido ao fato de a impossibilidade não ter expressão distinta e ser expressa pela negação da possibilidade. Sendo assim, possibilidade e necessidade são duas modalidades primordiais, tão essenciais em lingüística quanto em lógica.

No presente trabalho, analisaremos as modalidades lógicas, considerando-as conforme Silva (2004) como situadas nos eixos do saber e/ou no do crer. Um aspecto que não está contemplado no aparelho de funções, mas que estamos considerando também como um recurso de modalização, é a citação, uma vez que o sujeito enunciador insere o discurso de outro locutor em seu texto, a fim de reforçar sua argumentação e conferir-lhe "maior veracidade e credibilidade" (Paschoal & Celani, 1992). No caso de nosso corpus, o locutor pode valer-se do recurso da citação para validar seus objetivos nas reportagens.

2.3 O texto de divulgação científica

Pelo fato de serem considerados produtos da atividade humana, os textos estão sempre vinculados às necessidades, interesses e condições de funcionamento das formações sócio-política-econômicas, sendo estas muito diversas e progressivas no decorrer da história.

No contexto intelectual, que compreende a produção e a difusão de conhecimentos, encontramos os textos de divulgação científica em jornais e revistas. Ao observarmos estes textos, percebemos determinadas marcas enunciativas, visto os autores utilizarem recursos lingüísticos para facilitar a produção de sentidos e, conseqüentemente, a interlocução. Tais usos evidenciam regularidades no funcionamento desse tipo de discurso, que refletem as condições e objetivos específicos do assunto de interesse de cada falante (2).

É uma tarefa complexa traçar a definição do texto de divulgação científica, pois segundo Mora (2003: 13), "cada divulgador tem sua própria definição de divulgação". Apesar dessa dificuldade, a autora observa que "a divulgação é uma recriação do conhecimento científico, para torná-lo acessível ao público".

Sendo assim, entendemos que, por se tratar de um modelo textual com peculiaridades próprias e tão relevantes, os textos de divulgação científica são o resultado de determinadas escolhas lingüísticas como, por exemplo, os usos da interrogação, da citação, dos verbos modais, etc. A exploração de tais recursos pelo locutor tem como objetivo estabelecer um diálogo com o seu alocutário. É através do uso destes mecanismos lingüísticos que o locutor irá permitir, na leitura, o engajamento enunciativo do alocutário, propiciando a circulação do texto de divulgação científica em diferentes meios sociais.

3. Considerações metodológicas

3.1 Os objetos sob estudo

Como objetos de estudo, serão utilizadas três reportagens, extraídas da revista intitulada Super Interessante, no período que abrange os anos de 2003 e 2004. A escolha por tal veículo de comunicação se deu devido ao fato de se tratar de uma bem conceituada revista, com larga tiragem de exemplares e conhecido meio de propagação das descobertas científicas.

3.2 Materiais e métodos
3.2.1 Material utilizado

Os textos, objetos de nossa análise, são reportagens da revista Super Interessante. A primeira reportagem versa sobre a questão do uso, por parte dos cidadãos brasileiros, de armas de fogo (RPT 01); a segunda, sobre o perigo de se ingerir ovos crus (RPT 02) e a terceira, sobre a possibilidade de extinção dos bacalhaus (RPT 03).

Os critérios para seleção destes textos foram:
a) o assunto abordado na reportagem deveria ser pertinente à área cientifica a que se propõe a revista, procurando criar uma motivação para a leitura e familiaridade do assunto com o leitor;
b) os textos deveriam ser de tamanho pequeno, médio e extenso, a fim de tornar a tarefa de descrição e análise exaustiva, com o propósito de mostrar que a extensão da reportagem não influencia no uso dos mecanismos lingüísticos;
c) os textos deveriam formar uma unidade de sentido ao leitor.

3.3 Procedimentos de análise

Para o exame dos efeitos de sentido produzidos nas reportagens de divulgação científica, objetos de nossa análise, propomos, a partir do recorte teórico já esboçado, as seguintes categorias de análise:
I - Função 1 - Inversibilidade
a) Asserção
b) Intimação
c) Interrogação
II - Função 2 - Modalidade
a) Lógicas
1. Eixo do saber
1.1. Verbo auxiliar modal: dever
1.2. Advérbios de afirmação: certamente, necessariamente...
1.3. Expressões cristalizadas: sem dúvida...
1.4. Orações modalizadoras de certeza: é necessário que, não há dúvida de que...

2. Eixo do crer
2.1. Verbo auxiliar modal: poder
2.2. Advérbios de dúvida: talvez, provavelmente, possivelmente...
2.3. Expressões cristalizadas: quem sabe, parece...
2.4. Orações modalizadoras de dúvida: Há possibilidade de: é possível que...
b) Citações

4. Descrição e análise do corpus

Tendo em vista o recorte teórico proposto nos itens anteriores, analisaremos três reportagens, aqui denominadas RPT 01, RPT 02 e RPT 03, de divulgação científica, da revista Super Interessante, com o objetivo de evidenciar as marcas do sujeito enunciador, através do uso dos elementos de inversibilidade e dos indicadores de modalidade. Verificar tais aspectos enunciativos é relevante por evidenciar a presença de relações intersubjetivas, que, para Benveniste, são inerentes ao uso da língua. Esse teórico considera que a enunciação expressa uma certa relação com o mundo, em que o locutor refere através do discurso e o alocutário co-refere, fato que os coloca em relação constante e necessária em seus diálogos.

Para análise proposta, iniciaremos com a observação da RPT 01 - "Seria mais seguro se todos andassem armados". Nas três primeiras linhas, o locutor parece assumir uma atitude dialógica, o que é marcado pelas interrogações. No entanto, esse efeito logo se desfaz, através do uso do advérbio de certeza "Sou francamente adepto..." (linha 04), da oração modalizadora de certeza "é preciso" (linha 06) e o modal "devem" (linha 06), o que é reforçado pelas asserções presentes nas linhas 08 e 09.

Levando em conta as marcas que apresenta, o texto parece situar-se na Função 2 - Modalidade, no eixo do saber, uma vez que traz elementos que denotam certeza, tais como verbos no presente do indicativo: reduzem (linha 08), mostram (linha 08), soma-se (linha 10), diminuem (linha 19), entre outros. O locutor defende, em seu dizer, a idéia de que é necessário que todos possuam e saibam usar armas de fogo para segurança pessoal.

Para reforçar o caráter de certeza frente ao que cita, o locutor utiliza o recurso da citação na linha 11, com o propósito de reforçar sua argumentação e conferir maior credibilidade junto ao seu alocutário, trazendo a opinião de um profissional da área criminal.

Ainda com relação ao eixo do saber, o eu do texto, usa o modal de certeza "é preciso" (linha 06) para evidenciar seu comprometimento com o discurso (3). Atrelado a isso, também percebemos que o verbo auxiliar modal "deve" aparece diversas vezes no discurso (linhas 06, 16, 26, 40, 49, 52 e 53), com o objetivo de reforçar o saber do eu do texto.

No entanto, o locutor procura diminuir este caráter de certeza absoluta, buscando construir um diálogo com seu alocutário, através do uso de interrogações, as quais aparecem na parte inicial do texto (das linhas 02 a 04), no segundo parágrafo (linhas 14 e 15), no quinto (linhas 37 e 38) e no último parágrafo (das linhas 46 a 48). A fim de buscar uma resposta do tu, o locutor inicia seu texto já com duas indagações: "Por que um jovem maior de 18 anos tem o direito de casar, criar uma empresa e votar para presidente, mas não de usar uma arma para se defender?" (linha 02) e "O que e mais eficaz: proibir o jovem de portar uma arma ou ensinar-lhe a usá-la adequadamente?" (linha 03). Esta instauração de um possível diálogo é reforçada outras vezes, como já descrevemos.

Como se trata de um texto de opinião acerca de determinado assunto, o uso das perguntas é um recurso válido para o locutor propor ao alocutário a decisão sobre a validação do que está sendo abordado. É com o uso dessas interrogações que o locutor engaja-se no eixo da possibilidade, valendo-se também do modal "pode". Com isso, diminui o seu comprometimento sobre o discurso e deixa espaço para o seu alocutário opinar. No entanto, isso parece ser apenas um artifício, visto que a pergunta presente entre as linhas 37 e 38 é respondida pelo próprio locutor. Isso reforça o caráter de certeza do texto, diminuindo a atitude dialógica do locutor, criada através do mecanismo de interrogação.

Há, ainda, nesta reportagem, injunções, que são espécies de ordenações, marcadas por verbos no imperativo, como por exemplo, o explica (linha 20), o pune (linha 13), o cumpre (linha 14), que geram uma reação imediata no tu¸ numa referência necessária ao tempo da enunciação, já que as intimações colocam o locutor em relação constante e necessária com o seu dizer (Benveniste, 1989).

A fim de tornar o seu texto mais próximo, o locutor também utiliza o recurso dos verbos na primeira pessoa do plural: lemos (linha 24), pensamos (linha 26), vejamos (linha 27), sabemos (linha 35) e precisamos (linha 43).

Além destes mecanismos citados, há as asserções, em que o locutor comunica certezas ao seu alocutário sobre a enunciação, com o objetivo de dar continuidade ao diálogo, como, por exemplo, nas linhas 08 (As estatísticas mostram que restrições à venda de armas para civis não reduzem a criminalidade), 18 (Os delitos diminuem apenas quando os bandidos percebem que os riscos são altos, devido à repressão e à certeza de punição) e 23 (As armas de fogo carregam um forte simbolismo de morte porque na mídia aparecem sempre associadas a crimes e tragédias. Raramente lemos sobre crimes que foram evitados por cidadãos armados. O aspecto ofensivo prepondera sobre o defensivo no noticiário).

Outro fator importante que ressaltamos é a utilização de verbos na primeira pessoa do singular, os quais o locutor se vale para iniciar e finalizar seu texto. No parágrafo inicial, o "eu" se manifesta de forma clara na expressão "Sou francamente adepto da segunda alternativa..." (linha 04). Isso evidencia que é o próprio locutor quem julga como verdadeiro seu discurso.

No último parágrafo, o eu indica um forte comprometimento em seu dizer, uma vez que apresenta uma posição pessoal explícita, através do enunciado construído em primeira pessoa "Na minha opinião, devem existir única e exclusivamente quatro condições" (linha 49).

A inscrição do locutor no eixo do saber no texto pode ser verificada por nossa legenda (Anexo 01), já que, conforme o esquema, as cores relacionadas à asserção, às orações modalizadoras de certeza e ao auxiliar modal "deve" são predominantes.

Na RPT 02 - "Por que é perigoso comer ovos crus?", embora seu título inicie com uma interrogação, marcando a atitude dialógica do sujeito enunciador, no início do texto vemos a inserção do locutor no eixo do saber, marcado pelo uso da asserção inicial. A inscrição do locutor no eixo da certeza mantém-se no restante do texto, através da utilização da oração modalizadora de certeza "é, portanto, impossível distinguir" (linha 13), que não deixa escolhas ao alocutário sobre o conteúdo do discurso. Segundo Koch (2000: 87), quando o locutor situa-se no eixo do saber, ele "procura manifestar um saber e obriga o interlocutor a aderir ao seu discurso, aceitando-o como verdadeiro". A partir deste ponto, o eu do discurso passa a usar verbos no imperativo, dando ordens ao seu alocutário, que denominamos de injunções, como por exemplo: "diga adeus" (linha 15), "nem pensar" (linha 16) e "coma" (linha 17), marcando a utilização da intimação.

Para acentuar o caráter de certeza, tão presente no eixo do saber, o locutor expressa um dado comprovado sobre o seu discurso: "... a gema solidifica a 60 graus..." (linha 15). Este mecanismo denomina-se de asserção, pois o locutor valida o conteúdo como verdadeiro e o expõe diretamente ao seu alocutário. Outro exemplo de asserção é a frase: "É, portanto, impossível distinguir um ovo sadio de outro infectado com salmonela" (linha 13). Dessa forma, o locutor assume para o tu o efeito de certeza e de verdade presentes em seu texto.

No entanto, para diminuir esse comprometimento acerca de seu dizer, o locutor, para situar seu dizer no eixo do crer, utiliza o verbo modal "poder" (linhas 04 e 09). Como se trata de um assunto referente à saúde humana, o locutor fez uso de diversas citações (linhas 04, 06 e 14), trazendo outro locutor para seu texto, um médico veterinário, com o objetivo de reforçar sua argumentação e evidenciar os reais problemas que podem ser causados ao ingerirmos ovos com gemas cruas. Os discursos citados foram um recurso do eu devido à autoridade da pessoa citada. Tal recurso é bastante válido nesse tipo de texto de divulgação científica.

Outra marca que o locutor utiliza para demonstrar sua atitude frente ao que enuncia são as interrogações, que já aparecem no título do texto (linha 01) e surgem novamente no parágrafo final (linha 14), com o propósito de solucionar o suposto problema. Com as perguntas, o locutor busca uma interação com o alocutário, procurando uma resposta ao seu discurso. A pergunta inicial, logo no título, já instaura um efeito de diálogo com o tu. Aqui o locutor ainda não assume uma posição, propondo, ao longo de seu texto, que o alocutário decida. No entanto, novamente vemos que o recurso à interrogação como produção de um efeito dialógico parece ser um artifício, uma vez que a pergunta presente na linha 14 é respondida pelo próprio locutor. Isso reforça o caráter de certeza do texto, diminuindo a atitude dialógica do locutor, criada através do recurso citado.

Assim, verificamos que o locutor situa seu texto no eixo do saber como pode ser confirmado através de nossa legenda (Anexo 02), visto que, conforme o esquema, as cores que dominam estão relacionadas à asserção, ao auxiliar modal "deve" e às orações modalizadoras de certeza.

Já a RPT 03 - "Cadê o bacalhau?", está situada no eixo do crer, pois apresenta o verbo modal "poder" (linhas 03 e 05), interrogações, além da reiteração da relação "eu-tu", através do uso de "você" em várias passagens.

Nesta reportagem, o locutor inicia com o mecanismo das interrogações, constituindo uma enunciação que suscita uma "resposta" por parte do alocutário, criando um processo de dupla entrada, em que não assume uma posição definida, deixando ao tu decidir sobre a validação do diálogo proposto. Já, no título do texto, encontramos uma pergunta (linha 01), que é respondida ao longo do discurso. Quando inicia seu dizer, o locutor propõe duas indagações ao tu (linhas 02 e 03), construindo, assim, um efeito de diálogo e propondo uma reflexão sobre o que vai ser abordado, inclusive marcando esse diálogo com o uso de "você". Essa instauração explicita do alocutário, com o pronome "você" (linhas 02 e 17) é reforçada pelo uso de expressões informais como "do jeito que a coisa vai..." (linha 17). Ainda temos a utilização do verbo "ser" no futuro do pretérito (linha 11), marcando uma possibilidade, e não, uma necessidade.

Além disso, o sujeito enunciador utiliza o recurso da citação indireta, uma vez que não usa de aspas para reproduzir o discurso de outro locutor e sim o relato de uma autoridade específica, no caso analisado a ONG ambiental World Wildlife Fund (linha 05). Esse efeito de verdade é mantido, pois o locutor deixa claro que a informação que será dada é proposta por outra pessoa, utilizando a palavra "segundo" (linha 05). Este "meio de justificação" indica que o dizer citado tem confiabilidade, apesar de não ser uma reprodução direta de um falante, deixando a critério do tu a possibilidade de avaliar a confiabilidade da informação dada.

No final, entretanto, o eu do texto situa seu dizer no "campo do saber", fato evidenciado pelo uso da expressão de certeza "é preciso" (linha 11). Com isso, traz suas posições ao alocutário sobre o seu dizer ora como possíveis, ora como necessárias.

Embora haja asserções e orações modalizadoras de certeza, que situam o locutor num lugar de autoridade de um suposto saber, vemos, neste texto, o predomínio do eixo do crer, o que produz um efeito dialógico entre eu e tu, sem a imposição de verdades.

Através da legenda (Anexo 03), observamos tal preponderância, uma vez que o esquema de cores está relacionado ao auxiliar modal "poder" e às interrogações, que inclusive são inseridas, no primeiro parágrafo, como possibilidades de escolha do alocutário, fato marcado pelo uso de "ou" (linha 03). Além disso, inserimos na legenda, para evidenciar esse caráter dialógico, outras marcas, tais como o "você" que aparece em diferentes passagens, e usos coloquiais, que também buscam uma proximidade com o alocutário.

Com essa análise, pudemos perceber algumas relações interessantes entre as funções, quais sejam: 1) entre o uso do mecanismo de asserção e de intimação e a modalidade lógica do saber e 2) entre o mecanismo de interrogação, como marcação de dúvida, e a modalidade lógica do crer.

Na seção a seguir, buscaremos refletir esses achados à luz da perspectiva teórica enunciativa esboçada no item 2.

5. Reflexões sobre os resultados

Analisando as marcas do locutor, representadas pelos elementos de inversibilidade do diálogo e pelos indicadores de modalidade no discurso de reportagens da revista Super Interessante, pudemos verificar a atitude que os locutores assumiram em seus dizeres. Foi escolhida a Teoria da Enunciação, como já mencionado, por melhor contemplar essa relação dialógica entre locutor e alocutário.

Neste tipo de texto, o de divulgação científica, o discurso se baseia em determinadas estratégias que o locutor utiliza para informar sobre pesquisas científicas realizadas e/ou assuntos polêmicos, os quais ele, locutor, tem acesso e imagina serem de interesse e preocupação de seus alocutários.

Nas três reportagens analisadas, os locutores procuraram aproximar-se do público leitor, através de uma linguagem menos formal, a fim de atender às necessidades de um público leigo que busca um maior domínio de conhecimento em assuntos específicos.

Sendo estes locutores uma espécie de porta vozes de um determinado pesquisador/profissional da área especifica, eles utilizaram muitas vezes o recurso da citação em discurso direto e indireto, numa tentativa de inserção de uma situação de comunicação em outra, reproduzindo, assim, a fala de outro locutor. Na utilização da citação indireta, como no exemplo da RPT 03, o locutor pôde acrescentar elementos discursivos para melhor reconstruir o efeito comunicativo com o seu leitor.

Notamos que, ao mesmo tempo em que os locutores tomaram distância através das citações, eles também manifestaram seu grau de adesão com o uso de outros elementos, como as asserções, que corresponderam a um julgamento de valor e o modalizador de certeza "é preciso". Somando-se a isso, empregaram alguns verbos no presente do indicativo, que se baseiam no valor de verdade do enunciado e verbos auxiliares modais como "dever", que manifestaram suas atitudes de saber frente aos seus dizeres. Uma questão interessante que percebemos diz respeito ao fato de que o locutor da RPT 03 utilizou uma oração modalizadora de certeza, mesmo em um texto que está situado no eixo do crer, para enfatizar a importância do seu dizer. O sujeito procurou mudar o efeito de sentido anteriormente construído para evidenciar um novo engajamento enunciativo em seu discurso.

Salientamos que tal predomínio do eixo do saber deve-se ao fato de que este tipo de texto requer um discurso que manifeste um caráter de verdade, veiculando assim, certezas advindas de descobertas científicas já constatadas.

Para criar um efeito de não imposição de verdade ao alocutário, os locutores valem-se de estratégias do eixo da possibilidade. Uma delas diz respeito ao auxiliar modal "poder". Outra estratégia muito utilizada é a interrogação. Todas reportagens analisadas apresentaram perguntas buscando originar respostas de seus leitores/alocutários e, em algumas vezes, o próprio locutor as respondeu. Percebemos, com isso, que o locutor quer a adesão do alocutário ao seu discurso, mesmo que ao responder tais indagações, haja a diminuição de seu comprometimento com o diálogo.

Observamos também que o alocutário está sempre presente neste tipo de discurso, justamente pelo objetivo principal de aproximá-lo do texto, com a utilização dos marcadores pessoais "você" e "nós". Em apenas uma reportagem, a RPT 01, o locutor se posicionou como primeira pessoa do singular.

Tal análise permitiu-nos identificar o uso de variadas marcas do sujeito, com o intuito de evidenciar o seu grau de comprometimento e posicionamento no discurso para estabelecer o diálogo com o seu alocutário.

6. Conclusão

Valendo-nos da noção de intersubjetividade, vista através dos elementos de inversibilidade do diálogo e dos indicadores de modalidade, sob uma perspectiva enunciativa do lingüista Benveniste e, também de autores que se valeram dessa perspectiva em seus estudos (Silva, 2004), procuramos analisar textos de divulgação científica, a fim de verificarmos as posições que o locutor assume em seu discurso diante de seu alocutário. Defendemos a noção básica de que, nestes textos, o locutor, ao escrever para o alocutário, marca um espaço de intersubjetividade, através do uso de um aparelho de funções, que abrange a interrogação, asserção, intimação e modalidade, sendo que, nesta última, incluímos o recurso de citação.

Para Benveniste (op. cit.), a enunciação é o lugar de instauração do sujeito, pois é na e pela linguagem que o homem se constitui como tal. É neste ato de discurso individual que o eu instaura o seu tu, instituindo o diálogo inerente ao uso da língua. É, assim, pelos elementos lingüísticos indicadores de subjetividade, que vemos a instanciação dessa troca lingüística entre os sujeitos.
Em nossa análise, tratamos de verificar o uso do aparelho de funções, por parte do locutor do texto de divulgação científica, com o objetivo de melhor enfocar a instauração de um espaço de intersubjetividade nesse tipo de discurso.

Ao priorizar o acontecimento enunciativo, percebemos que cada texto apresenta uma voz responsável pelo seu dizer, que se vale do uso dos recursos acima citados para marcar as posições que toma em busca de um possível diálogo. Para tanto, o locutor utiliza indicadores dialógicos, como as interrogações, para provocar uma atitude responsiva por parte do tu, o que comprova que o enunciador busca comprometer o alocutário com seu texto.

Ainda, conforme a análise feita, observamos que o locutor procura estabelecer um diálogo com o tu, através de efeitos de sentido que busca estabelecer em seu ato enunciativo, já que situa seu dizer ora nos eixos do crer e ora nos do saber, construindo um espaço de dúvida ou certeza, respectivamente.

Com essas análises e breves reflexões, vimos o quanto é relevante a verificação dos elementos de inversibilidade e indicadores de modalidade do diálogo no tratamento da leitura e da escrita de diferentes gêneros. Com o objetivo de explorar os efeitos de sentido que determinados elementos suscitam na relação com o sujeito leitor, o locutor vale-se de um conjunto de recursos, comprovando, com isso, que o texto é o lugar de circulação de discursos e o sujeito produz sempre novos sentidos a partir de outros já existentes, o que fortalece o fundamento benvenisteano contido na expressão "língua-discurso" (Benveniste, 1989:233).

Notas

1) Cf. a obra Problemas de Lingüística Geral I, de Émile Benveniste, 1995.


2) Informações baseadas na Dissertação de Mestrado intitulada A divulgação do conhecimento científico sob uma perspectiva enunciativa, de Eliane de Fátima M. Rangel, defendida na UFRGS/PPG - Letras, 2005.


3) Segundo DALLAGLIO-HATTNHER propõe em seu artigo intitulado Uma análise funcional da modalidade epistêmica, publicado na revista ALFA, 1966.

Referências bibliográficas

BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüística I. Campinas, SP: Pontes, 1995.

___________. Problemas de lingüística II. Campinas, SP: Pontes, 1989.

DALLAGLIO-HATTNHER, Marize Matos. ALFA. São Paulo: UNESP. Vol. 40. São Paulo, 1996.

KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. Título do artigo. In:_____. Argumentação e linguagem. 6ª. ed. São Paulo: Cortez, 2000.

MORA, Ana Maria Sanchez. A divulgação da ciência como literatura. 14º ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003.

PASCHOAL, Mara Sofia Zanotto; CELANI, Maria Antonieta Alba. Lingüística Aplicada: da aplicação da lingüística à lingüística transdisciplinar. São Paulo: EDUC, 1992.

RANGEL, Eliane de Fátima M. A divulgação do conhecimento científico sob uma perspectiva enunciativa. Porto Alegre: UFRGS/PPG-Letras, 2005. Dissertação de Mestrado.

Revista Super Interessante. Cadê o Bacalhau. ed. 203. São Paulo: Agosto, 2004.

Revista Super Interessante. Por que é perigoso comer ovos crus? ed. 198. São Paulo: Março, 2004.

Revista Super Interessante. Seria mais seguro se todos andassem armados. ed. 194. São Paulo: Novembro, 2003.

SILVA, Carmem Luci Costa. Eu-tu: um diálogo sobre a esperança. Redação Instrumental. Porto Alegre: UFRGS/COPERSE, 2004.

Anexos

Anexo 01
RPT01
01 SERIA MAIS SEGURO SE TODOS ANDASSEM ARMADOS

02 Por que um jovem maior de 18 anos tem o direito de casar, criar uma empresa e votar para
03 presidente, mas não de usar uma arma para se defender? O que é mais eficaz: proibir o jovem
04 de portar uma arma ou ensinar-lhe a usá-la adequadamente? Sou francamento adepto da
05 segunda alternativa, aliás, já adotada em vários países que possuem muito menos crimes que
06 nós. É preciso inverter a lógica perversa de que os honestos devem ser desarmados enquanto
07 há tanto bandido municiado.
08 As estatísticas mostram que restrições à venda de armas para civis não reduzem a
09 criminalidade. As leis ou proibições acabam valendo apenas para os cidadãos honestos, ou
10 seja, as vítimas. À inécpcia das leis de desarmamento soma-se a impotência da polícia para
11 deter criminosos e o caos no sistema carcerário. " A polícia não consegue prevenir o crime",
12 diz o criminologista David Bayley. Quando presos, os bandidos são encarcerados em
13 verdadeiras fábricas de marginais. A justiça é lenta e morosa: pune pouco e, quando pune,
14 raramente o bandido cumpre toda a sentença. Como então podemos imaginar que os cidadãos
15 entreguem sua segurança exclusivamente ao Estado?
16 Devemos mudar radicalmente o enfoque do desarmamento civil. O cidadão honesto deve ter o
17 direito de portar uma arma de fogo não só por legítima defesa, mas porque, armado, ele eleva
18 o risco para os bandidos, criando um efeito positivo inclusive para quem não possui armas.
19 Os delitos diminuem apenas quando os bandidos percebem que os riscos são altos, devido à
20 repressão e à certeza de punição. Isso explica, por que, nos estados americanos, onde as armas são
21 liberadas, os assaltos às residências diminuiram, enquanto na Inglaterra, onde as armas são
22 proibidas, aumentaram.
23 As armas de fogo carregam um forte simbolismo de morte porque na mídia aparecem sempre
24 associadas a crimes e tragédias. Raramente lemos sobre crimes que foram evitados por
25 cidadãos armados. O aspecto ofensivo prepondera sobre o defensivo no noticiário. No
26 entanto, quando pensamos em políticas de segurança pública, a razão deve substituir a
27 emoção e os mitos. E há mitos propagados por aí. Vejamos os citados na mídia: a) a
28 maioria dos homicídios ocorre entre cidadãos de bem e por "motivos fúteis". Mas saiba que
29 conforme pesquisa apresentada em 2003 por Bruno Manso com base em 876 inquéritos, 76%
30 dos homicídios foram "planejados" e envolvem "acerto de contas entre
31 bandidos";b) as pessoas armadas têm mais chance de serem mortas, se forem assaltadas. Essa
32 noção, que surgiu de um estudo com apenas 444 casos de latrocínio, não leva em conta os
33 assaltos que foram evitados por vítimas armadas; c) finalmente, diz-se que ocorrem, por ano,
34 14 mil mortes por acidentes com armas de fogo. De onde surgiu essa informação ninguém
35 sabe. O que sabemos é que nos Estados Unidos, onde existem muito mais armas que aqui
36 (230 milhões contra 5 milhões) ocorrem mais acidentes fatais com queimaduras, bicicletas
37 atropelamentos e afogamentos do que com armas de fogo. É claro que acidentes ocorrem no
38 Brasil, mas uma lei de controle de armas irá evitá-los? Não. O que evita acidentes é obrigar os
39 proprietários a guardar a arma em lugar seguro e punir os relapsos.
40 Em vez de restringir o acesso às armas, o Estado deve estimular os cidadãos aprender a
41 manejá-las corretamente. Em vez de proibir, ensinar o uso adequado e responsável. Assim, o
42 cidadão será um parceiro do Estado na geração de uma comunidade mais segura. Patra trilhar
43 esse caminho, precisamos superar outro preconceito: o temor de que, se os jovens basileiros
44 maiores de 18 anos tiverem acesso às armas de fogo, teremos uma carnificina. A maior
45 incidência de homicídios entre jovens não ocorre porque eles possuem armas e sim
46 porque estão mais envolvidos com drogras e crimes originados pelo tráfico. Cabe aqui a
47 pergunta: quantas vidas poderiam ser poupadas se os jovens tivessem o direito de possuir
48 arma e, claro, soubessem usá-la para se defender?
49 Na minha opinião, devem existir unica e exclusivamente quatro condições para o acesso às
50 armas: 1) ser maior de 18 anos; 2) não ter antecedentes criminais: 3) passar pelo exame de
51 sanidade mental e 4) realizar o curso teórico e prático. Para criar um ambiente de maior
52 segurança, o porte deve valer para todos os locais públicos, exceto onde houver segurança
53 própria e eficiente. Nos demais, o cidadão deve ter o direito de autoproteção.

Tadeu Viapiana
Revista Superinteressante - Edição 194 - Novembro de 2003

LEGENDA
**** - Interrogação
**** - Asserção
**** - Citação
**** - Oração modalizadora de certeza
**** - Verbo auxiliar modal: poder
**** - Verbo auxiliar modal: dever