Volume 2, Número 2, Julho de 2005
Artigos
Imagens sobre a Ciência e a Tecnologia
O que pensam os professores da rede municipal de Salvador


Rita de Cássia Oliveira Duyprath de Andrade- Mestranda do programa de Pós Graduação em Ensino , Filosofia e História das Ciências/UFBA

Simone Bortoliero - Doutora em Comunicação Científica e Tecnológica/UMESP, professora da FACOM, professora da Pós em Ensino, Filosofia e História das Ciências/ UFBA, professora da Pós em Cultura e Sociedade/ UFBA

Nelson Rui Ribas Bejarano - Doutor em Educação-Ensino de Ciências/USP, professor do Instituto de Química da UFBA, professor da Pós em Ensino, Filosofia e História das Ciências/ UFBA


Resumo

A Associação Brasileira de Jornalismo Científico, a Universidade Federal da Bahia e a Secretaria Municipal da Educação realizaram uma pesquisa quantitativa junto aos professores da rede municipal da cidade de Salvador com o objetivo de investigar as imagens que possuem sobre ciência e tecnologia, níveis de informação sobre C&T oriundas da mídia nacional, nível de informação sobre as pesquisas em andamento nas instituições baianas, compreensão do papel da pesquisa científica no estado, conhecimento de pesquisadores estrangeiros, brasileiros e nordestinos e opiniões sobre onde deveria ser aplicado as verbas em pesquisa no estado. Trata-se de um projeto piloto que faz parte da pesquisa quantitativa e qualitativa O que o baiano pensa sobre C&T neste início de século XXI, realizado por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Universidade Federal da Bahia, Universidade Federal de Sergipe, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Ong Pro Mar da Ilha de Itaparica, Ong Estação Caverna da Chapada Diamantina.


Palavras - chave: imagens da ciência, professores da rede pública, divulgação científica.


Introdução

Está completando dezessete anos da publicação pelo CNPq- Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - da pesquisa encomendada ao Instituto Gallup de Opinião Pública intitulado "O que o brasileiro pensa da ciência e da tecnologia? (A imagem da Ciência e da Tecnologia junto à população urbana brasileira)", realizada entre os meses de janeiro e fevereiro de 1987.

A apresentação do relatório feita pelo então presidente da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - o professor Crodovaldo Pavan, mostrava um misto de alegria e decepção com alguns dos resultados detectados na pesquisa do Gallup. A alegria vinha do pioneirismo do empreendimento "a primeira do gênero aplicada no Brasil, da qual se tem notícia". A decepção ficou por conta de um dado captado pela pesquisa que o prof. Crodovaldo enunciou "(...) nossa sociedade não deveria conviver - por suas óbvia implicações negativas - com o fato de 50% da população urbana, classificada nas faixas de renda "D" e "E ", desconhecerem que já é possível a ida do homem à Lua (...)"

Os temas abrangidos na pesquisa realizada pelo CNPq no final da década de 80, diagnosticaram os níveis de interesse pela ciência; as imagens do cientista e da ciência; o papel da ciência na vida nacional; as expectativas com relação a uma política de desenvolvimento científico e tecnológico.

Os resultados apontaram o elevado interesse do brasileiro por assuntos de C&T (70%); os brasileiros sentiam falta de mais notícias de desenvolvimento científico e tecnológico; 1/5 da população não sabia sobre a ida do homem à Lua; os cientistas foram considerados importantes para a população, se colocando abaixo apenas dos agricultores, industriais, professores e médicos; cientistas foram considerados pessoas cultas que produzem coisas úteis para a sociedade; 47% consideram os avanços científicos no século XX mais benéficos do que prejudiciais; a associação da utilidade da ciência em questões ligadas ao campo da medicina, telecomunicações e produção de energia; armamentos e armas atômica como aspectos negativos da ciência; 52% acreditavam que o Brasil estava atrasado em relação a outros países do mundo e 65% falta apoio do governo para superar essa situação; as áreas da ciência que deveriam ser apoiadas financeiramente pelo governo seriam: agropecuária (produção de alimentos) , medicina e medicamentos e meio ambiente; o governo deveria gastar menos com viagem espacial, energia nuclear, produção de armamentos, construção de robôs e automação; 72% acham que a pesquisa científica é útil e necessária ao pais; acreditavam que a ciência faz com que as pessoas vivam melhor; 40% diziam que queriam canais de comunicação com os deputados constituintes para enviar sugestões de C&T.

Naquele período a população era de aproximadamente 140 milhões de pessoas (dados do IBGE entre os anos de 1980 e 1991). Em 2003, uma outra pesquisa sobre o tema da ciência realizada mais recentemente foi elaborada pelo Labjor-Laboratório de Jornalismo Avançado da Unicamp e apoiada pela Fapesp - Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo, intitulada "Percepção pública da ciência e tecnologia". A pesquisa foi também aplicada em vários países da América Latina e países ibéricos. No contexto brasileiro a pesquisa foi aplicada em Campinas, Ribeirão Preto e São Paulo (capital), no estado de São Paulo, levando-se em consideração a associação de cidades como pólos científicos e tecnológicos.

Diferente da pesquisa do Gallup em 1987, esta nova pesquisa teve como universo um total de 162 pessoas de classe média alta e alta, sendo que 86% tiveram contato com nível superior, 84 eram do sexo feminino e 78 do sexo masculino ( a partir de dados do IBGE). A distribuição etária: 18-24 anos- 31 pessoas; de 25-39 anos - 58 pessoas; 40-59 anos - 50 pessoas - mais de 60 anos - 23 pessoas (a partir de dados do IBGE da cidade) e entre as profissões tivemos a maioria de 12,3% de estudantes; 10,5% de professores; 8% de comerciantes; 4,9% de donas de casa entre outras profissões.

Os temas abrangidos pela pesquisa realizada pela FAPESP/Labjor da Unicamp, retrata a imagem que o entrevistado faz da ciência e da tecnologia; o conhecimento sobre conteúdos gerais da ciências; as relações entre ciência e sistema de poder; a efetividade e eficiência da divulgação científica e o perfil sócio cultural dos entrevistados.

Alguns resultados obtidos mostram que 46,9% têm uma idéia que a ciência melhora a vida humana; 40,7% relacionam a ciência com avanços técnicos e 40,1% com grandes descobertas; idéias de que "poucas pessoas entendem de ciência" foram de 6,2%. Do ponto de vista da imagem, a ciência tem mais imagem positiva do que negativa. Dos entrevistados, 52% afirmaram que a ciência não traz problemas para a humanidade.

As pesquisas realizadas em 1987 pelo CNPq e em 2003 pela FAPESP, serviram como referência metodológica na aplicação de um questionário de 37 perguntas, junto aos professores das escolas municipais da cidade de Salvador. A pesquisa contou com o apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Científico e Secretaria da Educação do Município.

Os dados da Educação Básica, no contexto da Bahia, são bastante preocupantes vejamos alguns fornecidos pelo MEC/INEP(2002):
" Taxas de analfabetismo crescente dentro das faixas etárias. Sendo de cerca de 7% para a faixa etária de 10 a 14 anos; de 7,7% para a faixa de 15-24 anos; de 20,5% para 25-49 anos e de 57,3% para a população de mais de 50 anos.
" Taxas de Abandono e reprovação escolar muito elevadas. Sendo de 19,8% e 15% respectivamente para o nível de ensino fundamental.
" Dos professores do ensino fundamental (de 5a. à 8a. série), apenas pouco mais de 25% possuem ou estão cursando o ensino superior.
" Cerca de 50% do professores do ensino médio não possuem curso superior completo.

Objetivo

Através deste trabalho, pretende-se conhecer a imagem que os professores municipais soteropolitanos fazem da Ciência e da Tecnologia. Além da relação que fazem da Ciência com a vida profissional e cotidiana, bem como o nível de interesse desse coletivo profissional por assuntos de Ciência e Tecnologia.

Pretendemos também iniciar com esse trabalho uma longa investigação que desembocaria num projeto maior "O que pensa o Baiano sobre Ciência e Tecnologia neste inicio de século XXI", na medida que incorporarmos outros setores sociais a essa pesquisa.

Justificativa

Temos vivido, sem dúvida, uma era de flagrante paradoxo: de um lado, um esplêndido desenvolvimento científico e tecnológico e de outro, a constatação de que as benesses trazidas pela Ciência e a Tecnologia não melhoram a vida da maioria das pessoas. Dito de uma maneira bem simplista, nossa sociedade científica/tecnológica não tem produzido cidadãos mais completos e seres humanos mais felizes.

Nossa reflexão aponta que o interesse pelas coisas da ciência, o domínio de conceitos científicos pelo cidadão comum, em espaços formais de ensino como as escolas, ou em outros espaços de formação, são formas eficientes de superação do quadro de desigualdade descrito acima, especialmente do ponto de vista dos países pobres. O que incluiria um papel mais decisivo dos meios de comunicação com relação à divulgação científica e uma interface entre o jornalismo científico e a educação para as ciências. A analise de um quadro regional sob nossos "óculos conceituais" nos indicam a necessidade de reconhecermos que os professores podem atuar como multiplicadores efetivos na divulgação científica, principalmente nos estados da região nordeste do país, onde se agrava a falta de professores para o ensino de ciências.

Entre as funções da divulgação científica está a contribuição com o desenvolvimento da educação permanente e que auxilia a sociedade a adotar uma atitude positiva frente ao conhecimento.

Um cidadão alfabetizado em Ciência, é um cidadão crítico que sabe que é crucial defender a qualidade de vida de seu ambiente. É um cidadão preocupado com a destinação do lixo de sua cidade, com o combate a todas as formas de poluição que corrói a qualidade de vida. É um cidadão que se posiciona, com conhecimento, sobre a viabilidade ou não dos alimentos transgênicos, sobre a clonagem humana, ou sobre o custo/benefício da instalação de uma usina termoelétrica em sua cidade. É esta condição que almejamos nas regiões do nordeste.

Num limite bem mais sofisticado, mas possível de ser alcançado, o cidadão alfabetizado cientificamente, pode até interferir na política de produção científica do País e como conseqüência avaliar a ciência produzida com características regionais e nacionais.

Portanto é fundamental que neste início de século voltemos a verificar o que as populações nas cidades e no campo, pensam sobre ciência e tecnologia, principalmente como forma de atribuirmos prioridades para o investimento de pesquisa no estado da Bahia. Nesta primeira pesquisa nos concentramos no grupo de profissionais que contribuem de forma direta, no ensino público, com a formação da cultura científica de nossos jovens. Trata-se de uma população alvo composta de 3.027 professores efetivos da rede municipal de ensino de Salvador.

Aspectos metodológicos

O município de Salvador, segundo dados do censo 2000 do IBGE, conta com cerca de 2.440.886 habitantes. Na área educacional o município divide-se em 11 regiões as quais se distinguem por seus aspectos sócio-esconômico e culturais. Assim, "culturalmente, pode-se admitir que Salvador é uma cidade-síntese, pois inclui diferenças e riquezas nos domínios artísticos, religioso, intelectual e sócio-político" (1). Para atender uma demanda de aproximadamente 190.000 (2) alunos, mantêm atualmente 359 escolas distribuídas em toda a cidade ofertando da pré-escola ao ensino fundamental; além disso, disponibiliza no seu quadro funcional uma equipe de 4.252 (3) professores, sendo efetivos e substitutos. Destes, 3.361 professores atuam exclusivamente nas escolas e 3.027 nas salas de aulas. A população universo definida para este estudo são todos os professores efetivos (4) pertencentes às escolas da rede municipal de ensino de Salvador. Este critério foi definido para que a população fosse mais homogênea possível, uma vez que a população de professores do município é bastante diversificada e heterogênea; envolvendo profissionais concursados, substitutos por tempo determinado e estagiários provenientes das escolas de nível médio de magistério; conseqüentemente o objeto de investigação são os professores; portanto, o objeto de investigação são os professores do ensino fundamental. A metodologia quantitativa foi utilizada, embora não descartamos a possibilidade de continuação e aprofundamento dessa investigação utilizando-se de metodologias qualitativas.

A amostra

A população alvo considerada foi composta de 3.027 professores efetivos atuando em sala de aula; através de uma amostragem aleatória estratificada (5), que considera grupos bem definidos na população e a quantidade equivalente a cada grupo, selecionou-se 195 professores que fizeram parte da amostra inicial, composta de 11 regiões da cidade de Salvador. Cada região da cidade, considerada os estratos da amostra, agrupa bairros circunvizinhos e possui diversas escolas municipais, sob a coordenação de uma Coordenadoria Regional Escolar (6); dentro de cada uma região, os professores foram selecionados por amostragem sistemática. Ao final dos trabalhos de digitação dos dados, dispunha-se de uma amostra de 189 (7) professores, que subsidiou os resultados deste artigo.

Para o preenchimento do questionário, contamos com o apoio dos técnicos de cada uma das 11(onze) Coordenadorias Regionais de Educação responsáveis em coordenar os trabalhos das escolas de cada região. Semanalmente, as escolas são visitadas pelos técnicos para supervisionar questões administrativas e pedagógicas, como a estratificação incidiu sobre o número de professores e não sobre o de escolas, os mesmos foram orientados a distribuir os questionários aos professores efetivos das escolas visitadas.

O questionário

O instrumento de pesquisa, é caracterizado por um questionário contendo ao todo 37 questões, considerando 13 questões utilizadas na pesquisa de 1987 pelo CNPQ, 12 questões abordadas no questionário de pesquisa da UNICAMP em 2003, 10 questões do questionário da disciplina Tópicos de Divulgação Científica do curso de Pós em Ensino, Filosofia e Historia das Ciências da UFBA e 2 elaboradas sobre Ciência e Tecnologia no contexto escolar.

As questões foram de dois tipos, abertas sugerindo respostas livres e fechadas com alternativas previamente estabelecidas com direito de apenas uma escolha. Para facilitar a compreensão dos resultados, os dados foram dispostos na seguinte ordem: Dados dos respondentes, Imagem da ciência e dos cientistas, mídia e Ciência, nível de interesse em Ciência e Tecnologia, Ciência e Tecnologia na vida cotidiana, nível de informação sobre C & T Nacional, eficiência da divulgação científica e finalmente dados sobre C & T na Bahia. As análises foram conduzidas de modo a detectar nas respostas obtidas, a visão dos respondentes quanto a imagem positiva, negativa ou neutra da Ciência e da Tecnologia; Além disso, o perfil social desses entrevistados está sendo considerado através da formação(nível de escolaridade) e renda;

Outro aspecto investigado foi o interesse em assuntos e notícias sobre Ciência e Tecnologia e quais os veículos mais utilizados na busca destas informações.

Desta forma, pretende-se compreender como é vista a Ciência e Tecnologia, por esta parcela da população, cujo exercício da profissão necessita de permanente formação continuada.

Análise dos Dados

A pesquisa envolveu 163 professores do sexo feminino e 26 do sexo masculino, sendo que a maior concentração de professores pesquisados possuem entre 31 a 50 anos. Aproximadamente, 88,3% dos professores, participantes da pesquisa, possuem graduação; sendo 44% destes, com especialização ou em curso. Apesar da grande concentração de professores na faixa de maior renda, aproximadamente 35% deles não possuem filhos; entretanto, 1,6% possuem entre 4 e 5 filhos. Um total de 55% dos professores amostrados possuem renda familiar acima de 5 salários mínimo.

Nas imagens da ciência consideradas positivas encontramos respostas sobre grandes descobertas, avanço técnico, domínio da natureza, compreensão do mundo natural e melhoria da vida humana. Encontramos as imagens negativas associadas ao perigo de descontrole, concentração de poder e idéias científicas que poucos entendem. Neste contexto, aproximadamente 86,7% dos professores possuem uma imagem positiva da Ciência; apesar disso, uma minoria expressiva, cerca de 4,8%, têm uma visão negativa.

Já a palavra tecnologia fez com que 39% das respostas dadas por 167 professores estivessem associadas ao computador. A tecnologia está diretamente associada com a melhoria das condições de vida, com a medicina e com o aumento da capacidade do ser humano para ampliar seus conhecimentos.

Independente da escolaridade, 40% dos professores concordam que os benefícios da ciência e da tecnologia são maiores que os efeitos negativos; entretanto, 53% concordam parcialmente, isso significa que há ressalvas à Ciência.

Com relação à formação, a maior proporção daqueles que possuem uma visão positiva está entre os professores com especialização, enquanto os pedagogos ou licenciados são os que possuem imagem negativa. Aproximadamente 57% dos professores acreditam que o desenvolvimento da Ciência traz problemas para a humanidade; estes podem ser considerados àqueles que no contexto anterior vêem a Ciência com ressalva ou visões negativas. Indagados sobre os possíveis problemas que o desenvolvimento da Ciência pode trazer, a maior proporção, aproximadamente 47% teme o perigo da aplicação de alguns conhecimentos.

Apesar da posição dos professores em achar que a ciência e a tecnologia podem trazer problemas para a humanidade, um número considerável, cerca de 87% , ainda acreditam que a ciência e a tecnologia se preocupam com os problemas das pessoas. Ao serem questionados acerca dos benefícios que uma pesquisa pode trazer, 177 professores relacionaram os seguintes benefícios: a melhoria das condições de vida (36%) seguido pelos benefícios trazidos pela medicina com 33% das respostas.

Quem conduz o desenvolvimento da Ciência no mundo, seria o governo dos países ricos com 34,4% das respostas, seguido pelo controle das multinacionais com 27,5%.

As descrições que correspondem à melhor idéia que os professores fazem dos cientistas está associada a pessoas cultas que produzem coisas úteis para a humanidade, com 73,5%. Alguns professores preferiram descrever, de uma outra forma: pessoas que pesquisam, às vezes com objetivos nobres, às vezes não; pessoas teóricas que fazem alguma coisa; pessoas que buscam formas para melhorar a vida(do particular para o universal); pessoas inteligentes que, na maioria das vezes, produzem coisas úteis; pessoas que se dedicam a pesquisar determinados assuntos; pessoas que buscam o conhecimento para bem comum; pessoas teóricas, cultas e inteligentes.

A desconfiança e o descrédito das instituições governamentais aparecem claramente no universo pesquisado, quando o assunto é em quem confiam para receber determinadas informações sobre C&T. Um total de 44,4% dos professores confiam receber informações sobre as vantagens e os perigos do uso da biotecnologia diretamente de fontes ligadas as organizações de defesa do meio ambiente , sendo que 39,7% confiam nos cientistas universitários. Nos últimos anos a quantidade de Ong s na Bahia aumentou consideravelmente e a mídia local tem sido promotora destas instituições. Quanto a energia nuclear, 48,7% novamente confiam nas organizações de defesa do meio ambiente, caindo para 36% os que confiam nos pesquisadores universitários. Os jornalistas recebem a confiança de apenas 1,1% dos professores.

Um total de 37% conhecem pesquisadores brasileiros e estrangeiros, entretanto são 24,9% o total daqueles que não conhecem nenhum pesquisador ou cientista, temos 5,8% que conhece e que não lembram o nome de ninguém, sendo que 18% só conhecem brasileiros e 9% só conhecem estrangeiros.

Entre os nomes citados de cientistas estrangeiro encontramos Albert Eistein com 32,7%, Albert Sabin com 12,9%, Alexandre Fleming e Isaac Newton com 6,1%, Darwin com 4,1%, Gran Bell com 3,4%, Thomas Edson , Piaget e Pasteur com 2,7%. Entre os brasileiros aparece o nome de alguns pesquisadores baianos. Elsimar Coutinho foi citado por 39,4% dos professores, sendo que seus trabalhos fizeram parte da pauta da imprensa diária durante muitos anos. Ele teve um programa de televisão, cujo conteúdo era a temática relativa a saúde da mulher no que se refere a contracepção, tensão pré-menstrual, defensor ardoroso da eliminação da menstruação através de métodos como injeções e intradérmicos, ou seja, temas polêmicos e combativos por um número expressivo de pesquisadores em saúde coletiva. Oswaldo Cruz aparece com 28,2% e Carlos Chagas com 9,9%. Os pesquisadores baianos como Milton Santos surge em 2,8% das respostas, Filipe Serpa , Cid Teixeira e Yeda de Castro aparecem com 0,7% das citações

O papel da mídia no acesso as informações sobre temas científicos e tecnológicos é supervalorizado na cidade de Salvador pelos professores, tanto no que se refere ao uso de materiais impressos em sala de aula, principalmente revistas de divulgação científica, quanto ao uso de programas televisivos que tratem de temas de C&T para uso de sua própria formação. Os professores estão interessados em temáticas que tratem das questões de saúde, 36% se interessam por notícias relacionadas a luta contra as epidemias e doenças, 28,6% querem ver e ouvir notícias que trazem melhorias em sua vida diárias e 23,3% estão curiosos sobre a inteligência dos cientistas para descobrir. As noticias relacionadas a indústria da guerra e as viagens por dentro do corpo humano e pelo nosso cérebro também mereceram atenção. Os temas estão relacionados a busca por informações da atualidade que são divulgadas diariamente pela imprensa nacional. Verificamos que a novela sobre clonagem exibida pela rede globo de televisão em 2003 teve impacto significativo sobre os professores de Salvador. A clonagem de seres humanos foi a notícia que causou maior impacto em 45% dos professores, seguidas das notícias sobre a descoberta do sequenciamento do genoma humano que recebeu 22% , ficando as notícias sobre transgênicos em 3º lugar, com 20% de respostas. Outras notícias chamaram a atenção, como: viagens espaciais, células-tronco, a descoberta do vírus da aids, o transplante de órgãos, séries sobre o corpo humano e o cérebro, a inseminação artificial, exatamente nesta ordem de prioridades. A faixa etária que mais se interessa por assuntos científicos, ou seja, 27% das pessoas estão concentradas na faixa que vai de 31 a 40 anos de idade. Um total de 61,7% de professores gostariam de ver mais notícias sobre novas descobertas e apenas 6,9% acreditam que a imprensa dá notícias satisfatoriamente.

As revistas de divulgação científica encontradas nas bancas de jornais pela cidade, são consultadas por 18% dos professores, enquanto 16,9% buscam informações pela internet e 14,3% pela televisão.

As tecnologias lembradas que ajudam a viver melhor tanto na vida cotidiana (54%) como na vida profissional (70%) estão diretamente relacionadas ao surgimento do computador e da internet. Estes são os instrumentos tecnológicos freqüentemente utilizados na escola e citados por 78% dos professores. Há um contraste entre os equipamentos/computadores citados e o uso de ventiladores por quase 15% dos professores nas escolas. A cidade de Salvador tem temperaturas que chegam a 35 graus durante o ano, sendo que o rendimento escolar de nossos jovens cai a níveis considerados abaixo da média nacional.

A relevante presença do computador na fala dos professores, atribui-se provavelmente, ao investimento tecnológico, ocorrida na rede, nos últimos anos 4 anos. O processo de informatização nas escolas da rede municipal teve início em 1997 com o PROINFO, programa do Governo Federal com o objetivo de informatizar as escolas públicas brasileiras. Outro aspecto importante é que, com o desenvolvimento do SGE - NET (8) na versão web tornou-se necessário a informatização das secretarias das escolas, envolvendo hoje um total de 210 escolas com computadores. Assim, o computador é um equipamento tão presente na escola como os mais comuns, sendo inclusive uma outra ferramenta pedagógica disponível para os professores.

A Descoberta científica ou tecnológica considerada mais importante para a humanidade para 39% dos professores foi sem dúvida nenhuma o computador e a internet, seguidas de 35% da descoberta das vacinas, medicamentos e genéricos, 24% consideraram ainda o mapeamento do genoma humano como a mais importante entre as descobertas do século, 16% as telecomunicações e 10% a luz elétrica.

Já a descoberta considerada nociva para a humanidade continua sendo a bomba atômica com 56% das respostas, seguidas de 23% que consideram a clonagem de seres a descoberta mais prejudicial e os armamentos de guerra surgem em 23% das respostas.

Sobre os institutos de pesquisa 42,3% desconhecem os órgãos governamentais que financiam as pesquisas no Brasil. Os que conhecem e citaram, somam 52,9%, sendo que o CNPq é citado por 45% dos professores e a FAPESB aparece em 11º lugar com 2%. Na Bahia, a USP está em 5º lugar entre as universidades mais conhecidas e a UFBA um 7º lugar no ranking. A Petrobrás é citada por 7% , ficando em 2º lugar, entre as instituições que financiam pesquisa na Brasil.

Um total de 42% de professores acreditam que a divulgação das pesquisas deva ser feita de forma sistemática porque gostariam de participar, 19,6% já acreditam que a divulgação científica é na verdade uma prestação de contas para a sociedade , outros 19,6% crêem que a divulgação pode contribuir com o aumento do nível de conhecimento intelectual dos professores. Já 16,9% vem na divulgação científica uma forma de melhorar a compreensão que possuem da vida humana. Os professores buscam nos veículos de comunicação uma fonte direta para se atualizarem com os temas científicos e tecnológicos. Um total de 30% dos professores tem acesso às revistas como Superinteressante, Globo Ciência, Ciência e Cultura. Em 2º lugar, temos 27% de professores que buscam na televisão sua fonte principal de informação e em 3º lugar temos a internet como fonte para 24,9%. Se analisarmos os dados referentes ao uso de tecnologia na vida cotidiana e profissional veremos que o computador aparece em primeiríssimo lugar, entretanto não pudemos verificar, com esta pesquisa se todos os professores fazem uso desta ferramenta de forma diária. Na opinião de 86%, os meios de comunicação deveriam noticiar um número maior de novas descobertas. Devemos levar em consideração neste aspecto, pouca informação local, nos jornais diários impressos e televisivos sobre as pesquisas em andamento nas universidades baianas e institutos de pesquisa privado ou público. O conceito de nova descoberta poderia estar associado ao desconhecimento da produção científica local e regional e não ao conceito de inédito e novo, comuns na cobertura do jornalismo científico brasileiro.

Um total de 78,8% dos professores afirmam desconhecer as pesquisas em andamento no estado da Bahia. Entretanto, dos 19% que conhecem alguma pesquisa, citam as relacionadas com a produção das universidades baianas. Entre as mais conhecidas , temos 17% dos professores com conhecimento sobre reprodução humana e descoberta do anticoncepcional intradérmico, 14% citam energia solar, tivemos um total de 6% de respostas para afro descendência (UFBA-UNEB), vassoura de bruxa, controle de pragas na agricultura, novas tecnologias na alfabetização, o papel do educador na inclusão social, além de um total de 3% para as pesquisas sobre robôs, síndrome de Down, leptospirose, cotas nas universidades, canudos, violência urbana e doméstica, câncer , alcoolismo, saúde do trabalhador, cultura do milho, leitura oral, iluminação, Atlas lingüístico da Bahia, história de pescadores, antropologia, doença de chagas, índios , doenças tropicais, abacaxi imperial, valor nutricional dos alimentos, avaliação escolar , biotecnologia e estudos sobre rios do recôncavo.

Os professores acreditam que os maiores investimentos em pesquisa, na Bahia, deveriam estar concentradas no combate a seca e as enchentes (34,4%), agricultura e agropecuária (19%), controle da poluição e proteção ao meio ambiente (17,5%), desenvolvimento de novos remédios (11,1%), entre outras áreas.

É expressivo o número de professores que acreditam que a pesquisa científica e tecnológica é um gasto útil. Um total de 82% das respostas atribui esta utilidade com a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Conclusões

Uma pesquisa de caráter qualitativo foi o que resolvemos fazer inicialmente, buscando trazer para o cotidiano do jornalista da cidade de Salvador, novas informações sobre um público que efetivamente lê, ouve, vê e usa materiais de divulgação científica redigido por jornalistas brasileiros.

O que devem os jornalistas científicos conhecer sobre nossos professores da Bahia? Na interface entre jornalismo científico e educação para as ciências, no contexto da região nordeste, merece nossa atenção especial dos diferentes públicos, as crianças que expressam constantemente suas concepções acerca de fenômenos científicos e os professores do ensino fundamental que se utilizam dos produtos produzidos pelo jornalismo cientifico nacional.

Portanto, neste início de século, onde a ciência e as inovações tecnológicas são fontes inesgotáveis de informação para nossos jovens, é justo um olhar cuidadoso sobre como estes jovens querem participar de uma ciência cidadã e como divulgar o conhecimento em prol da democracia. Os professores do ensino fundamental são multiplicadores e divulgadores da ciência regional e nacional, quando tem acesso as informações. Saber o que pensam, os níveis de interesse por assuntos de C&T, como aplicam nossos textos, como utilizam as noticias divulgadas pela imprensa brasileira, deveria fazer parte das preocupações de quem fala na TV e no radio, de quem escreve diariamente nos veículos ou de quem escreve nas revistas de divulgação científica.

Na última década temos observado um crescente espaço para a divulgação da ciência e tecnologia na imprensa nacional, além do aumento do número de jornalistas cursando pós-graduação e especialização e a circulação de manuais de divulgação científica realizado por empresas e instituições de pesquisa. Já existe um avanço em relação aos anos 80, quando os especialistas apontavam problemas relativos à falta de especialização dos jornalistas, horários inadequados na TV e no Rádio, pouco espaço nos jornais e revistas e o uso de jargão técnico por cientistas.

Hoje, os temas relacionados à ciência e à tecnologia fazem parte das pautas do jornalismo diário em diversas capitais do país. Porém a realidade na cidade de Salvador é outra. Temos uma complexidade cultural de grande riqueza associada a um analfabetismo científico e enquanto isso os professores do ensino fundamental da rede pública, se interessam por ciência e tecnologia, usam materiais de divulgação cientifica em seu cotidiano profissional. Mas faltam os jornalistas especializados neste tipo de cobertura em toda a região de Salvador. Se antes, no contexto nacional, os poucos espaços eram reservados para divulgar as pesquisas realizadas em outros países, atualmente verifica-se a divulgação da produção nacional em diferentes áreas do conhecimento, seja em pesquisa básica (estudos como Projeto Genoma) ou em pesquisa aplicada que tem resultados imediatos em outras regiões. São dois os fatores importantes nesta avaliação: um aumento do número de pesquisas no país, apoiadas pelas empresas nacionais e pelas instituições como FAPESP, CAPES e CNPq e a colaboração cada vez maior do cientista brasileiro que assume um compromisso com a cidadania. Houve também maior interesse das empresas de comunicação nos resultados das pesquisas nacionais e um investimento significativo na formação dos jornalistas para a cobertura de C&T.

Neste final de século, o acesso às novas tecnologias, como: Internet, TVs a Cabo, e outros meios permitem ao usuário contatos diários com as descobertas científicas em diferentes partes do planeta. A noção de público leigo já não é mais a mesma. Temos inúmeros públicos, que assistem e "navegam" com velocidades espantosas, descobrindo um universo de dados, informações e imagens em questões de segundos.

A especialização que antes era um "bicho de sete cabeças" para o jornalista, agora é uma necessidade. A região nordeste do País faz pesquisa de ponta e não vem ocupando os espaços na mídia nacional. No sudeste e sul, enquanto as relações com os cientistas que sempre foram conflituosas, deixaram de ser tão acirradas, porque estamos aos poucos compreendendo que é necessário uma troca de saberes profissionais, de uma busca mútua de entendimento, e que estas relações não dependem exclusivamente da especialização do jornalista e da boa vontade do cientista, no nordeste enfrentamos a ausência de pautas de C&T nos veículos de comunicação. O mercado editorial local para revistas de divulgação científica é inexistente

A pesquisa realizada junto aos professores confirma a necessidade de uma interface entre o jornalismo científico e a educação para as ciências. Este também deveria ser um dos objetivos nas redações de jornalismo no estado da Bahia. Os jornalistas desconhecem em sua maioria que o processo da descoberta científica está carregado de emoções e a ciência é um empreendimento humano.

Conhecer o funcionamento das comunidades científicas, investigar suas práticas e rever aspectos éticos das empresas de comunicação, são princípios que podem nortear a divulgação científica nacional, mas conhecer o público que faz uso dos produtos do jornalismo cientifico, num contexto onde há uma maioria excluída de acesso aos benefícios da ciência e da tecnologia é uma questão de princípio para avaliarmos o exercício de nossa atividade profissional e de nossa capacidade na intervenção das políticas científicas que valorizem em suas ações e editais científicos, a melhoria da qualidade de vida das populações, que particularmente no estado da Bahia nos coloca em primeiro lugar na exclusão de jovens na faixa etária entre 18 a 24 anos fora das instituições de ensino superior. Nossa reflexão também aponta uma necessidade de investimento em pesquisas que vasculhem os processos de construção dos saberes científicos, que favoreçam a pesquisa de caráter qualitativo no campo da recepção, que nos aproxime da realidade dos professores de ciências das escolas de ensino de 1o e 2o. Graus para conhecermos o cotidiano dos futuros leitores, ouvintes ou telespectadores, multiplicadores e divulgadores da ciência brasileira.

Notas

1) SMEC-Secretaria Municipal da Educação e Cultura.Linhas de Ação/Quadriênio 2001-2004

2) http://www.smec.salvador.ba.gov.br/sgenet/index.php

3) SEAD-Secretaria de Administração do Município 05/2004

4)Professores efetivos são os que ingressaram na Rede Municipal de Ensino através de concurso público.

5) BOLFARINE, Heleno & BUSSAB, Wilton O., Elementos de Amostragem; USP 2000 versão preliminar

6) Coordenadoria Regional de Educação é um órgão da Administração Direta da Secretaria Municipal da Educação e Cultura do Salvador-SMEC que desempenha as ações intermediárias entre as unidades internas da Secretaria Municipal da Educação e Cultura e as unidades escolares, com a finalidade de descentralizar as ações educacionais no âmbito do Município do Salvador, promovendo articulação, monitoramento e desenvolvendo as atribuições técnico-administrativo-pedagógicas.

7) Seis questionários não foram recuperados.

8) SGE-NET é um Sistema de Gestão Escolar desenvolvido pelo Núcleo Gestor da Informação.

Referências Bibliográficas

BOLFARINE, Heleno; BUSSAB, Wilton O. Elementos de Amostragem. USP, 2000 versão preliminar

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