Volume 2, Número 2, Julho de 2005
Artigos
Jornalismo Científico On-line: prática e missão

Daniel Schneider é jornalista

 

 

O jornalismo científico é de extrema importância para o ser humano (do indivíduo à sociedade), pois tem a função de divulgar os avanços da ciência e da tecnologia, visando à democratização desse conhecimento e a uma formação cultural que permita às pessoas tomarem melhores decisões em suas vidas cotidianas (numa referência à phronesis aristotélica). E considerando a internet como o meio de comunicação mais democrático já criado, pois embora ainda precise avançar muito na chamada inclusão digital, detém o alcance e as vantagens necessárias para uma produção jornalística de qualidade nunca antes possível, propõe-se neste breve artigo uma reflexão sobre a maneira como o jornalismo científico on-line é praticado atualmente.

Para tanto, utilizar-se-ão como exemplos três sites que têm o jornalismo científico como prática: o da revista brasileira Superinteressante (Super), o da americana Scientific American (SciAm) e o francês Sciences et Avenir, para que se possa ponderar sobre a qualidade dos trabalhos realizados e sua adaptação ao meio em que estão inseridos.

Jornalismo Científico

A divulgação das descobertas científicas teve início com a invenção, em meados do século XV, da imprensa de tipos móveis, por Johann Gutemberg. A maior velocidade com que os textos em geral podiam ser impressos em várias cópias fez com que a nova invenção fosse disseminada rapidamente por toda a Europa. Isso acelerou a criação de uma comunidade de cientistas que compartilhavam suas descobertas entre si.

Mais tarde, durante os séculos XVI e XVII, aconteceu a chamada revolução científica européia, que acarretou diversos desenvolvimentos no campo da ciência e da técnica, além de transformações filosóficas, religiosas e no pensamento social, moral e político.

Esses adventos, além de impulsionarem a difusão da ciência, possibilitaram o surgimento da divulgação e do jornalismo científicos, na Inglaterra de Isaac Newton. A partir de meados do século XVII, cartas de cientistas relatando suas idéias e novas descobertas começaram a circular intensamente e em vários idiomas.

"Jornalismo Científico é o processo de difusão de informações de ciência e tecnologia pela mídia, que obedece aos atributos da produção jornalística", define o jornalista Wilson da Costa Bueno. O Jornalismo Científico abrange a cobertura de Ciência e Tecnologia de maneira geral, incluindo aí toda a amplitude das áreas científicas, e não somente as ciências naturais, como muitas pessoas pensam. Portanto, o Jornalismo Científico engloba a divulgação de Física, Química, Biologia, Antropologia, Sociologia, Educação, Comunicação etc., dentre inúmeras outras áreas do conhecimento científico.

(...) O jornalista freelancer Steve Mirsky declarou a certa altura [de reunião promovida pela Associação Nacional de Escritores de Ciência dos Estados Unidos (NSWA) em fevereiro de 1998, na Filadélfia]: "Fazer jornalismo científico é o privilégio de ser porta-voz da fronteira do conhecimento humano". O impacto dessa afirmação, recebida com aplausos pelos mais de cem jornalistas presentes na platéia, levou-nos a refletir que o jornalismo científico pode, de fato, ter belíssima missão a cumprir." (OLIVEIRA, 2002: 11)

As pessoas dentro de uma sociedade têm a necessidade de ter acesso a informações científicas, especialmente àquelas "que lhes afetam diretamente a vida, que têm efeitos políticos, econômicos e sociais imperceptíveis às pessoas não informadas" (OLIVEIRA, 2002: 11).

Fabíola de Oliveira (2002) cita em seu livro pesquisa encomendada pelo CNPq e publicada em 1987 pelo Instituto Gallup, intitulada O que o brasileiro pensa da Ciência e Tecnologia?, que revela que cerca de 70% da população urbana brasileira têm interesse em C&T.

"Embora esse estudo tenha mais de 15 anos, até o momento não foi realizado nenhum outro semelhante no Brasil. (...) E ousamos inferir que os resultados poderiam ser ainda mais contundentes se fosse levada a cabo nos dias de hoje a pesquisa: apontariam demanda ainda maior por divulgação científica, já que os avanços da C&T são cada vez mais determinantes no contexto social, econômico e político da vida humana."(OLIVEIRA, 2002: 12)

O acesso às informações de C&T é, portanto, fundamental para o estabelecimento de uma democracia participativa, visto que só tem a contribuir para a formação de uma cultura científica que permitiria um exercício pleno de cidadania.

"O direito à informação - destacado na Declaração Universal dos Direitos Humanos divulgada pela ONU em 1948 - por si só justificaria a essência da necessidade de divulgar C&T para o grande público como forma de socialização do conhecimento. Mas as justificativas vão mais além. O grau de desenvolvimento científico e tecnológico dos países pode estar diretamente associado à melhoria de sua qualidade de vida. Além disso, a maior parte dos investimentos em C&T é oriunda dos cofres públicos, ou seja, da própria sociedade para quem devem retornar os benefícios resultantes de tais investimentos." (OLIVEIRA, 2002: 13)

A produção do jornalista e a do cientista detém aparentemente enormes diferenças de linguagem e de finalidade. Os textos científicos, geralmente resultantes de anos de investigação, são produzidos para um grupo específico de leitores especializados e seguem normas rígidas e universais de padronização e normatização, além de não haver a necessidade de serem atrativos, chamativos. Já o texto jornalístico, resultante de entrevistas rápidas e efêmeras, é produzido para o grande público heterogêneo, e portanto deve apresentar linguagem coloquial, simples e atraente. Outra diferença é em relação ao espaço de publicação. O trabalho científico geralmente dispõe de amplos espaços em revistas especializadas, o que permite linguagem prolixa, diferentemente do texto jornalístico, cujo espaço de publicação é cada vez mais restrito, exigindo textos cada vez mais sintéticos. Como diz Warren Burkett:

"A típica matéria científica é um artigo sobre "como fazer", conhecido por qualquer um que fez curso de redação de matérias ou leu qualquer dos numerosos livros ou artigos sobre redação expositiva. A tarefa do escritor é compreender o "como" ou o "porquê" de algum processo científico ou médico e sua significação, e transmitir isso ao leitor ou espectador com a máxima precisão possível." (BURKETT, 1990: 71)

Ou seja, a notícia científica funciona de certa forma como uma tradução dos acontecimentos científicos, de forma a permitir o acesso do público leigo a essas informações. Porém, não se restringe a isso. Para Wilson Bueno:

"O Jornalismo Científico é um novo discurso, construído a partir de uma vivência, uma perspectiva crítica e, por isso, não se resume a uma mera tradução. Se isso acontece com muita freqüência, é porque o jornalismo tem se omitido em seu papel e tem delegado a outrem uma tarefa que deveria ser sua."

Portanto, a notícia científica é, além de adaptação e tradução dos acontecimentos científicos, uma forma de transmitir com eficiência esses acontecimentos à sociedade que deles se beneficia.

"O casamento maior da ciência e do jornalismo se realiza quando a primeira, que busca conhecer a realidade por meio do entendimento da natureza das coisas, encontra no segundo fiel tradutor, isto é, o jornalismo que usa a informação científica para interpretar o conhecimento da realidade." (OLIVEIRA, 2002: 43)

A notícia científica tem algumas peculiaridades em relação às demais. O alto teor de especialização dos assuntos abordados e a autoridade das fontes são duas das principais. Além disso, há também o problema da freqüente divergência entre cientistas sobre os mesmos assuntos, o que, às vezes, faz surgirem até três ou quarto conclusões diferentes e contraditórias sobre um mesmo fato, sem falar no constante jogo de poder a que estão submetidas as pesquisas científicas, "de maneira que, um dia o café é mortal e passadas duas semanas é um salva-vidas precioso, como o (ou ao contrário do) álcool (que faz bem, que faz mal, que mata, dependendo das quantidades)", exemplifica Furio Colombo. (1998)

"O jornalismo científico parece ter uma atração irresistível pela especulação, o que a priori não é condenável. A ciência vive das suposições, enquanto não dispõe das certezas, e é natural e saudável que os meios de comunicação compartilhem dessas possibilidades ainda a comprovar. Mas, como diz Leite Vieira: "Os textos de divulgação científica devem distinguir as especulações dos resultados já comprovados." Constantemente vemos, no entanto, as especulações sobrepujarem as comprovações e acabarem tomando a forma de verdades científicas. O mal talvez esteja no próprio meio científico, e não no jornalístico. O dever do divulgador é, sim, ver com olhos críticos e bom senso o que a ciência lhes tem a oferecer como informação." (DESTÁCIO, 2000)

Essas peculiaridades tornam a notícia científica uma das mais delicadas de se construir, visto que é necessário transmitir para a sociedade um fato novo, de certa forma duvidoso (já que pode ser contestado a qualquer momento) e de extrema importância social, já que, muitas vezes, influencia diretamente no futuro da humanidade, que cada vez mais se transforma pela tecnologia e pelas descobertas da ciência. Esse procedimento se agrava ainda mais devido aos inevitáveis jogos de interesses da política e do capitalismo, que acabam por interferir em todas as fases do processo, principalmente, no caso da política, quando se trata de assuntos relacionados às ciências sociais.

"Tudo isto demonstra a enorme dificuldade do jornalista quando se tem de confrontar com a investigação científica e os seus resultados reais ou presumíveis, ainda mais numa fase histórica em que convém aos cientistas, mesmo por razões econômicas e de exibição do seu talento, a publicação freqüente e clamorosa das suas próprias investigações." (COLOMBO, 1998: 102)

Além disso, como explica Colombo, a fase histórica de exuberância comunicativa dos cientistas infelizmente coincide com uma época intensa do jornalismo de variedades, em que as informações são geralmente exageradas e sensacionalistas, ou mesmo antiéticas, contradizendo as regras teóricas convencionais de responsabilidade do jornalista como produtor da notícia - meio de informação principal da sociedade. Isto faz com que os jornais publiquem relatórios, pesquisas e revelações científicas unicamente porque esse material existe, e ainda os apresentem de forma não adequada ao que seria o ideal da notícia científica.

Colombo expõe três medidas de segurança para que os jornalistas construam as notícias científicas: a colocação das mesmas num contexto histórico; a verificação do contexto em que elas se inserem, procurando reportar cada uma delas a outras com que tenham relação, o que permitiria aos leitores ver as eventuais conexões entre as notícias que estão lendo e os demais acontecimentos; e uma comparação entre a notícia científica e o contexto político. "Uma boa regra para o jornalista poderia ser esta: uma notícia científica que satisfaça e siga um pouco próximo demais as tendências políticas e culturais do momento é sempre suspeita". (COLOMBO, 1998: 111)

Jornalismo On-line: características

Inúmeras são as vantagens da internet em relação aos outros veículos de comunicação. A internet engloba todas as possibilidades de difusão presentes nas outras mídias e acrescenta muitas outras. Nela, podem-se apresentar textos e figuras coloridas, assim como jornais e revistas, pode-se transmitir som, assim como o rádio, podem-se exibir vídeos, como a TV, e ainda se dispõe de animações e outras características que os outros meios não têm.

"As tecnologias de comunicação periodicamente resultam em significativas transformações na sociedade e causam grandes mudanças de hábitos e de comportamento. Cada um no seu tempo, o telégrafo, o telefone e o aparelho de fac-símile deixaram suas marcas no comércio, na vida profissional e no nosso cotidiano. Agora chegou a vez da internet, oferecendo amplos recursos técnicos e um novo suporte para as mais diversas atividades." (PINHO, 2003: 57)

As principais características da internet são: a velocidade, muito superior a qualquer outro veículo, permitindo a comunicação em tempo real com o internauta (enquanto um jornal diário, por exemplo, leva 24 horas para chegar ao leitor, a internet leva alguns segundos); a disponibilidade de arquivo, que permite ao internauta localizar-se em todo um contexto histórico no qual a informação se insere com o esforço de apenas um clique do mouse; a interatividade, que permite a comunicação bidirecional entre o leitor e o veículo, facilitando o acesso a informações complementares e possibilitando inserção de opiniões dos leitores diretamente na tela da notícia; a não-linearidade, que dá maior liberdade ao internauta, que escolhe livremente o que quer ler e em que ordem; o baixo custo, que faz da rede o meio de comunicação mais barato de todos, garantindo a democratização da informação, já que qualquer pessoa que tenha um computador com acesso à rede pode publicar o que quiser; a acessibilidade, já que é possível acessar a internet de qualquer lugar, 24 horas por dia e 7 dias por semana; e a qualificação do público, como explica José Benedito Pinho:

(...) A internet apresenta um público jovem e qualificado, com alto nível de escolaridade, elevado poder aquisitivo e um perfil ocupacional em que predominam as posições de empresário, executivo e autônomo. Por essas características, a audiência da internet deve merecer a atenção também como importante formadora de opinião." (PINHO, 2003: 53)

Essas informações são suficientes para concluir que a internet representa o campo mais promissor para uma nova revolução das práticas e técnicas jornalísticas, trazendo excelentes perspectivas para o futuro desta profissão e, conseqüentemente, da sociedade.

Nos EUA, os portais da internet surgiram como evolução dos sites de busca. No Brasil, os sites dos jornais foram concebidos pelos grupos detentores dos veículos de comunicação impressa e deram origem aos famosos portais de conteúdo que temos hoje, como UOL, Terra, UAI etc. E como explica Patrícia Aranha (2001), "a forma simbólica do jornal on-line surge estruturada por leis discursivas e formais anteriores ao advento da internet". Em ambos os casos, a intenção de criação dos portais foi de manter o internauta a maior quantidade de tempo possível em suas páginas.

Apesar dos sites de jornalismo on-line terem começado como cópias quase idênticas de seus pais impressos, mais parecendo fotos do impresso na tela, a forma de fazer notícia para a web evoluiu bastante. Os jornalistas foram se acostumando com a nova mídia e novos profissionais foram surgindo: os jornalistas digitais. Hoje, a noção da amplitude desta ferramenta indispensável que é a internet é muito maior que há cinco anos. Sabe-se que o potencial de interatividade da internet, aliado às possibilidades de incrementar a notícia, integrando o texto a fotos, sons, vídeos, infográficos animados, links etc., sem falar na atualização em tempo real, podem acabar pondo fim aos veículos impressos, caso o jornalismo on-line continue evoluindo e atraindo cada vez mais o público como tem feito nos últimos anos. Além disso, o trabalho jornalístico, uma vez publicado na internet, está instantaneamente disponível a qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, com um custo de publicação que é virtualmente zero.

Para dar conta de um mercado com tanto potencial, são necessários profissionais bem preparados e que saibam utilizar o poder da ferramenta de que dispõem. Os jornalistas já vêm se preparando para dar conta do recado.

Análise: Três jornalismos científicos na mesma teia

Atualmente o jornalismo on-line em geral não utiliza de maneira satisfatória todos os recursos disponíveis na internet. Quando muito, utiliza parte deles, mas não explora todo o seu potencial. Existem trabalhos bem-feitos espalhados pela rede, muitos deles no Brasil, mas todos ficam devendo a plena utilização dos recursos da web.

A Superinteressante, diversas vezes premiada como a revista que melhor utiliza infográficos no mundo, sequer os exibe em sua versão on-line, restringindo-se a colar os textos sem qualquer tipo de arte ou adaptação (nem mesmo imagens ilustrativas) para a leitura num monitor de computador. Para efeito de comparação, no site da Scientific American as reportagens provenientes da edição impressa são sempre ilustradas com imagens e acrescidas de links que direcionam o internauta aos infográficos (ver imagem 2), algumas vezes transformados em animações. Os textos dessas reportagens, diferentemente da Super, são divididos em "páginas" também na internet, numa melhor adaptação ao formato on-line. O SciAm trabalha também com notícias curtas publicadas exclusivamente no portal, totalmente voltadas para o público da internet.

A Sciences et Avenir do mesmo modo dedica-se à publicação de notícias curtas, exclusivamente direcionadas ao internauta, apresentando, assim como a similar americana, textos simples e de fácil compreensão, adaptados à condição de leitura em tela de matriz ativa. Como já dito, a Sciences et Avenir oferece abundantes infográficos animados, inclusive disponibilizando uma seção exclusiva para esse trabalho. O site francês e o americano dispõem de uma "versão amigável para impressão" e da opção de enviar a notícia para um amigo (ver imagem 1). O Sciences et Avenir traz também uma excelente ferramenta de tradução, como já comentado anteriormente.

Imagem 1


As opções de envio da notícia, impressão e tradução no Sciences et Avenir e as similares no Scientific American, em tamanho natural.

Não-linearidade

A não-linearidade da navegação fica de fora da Superinteressante. O site não liga a reportagem a nenhuma outra informação, nem mesmo aos textos de edições anteriores, salvo a livros impressos que tratam do assunto. A exceção aplica-se quando a reportagem trata de algum tópico que tenha um site como tema. Neste caso, o link para o site em questão vem ao final do texto, e só. Para um site jornalístico, a Super fica devendo em muito um trabalho aceitável de não-linearidade, que contribua para caracterizar o conteúdo como voltado a um público diferente daquele que somente acompanha a publicação impressa.

A Scientific American trabalha a não-linearidade de duas formas. A primeira é uma "caixa de texto", chamada "More on this article" (Mais nesta reportagem [ver imagem 2]), presente em cada uma das páginas das reportagens oriundas da revista impressa e que traz links para textos anexos no próprio site e para os infográficos e imagens; e a segunda forma é utilizada nas notícias diárias: links ao final do texto que remetem para notícias relacionadas, dentro do portal. Embora faça um trabalho dentro dos padrões aceitáveis de não-linearidade, a SciAm poderia incrementá-lo, como faz o site da revista francesa.

A Sciences et Avenir, por sua vez, faz excelente uso do recurso de não-linearidade, disponibilizando links não somente para outras notícias dentro do site, mas também para sites com conteúdo relacionado ao assunto da notícia e para textos explicando conceitos utilizados na matéria (ver imagem 2). O trabalho do site francês serve de modelo nesse quesito.

Imagem 2



Caixas "Plus sur le sujet" e "More on this article", respectivamente na Sciences et Avenir e na Scientific American, em tamanho natural.

Interatividade

Salvo a existência de uma seção "Fale Conosco" em cada um deles, contendo os endereços físicos das revistas, e-mails e telefones para contato, a interatividade é trabalhada de maneiras bem diferentes nos três sites.

Na Super, o único modo de interagir com o site é respondendo às duas enquetes mensais, baseadas em reportagens da edição do mês, e que são publicadas na edição impressa do mês seguinte. Ou seja, por não oferecer outros meios de interação, o site peca, mais uma vez, na exploração pobre de um dos recursos mais importantes da internet: a interatividade.

Na SciAm, o internauta pode enviar perguntas que serão selecionadas para publicação no site, respondidas por especialistas (ver imagem 3). Esta é uma excelente forma de se trabalhar a interatividade num site de jornalismo científico, pois explora exatamente aquilo que traz os internautas à procura das informações científicas: a curiosidade. Qualquer tipo de pergunta, sem restrição de acesso, desde que seja relacionada a um assunto científico, pode ser enviada para o site. Se for uma pergunta que ainda não tenha sido respondida, ela será então selecionada (e, se a equipe achar necessário, ligeiramente modificada) para publicação, com uma resposta detalhada de um cientista especialista na área em questão. Além disso, as perguntas são separadas por assunto, facilitando o acesso dos internautas interessados em acompanhar as respostas de sua escolha.

Imagem 3

O início da seção "Ask the Experts", no SciAm, recortada em tamanho natural

E na Sciences et Avenir, o internauta pode participar dos inúmeros debates na seção específica de mesmo nome ("Débats") ou até mesmo criar o seu próprio tópico para iniciar um novo debate, de acordo com as regras pré-estabelecidas (ver imagem 4). Esta também é uma excelente maneira de trabalhar a interatividade, colocando os internautas (muitos deles cientistas) em contato, trocando conceitos e opiniões sobre os assuntos ali tratados, vários deles relacionados diretamente às notícias do site, o que amplia o conhecimento sobre os assuntos tratados de forma bastante simples, simulando a interação que ocorre no mundo físico, quando o leitor de determinada reportagem procura discuti-la com um amigo, por exemplo.

Portanto, a interatividade está presente nos três sites, embora de formas bastante distintas. Nota-se, entretanto, a falta de uma função destinada à participação dos internautas na correção de possíveis erros nas notícias. Nenhum dos três sites aqui analisados apresenta esta função.

Imagem 5



O início da seção "L'ansemble dês debats", no Sciences et Avenir, recortada em tamanho natural

Conclusão

Vale destacar aqui o abismo existente entre os sites da Superinteressante e da Scientific American. A diferença de apenas dois meses nas datas de inauguração (meados de 1996) comparada à média mensal de visitantes únicos (pouco mais de 215 mil na Super contra mais de 2 milhões na SciAm) mostra que o site americano tem cerca de 10 vezes mais audiência que o brasileiro. No entanto, quando se comparam as circulações líquidas das edições impressas (aproximadamente 385 mil da Super contra 688 mil na SciAm), essa diferença cai para menos de 50%. Essa estatística mostra uma vantagem proporcional de 500% a favor do site americano. Apesar das vantagens em termos de alcance do idioma inglês e da fama internacional, o contraste é muito forte entre as duas publicações on-line, o que demonstra a enorme diferença na adaptação dos trabalhos realizados pelos dois sites na rede.

Para efeito de comparação, o site francês, que não tem as mesmas vantagens do idioma e da fama da similar americana, teve quase 1 milhão e meio de visitantes únicos no mês de março (cerca de 7 vezes mais que o site brasileiro), o que reforça a visão de que a adaptação do trabalho realizado aos recursos da rede atrai a audiência.

Esta breve discussão mostra que o jornalismo científico on-line é praticado de maneiras bastante distintas entre os três sites analisados. Essas diferenças não são apenas de estilo, mas também de adaptação do trabalho jornalístico-científico aos recursos da rede, que precisa ser ampliada e desenvolvida em todos os sites espalhados pela rede. É preciso fazer bom uso (abusar realmente) dessas características, pois elas são, afinal, o grande diferencial e a grande vantagem da internet em relação às outras mídias, e é através desse desenvolvimento que o jornalismo on-line (com destaque para o científico) deve cumprir o seu papel (if)formador e democratizador do conhecimento.

Se bem feito, um trabalho tão importante como esse só traria benefícios à população em geral, que no Brasil tanto carece de um trabalho de qualidade no que diz respeito ao jornalismo científico; um trabalho que venha contribuir para a diminuição do chamado analfabetismo científico, transformando a ciência em senso comum, na medida em que seja conhecida e utilizada por todos na tomada de melhores decisões em suas vidas cotidianas.

Notas

1) Em grego, F????s??, algo como inteligência cotidiana, saber divino, consciência de vida, um conhecimento que permite ao ser humano viver melhor, na medida em que sabe tomar as melhores decisões para sua vida.

2) BUENO, Wilson da Costa. Citação retirada do segundo Curso de Jornalismo Científico a Distância, ministrado pelo professor Bueno através de seu site www.comtexto.com.br, no período de 15 de março a 30 de abril de 2005.

3) A interatividade pode ser explorada de várias maneiras por um site jornalístico. A forma mais básica é o chamado "Fale Conosco", ou seja, a comunicação simples entre o internauta e o veículo, através de e-mail ou formulário presentes na página. Dentre as outras formas, as mais comuns são: as enquetes, perguntas sobre assunto específico com opções pré-definidas, que geram um resultado estatístico; os fóruns, onde os internautas discutem assuntos diversos sobre temas específicos; os chats, salas de bate-papo para conversas instantâneas, algumas vezes com convidados ilustres; e as opções de enviar o conteúdo para um amigo e de reportar erros observados na página, que são avaliados e então consertados pela equipe do site.

4) A não-linearidade é a capacidade da internet de cruzar informações similares através de links. Por exemplo, uma notícia na internet pode e deve conter links dentro do próprio texto (i.e. palavras-chave na notícia podem ser links para seu significado) e ao final do mesmo, provendo o internauta com a opção de aprofundar-se no assunto. Com um clique do mouse ele pode aprender mais sobre o tema de sua escolha, sendo direcionado para outras notícias dentro do próprio site onde navega, ou mesmo para o conteúdo de outros sites na web.

5) A Superinteressante, com vários prêmios já recebidos por seu trabalho de infografia, foi a única revista do mundo a ser agraciada com a medalha de ouro Malofiej 2005, na categoria Artes e Cultura, o mais importante prêmio de infografia do planeta.