Volume 3
Número 5

20 de dezembro de 2006
 
 * Edição atual    
Documento sem título

          O lado negativo dos cadernos de ciência

          Durante algum tempo, defendi a existência de cadernos de ciência e tecnologia em nossos jornais e cheguei a festejar, inclusive, a implementação de alguns deles como sinal de que o Jornalismo Científico finalmente havia merecido o reconhecimento de empresários da comunicação e de editores. Mas esse tempo passou e o "boom" prometido não se efetivou. Alguns veículos de prestígio fecharam os seus cadernos (como a Folha de S. Paulo) e outros sequer cogitaram de abri-los, ainda que fosse essa a minha expectativa.

          Hoje, poucos, bem poucos, veículos dispõem de cadernos específicos de ciência e tecnologia ou mesmo editorias especializadas nessa cobertura. O fenômeno chamou a minha atenção e exigiu uma análise mais detalhada. Se é verdade (todo mundo repete isso a cada momento) que a ciência e a tecnologia são, hoje, as mercadorias mais valiosas, se é verdade que a ciência e a tecnologia freqüentam o dia-a-dia dos cidadãos, então por que os meios de comunicação não lhes dedicam maior tempo e espaço? E por que, a não ser em poucos casos, essa cobertura continua sendo pouco qualificada? Por que a ciência e a tecnologia, em sua dimensão mais ampla, não integra o "núcleo duro" da cobertura da mídia?

          Na prática, há muitas razões pelas quais a ciência ainda não ganhou definitivamente status na imprensa nacional. A mais significativa é mesmo a falta de consciência dos donos da mídia e de editores que só contemplam a área quando há fatos sensacionais e, salvo honrosas exceções, vêem meteoros ameaçando o planeta todo dia, revelam sucessivas curas milagrosas do câncer ou confundem pseudociência com coisa séria. Podemos admitir que o analfabetismo científico dos leitores , telespectadores ou radiouvintes também contribui para essa timidez de cobertura e que a isso se agrega a inexistência de profissionais capacitados para dar conta de um espaço maior.

          Mas o que interessa aqui é desmistificar a tese dos cadernos de ciência e de tecnologia. Assim como o meio ambiente e a educação, a ciência e a tecnlogia deveriam, estar nos veículos a partir de uma perspectiva transversal. Ou seja, não segregadas necessariamente em espaços fixos (que deveriam ser reservados apenas para coberturas especiais) , mas integrar o quotidiano das pautas jornalísticas.

          A ciência e a tecnologia deveriam estar na Política, nas Cidades, na Educação, no Agribusiness, no Esportes, na Economia, enfim deveriam respaldar matérias que exigem ou prescindem deste olhar e deste conhecimento. Se essa fosse a realidade hoje, teríamos tido uma melhor cobertura do acidente do Metrô paulistano, teríamos uma explicação menos esotérica do rompimento da barragem da Cataguazes ou ainda informações mais consistentes sobre o controle do tráfego áreo no Brasil e mesmo sobre a explosão da unidade Tamaron da Bayer.

          Por não assumir esta perspectiva lógica e racional (por que não cética?), por não recorrer às fontes especializadas (particularmente as independentes) e sobretudo não praticar esse olhar investigativo, que transcende a mera divulgação dos fatos, o Jornalismo Científico acaba ficando reduzido a matérias muitas vezes insossas nas poucas páginas e cadernos de ciência e tecnlogia e não agrega qualidade à informação jornalística diária (ou instântanea no caso do jornalismo on line).

          Talvez, pensando bem, a idéia de cadernos de ciência e tecnologia mais contribui para esvaziar a área do que para enriquecê-la, já que torna a cobertura um fato singular, certamente excluindo a leitura e a audiência de milhões de brasileiros. Em vez de criarmos mais cadernos e esperarmos que apareçam interessados, é mais razoável incluirmos este olhar nas matérias em geral que estamos produzindo e irmos buscar o leitor, o radiouvinte e o telespectador em qualquer lugar.

          A ciência e a tecnologia precisam ser retiradas destes nichos e contaminar toda a cobertura. O Jornalismo Científico não pode cultivar seus quetos mas dialogar com toda a redação. Especializado sim, mas segregado não.

 

 
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