Volume 3
Número 5

20 de dezembro de 2006
 
 * Edição atual    
Documento sem título

          Jornalismo Científico e Psiquiatria

por Marco Aurélio Lessa Villela, aluno da disciplina de Jornalismo Científico
da Escola de Comunicações e Artes da USP.

           Paula Villela Nunes é médica psiquiatra e pesquisadora da USP.

           "Os interesses pessoais e os oportunismos deveriam permanecer distantes do Jornalismo Científico". Paula Villela Nunes.

           O melhor conhecimento da função neural e da genética abre novas possibilidades terapêuticas de caráter preventivo", porém "para aplicações clínicas infelizmente ainda estamos distantes". Todavia, essa realidade não é sempre levada em conta, especialmente por mídias ávidas por notícias bombásticas. "É comum um certo sensacionalismo tipo 'descoberta a cura para a doença de Alzheimer', quando na verdade foi revelado apenas um tipo de tratamento para um tipo específico de população". Esse é o diagnóstico apresentado por Paula Villela Nunes, médica psiquiatra, doutora pela Universidade de São Paulo, pesquisadora do Laboratório de Neurociências (LIM-27) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo..

           Segundo ela, a atual cobertura da ciência pela mídia é satisfatória, ao menos em termos quantitativos , tanto na televisão, quanto em jornais, internet etc., e existem "publicações de excelente qualidade - com destaque para a revista Pesquisa Fapesp, que dá um apanhado geral sobre o tema tratado e abre a possibilidade de aprofundamento por meio de referências ou 'links'". Ela cita também, pelos mesmos motivos, a Revista do Hospital das Clínicas , acrescentando que "cada vez mais encontramos 'websites' institucionais com muitas informações úteis".

           A imprensa peca, contudo, pela superficialidade com que trata os temas da área, não exercendo efetivamente aquela que seria sua tarefa primordial: propiciar uma visão de conjunto, contextualizar aquilo que se noticia, e não somente realizar a "tradução" das pesquisas para uma linguagem acessível. Isso acontece também porque é comum que os pesquisadores acabem por se aprofundar em excesso em seu objeto de estudo, o que torna mais complicada a interação com os profissionais de imprensa. Além do sensacionalismo excessivo já citado anteriormente, expresso por chamadas do tipo "encontrando o gene da obesidade", é preciso ressaltar o aspecto comercial das mídias, que por vezes supera o que deveria ser o seu papel cidadão de comunicar ciência.

           O relacionamento entre cientistas e jornalistas, segundo a pesquisadora, ( que já teve uma experiência positiva com entrevista cedida por e-mail para a Nature) é "saudável, hoje em muito facilitado pela internet". No entanto, ainda existe, reconhece Paula Villela, por parte dos pesquisadores, "o receio de que os dados sejam mal compreendidos ou publicados parcialmente, com a ausência de informações e conceitos importantes para a compreensão do tema", receio esse que não parece infundado. Ela sugere que os jornalistas devam, em sua formação, "ter acima de tudo uma boa base humanística em Português, Lógica e Filosofia", instrumental que lhes permitiria "a avaliação até de conceitos técnicos ligados às áreas exatas e biológicas".

           Caso essa formação fosse a regra, certamente o problema seria minimizado e a divulgação ocorreria da melhor forma possível, com o enriquecimento da interação e do diálogo entre o pesquisador - que, em geral, se sente reconhecido ao ter seu trabalho divulgado - e o jornalista.

           Como mais um elemento complicador em sua área de atuação, Paula Villela aponta "a dificuldade de se entender as questões ligadas à saúde mental", que estariam relacionadas "às múltiplas influências que sofre de aspectos sócio-culturais, de experiência pessoal e de inter-relações (psicologia) , além das possibilidades que a biologia do corpo oferece (genética)". "Ainda temos um longo caminho a percorrer no conhecimento da biologia e da sociologia do ser humano", segundo ela, e "cada vez mais poderemos aperfeiçoar as práticas psicoterapêuticas e possibilidades de tratamentos físicos (como por exemplo a eletroconvulsoterapia ou estimulação magnética transcraniana) e neuroquímicos (como os remédios)".

           Que fique claro aos desavisados que a eletroconvulsoterapia, vista pela pesquisadora como promissora, não tem nada a ver com as técnicas condenáveis apresentadas em filmes como "Bicho de Sete Cabeças", às quais a comunidade científica se opõe firmemente.

           Paula Villela ressalta ainda a questão dos interesses pessoais e oportunismos, que "deveriam permanecerA distantes do Jornalismo Científico". Infelizmente, as coisas não são bem assim. Talvez isso ocorra pela forma como se dá a avaliação do mérito acadêmico, priorizando quantidade em detrimento da qualidade. Pesquisadores que buscam a ascensão e prestígio na carreira acadêmica precisam escrever muitos artigos em revistas indexadas, precisam ser produtivos, caso contrário não conseguir atingir o seu objetivo. Como eles "precisam publicar e os menos éticos podem fazer isso a qualquer custo", a situação pode tornar-se grave, sobretudo se consideramos que "os conhecimentos - e isso não ocorre apenas na área de neurociências e psiquiatria - podem virar produtos com apelo comercial". A ânsia pela divulgação de produtos e a postura de "empresas líderes, que não têm interesse que os seus produtos sejam prejudicados de forma alguma", acabam por interferir na "neutralidade" do Jornalismo Científico. Tal fato ocorre seja porque o jornalista tem vínculos com as partes interessadas na divulgação, seja porque, por desconhecimento, divulga resultados de pesquisa que em si são deturpados.

           A pesquisadora ressalta a diversidade como "um dos bens mais importantes da humanidade", opondo-se, como cientista, a dogmatismos de qualquer ordem, sejam eles políticos, religiosos etc.

           Isso não significa, explica ela, que se deva aceitar qualquer estudo como digno de consideração, já que não vivemos em um mundo ideal e as pessoas são, muitas vezes, movidas por interesses pessoais. Nesse caso, observa-se um conflito com o posicionamento defendido (e adotado) pela pesquisadora: "devemos ser livres, corajosos e intuitivos para elaborar hipóteses, mas precisamos de muita cautela, persistência e rigor científico na hora de testá-las". Sobretudo na hora de divulgar os resultados, especialmente para um jornalista!

           Brincadeiras à parte, isso não deixa de ser verdade em muitos casos, especialmente no Brasil, onde infelizmente há escassez de profissionais capacitados trabalhando na área.

           Que as reflexões e sugestões de Paula Villela Nunes sejam objeto das devidas considerações.

 

 
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