Volume 1
Número 1

20 de dezembro de 2004
 
 * Edição atual    
Documento sem título

          Jornalismo Científico e Sociedade: conversando com Luisa Massarani

Luisa Massarani é jornalista especializada em ciência e tecnologia. Mestre em ciência da informação pelo IBICT/UFRJ e doutora pelo Departamento de Bioquímica Médica/UFRJ. Coordena o Centro de Estudos do Museu da Vida (www.museudavida.ufrj.br), ligado à Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, e portal latino-americano de SciDev.Net (www.scidev.net). Conjuga atividades práticas e de pesquisa, tem como linhas de estudo a história da divulgação científica no Brasil, aspectos contemporâneos da divulgação científica no Brasil e percepção pública da genética.

Ciência & Comunicação: Há quem defenda que os centros geradores de C & T (universidades, empresas e institutos de pesquisa), com raras exceções, não têm uma cultura de comunicação. Baseada na sua experiência, você concorda com essa afirmação? Se sim, arriscaria alguns motivos pelos quais isso acontece? Se não, justifique, por favor.

Luisa Massarani: Eu arriscaria dizer que a afirmação é correta. Os centros geradores de C&T ainda estão bastante tímidos no que se refere a criar estratégias de comunicar temas de ciência e tecnologia para o público geral. Isto, em geral, é feito mais por indivíduos que por razões diversas buscam fazer divulgação científica – e menos por um esforço institucional.

Em parte, creio que isto é conseqüência de uma questão cultural mais ampla. O sistema de C&T brasileiro, neste presente momento, não valoriza a divulgação científica. O mesmo não ocorreu em outros momentos da história da ciência brasileira. Na década de 20, por exemplo, a comunidade científica usou a divulgação científica como uma ferramenta importante para consolidar a comunidade científica – ainda embrionária na época – e seus interesses. A boa notícia é que creio que a comunidade científica e o sistema de C & T de uma maneira geral está mais sensível à divulgação científica do que há 20 anos. No que se refere especificamente à relação desses centros geradores de C&T com a imprensa, creio que ainda precisamos incrementar o papel dos assessores de imprensa. Alguns desses centros já possuem assessores de imprensa, mas a grande maioria não. E muitas vezes a assessoria de imprensa não tem agilidade para responder prontamente a demanda.

Ciência & Comunicação: A cobertura de C & T, levando em conta a grande imprensa, tem, a seu ver, melhorado, ou seja, a qualificação das informações em C & T na mídia tem estado num atamar superior ao que se encontrava há, por exemplo, 5 anos?

Luisa Massarani: Esta é uma pergunta perigosa... Em termos numéricos, o que observamos é um aumento substancial de notícias de C & T inclusive em espaços não diretamente relacionados com C & T, como quadrinhos, crônicas etc. Se entendemos divulgação científica de uma forma mais ampla, com seu potencial de despertar o interesse das pessoas por temas de C & T e de colocar em debate temas de C & T – em contraposição a fornecer conteúdos específicos de C &T –, creio que a grande imprensa tem feito um trabalho importante. Por outro lado, em particular na grande imprensa observa-se a retirada de atores importantes do jornalismo científico. Os atuais jornalistas são, em muito casos, menos preparados e têm capacidade mais reduzida de colocar a C &T em discussão de forma mais interessante, menos contemplativa, mais crítica, mais incorporada a cultura.

Ciência & Comunicação: Como avalia a incidência de interesses extracientificos na produção de C& T e, sobretudo, na divulgação em C & T? O Jornalismo Científico sofre alguma ameaça real, hoje em dia, do marketing da ciência? Ele anda refém das fontes ou tem assumido uma postura crítica?

Luisa Massarani: O jornalismo científico praticado em nosso país – e em outros países – ainda é muito contemplativo e, digamos, entusiasmado com as maravilhas da ciência. O papel do jornalista científico, a meu ver, não é ser porta-voz da comunidade científica. O jornalista científico tem voz própria e deve usá-la. Isto não quer dizer que estamos aqui para malhar a C & T. Creio que nenhum de nós tem dúvidas de que a ciência e a tecnologia têm um papel fundamental no desenvolvimento do país. Mas devemos discutir de forma mais aprofundada o impacto da C & T na sociedade. Outro ponto importante é a ausência de questões de C & T relacionadas ao nosso país e ao nosso continente. Publicamos muitas vezes questões irrelevantes só porque tem o aval de uma universidade norte-americana ou européia, em detrimento a nossos próprios interesses e necessidades. Neste sentido, creio que os serviços de notícias como os criados pelas revistas Nature, Jama e Science têm um efeito colateral que deve ser considerado. Por um lado, veiculam informações importantes que passaram por um processo de peer-review, que, embora não infalível, dá uma qualidade razoável ao material. Por outro lado, estimula a preguiça dos jornalistas (que passam a contar com um material razoavelmente confiável em mãos) e, ainda, deixa de lado questões nacionais e regionais.

Ciência & Comunicação: A Internet tem, efetivamente, propiciado alternativas novas em termos de divulgação de C & T ou ela apenas tem reproduzido as experiências tradicionais em outro formato? Que aspectos aponta como relevantes na divulgação científica via Web? Que experiências destaca como referência na Web?

Luisa Massarani: A Internet é uma ferramenta fundamental tanto para a divulgação científica como para o trabalho do jornalista especializado em ciência e tecnologia. Para a divulgação científica, é uma ferramenta a mais que o público pode acessar – e em várias línguas. Para o trabalho do jornalista especializado em ciência e tecnologia também foi uma mudança importante. Hoje, conseguimos rapidamente checar informações em sites confiáveis ou por email, particularmente se somos capazes de ler textos em outras línguas. Além disto, é possível fazer uma reportagem séria e aprofundada unindo depoimentos de especialistas de vários países. Isto é particularmente interessante quando observamos que, por questões culturais, cientistas dos Estados Unidos e eventualmente de países europeus respondem muito mais rapidamente a mensagens que cientistas brasileiros. Mas a Internet não é a panacéia que muitos esperavam. Ela não vai resolver os problemas e desafios enormes que enfrentamos para superar as desigualdades sociais ou para democratizar amplamente a informação. A Internet é uma ferramenta fundamental para a divulgação científica e deve ser usada em associação com os demais instrumentos, considerando-se suas vantagens e desvantagens.

Ciência & Comunicação: O Governo Lula está, diferentemente dos governos anteriores, buscando priorizar o processo de divulgação científica e, por conseguinte, o processo de democratização do conhecimento científico. Esta percepção é correta? Em que medida observa uma maior disposição e vontade política por parte do Governo para contribuir com o incremento da massa crítica no Jornalismo Científico e na Divulgação Científica?

Luisa Massarani: O Governo Lula está, sem dúvida, fazendo um trabalho importante na área de divulgação científica. A criação de um departamento voltado para esta área dentro do Ministério de Ciência e Tecnologia é um símbolo disto. É também emblemática a criação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que reúne este outubro pelo menos 1.400 atividades em todo país. Observamos também, desde o ano passado, uma alocação maior de recursos para a área. Mas é apenas o início. Precisamos de um esforço governamental mais intenso e sistemático nesta área.

Ciência & Comunicação: Quais os principais desafios do Jornalismo Científico brasileiro e qual o papel a ser desempenhado pelas escolas de Jornalismo para superá-los? Jornalismo Científico se aprende na escola?

Luisa Massarani: Em minha avaliação, o principal desafio do jornalismo científico é encontrar seu seu próprio espaço e papel. Como mencionei antes, não acredito que sejamos meramente porta-voz da comunidade científica. Precisamos desenvolver estratégias mais eficientes para colocar em debate temas de C & T – o que não é tarefa fácil, particularmente quando consideramos as limitações intrínsecas da profissão, tais como tempo e espaço reduzidos, incompreensão por parte do editor/chefe etc. Sim, creio que Jornalismo Científico se aprende na escola... mas entendo "escola" como algo muito amplo... É muito comum no Brasil que os profissionais da divulgação científica sejam muito "intuitivos", ou seja, que vão fazendo conforme os desafios cotidianos. O que defendo é que os jornalistas especializados em ciência e tecnologia busquem refletir mais sobre sua prática profissional e como aperfeiçoá-la. Isto não quer dizer que todos os jornalistas especializados em ciência e tecnologia devem ir para uma escola de jornalismo científico científico ou necessariamente fazer mestrado ou doutorado. Acredito que devamos ter, sim, uma escola de jornalismo científico, mas não acho que deva ser obrigatória. O aperfeiçoamento profissional pode ser feito de várias formas. Aliás, uma de minhas tarefas a frente do Centro de Estudos do Museu da Vida, ligado à Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, é buscar ferramentas para tentar estimular o aperfeiçoamento profissional de jornalistas especializados em ciência e tecnologia e divulgadores de uma forma mais ampla. Isto pode ser feito de formas variadas: palestras, cursos, livros, artigos e cursos formais de mestrado e doutorado. Ressalte-se que justamente este mês lançamos juntamente com Cornell University (Estados Unidos) um curso de divulgação científica mundial, cuja versão piloto será administrada simultaneamente nos Estados Unidos, no Brasil (Fiocruz), na África do Sul e no México. Usaremos tanto videoconferências como palestras e aulas regionais, buscando atender às nossas especificidades. Em breve, estaremos anunciando o curso, mas pessoas interessadas podem entrar em contato comigo.

Ciência & Comunicação: Há quem acredite que o processo de segmentação da mídia , que conduz, por exemplo, a cadernos especializados, como o de ciência, de alguma forma contribui para distanciar os leitores não iniciados. Você é a favor dos cadernos, dos programas especiais de ciência ou acredita ser mais adequado integrar a cobertura de ciência à pauta diária?

Luisa Massarani: Acho importante as duas coisas. É importante ter cadernos/seções specializadas em ciência e tecnologia, de forma a dar mais ênfase à área e a uma equipe especializada, bem como permitir que leitores interessados possam encontrar mais facilmente seu nicho. Mas também é fundamental difundir textos de ciência e tecnologia nas mais variadas editorias (esportes, cadernos dedicados à mulher, cadernos dedicados a crianças, quadrinhos etc.), atraindo também leitores que dificilmente chegam às editorias de ciência. Em levantamento que realizamos das matérias publicadas na área de genética em 2000 e 2001, por exemplo, identificamos matérias preciosas nas mais variadas editorias..

Ciência & Comunicação: O jornalismo científico é (ou deve ser) uma tradução para o leigo do discurso científico ou é um outro discurso construído pelo jornalista ou comunicador da ciência? O papel do jornalista científico é, sobretudo, o de decodificador ou você vislumbra outra perspectiva para o trabalho do profissional que divulga ciência?

Luisa Massarani: Acho limitada a definição do jornalismo científico como mera tradução para o leigo do discurso científico. O jornalista não é um tradutor: ele é um profissional que tem a imensa tarefa de instigar o debate, de forma inteligente e crítica, sobre temas de ciência e a tecnologia, em particular quando suas aplicações têm impacto importante na sociedade.

Ciência & Comunicação: Descreva, ainda que em poucas linhas, a sua experiência no Museu da Vida da Fiocruz e no Scidev. ( Dê alguns dados sobre o trabalho, o retorno do trabalho e , se houver novidades que virão por aí, dê-nos algumas dicas.)

Luisa Massarani: Creio que descrevi o trabalho na Fiocruz na pergunta 7. Reproduzo aqui: "Aliás, uma de minhas tarefas a frente do Centro de Estudos do Museu da Vida, ligado à Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, é buscar ferramentas para tentar estimular o aperfeiçoamento profissional de jornalistas especializados em ciência e tecnologia e divulgadores de uma forma mais ampla. Isto pode ser feito de formas variadas: palestras, cursos, livros, artigos e cursos formais de mestrado e doutorado. Ressalte-se que justamente este mês lançamos juntamente com Cornell University (Estados Unidos) um curso de divulgação científica mundial, cuja versão piloto será administrada simultaneamente nos Estados Unidos, no Brasil (Fiocruz), na África do Sul e no México. Usaremos tanto videoconferências como palestras e aulas regionais, buscando atender às nossas especificidades. Em breve, estaremos anunciando o curso, mas pessoas interessadas podem entrar em contato comigo." No SciDev.Net (www.scidev.net), coordeno o portal latino-americano. Essencialmente, meu trabalho consiste em três frentes interligadas: produzir material jornalístico sobre temas de C & T da América Latina (tarefa na qual conto com uma rede de colaboradores free-lance); buscar o maior número de parcerias possíveis em divulgação científica; coordenar a realização, em geral em estreita parceria com organizações regionais, de encontros nos distintos países do continente, de forma a colocar em debate os principais desafios da profissão, bem como identificar atores importante na área no continente. Neste sentido, estão previsto três encontros em 2005. Um deles deve ser no México; outros dois estão em fase final de discussão.

 

 
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