<% pagina = "http://" & request.ServerVariables("HTTP_HOST") & request.ServerVariables("URL") %> Ciência & Comunicação - Comunicações
Volume 3
Número 4

20 de julho de 2006
 
 * Edição atual    

          Divulgação Científica e Saúde, por Natália Favrin Keri

           Ana Cláudia de Assis Rocha Pinto é doutora em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo na área de Endocrinologia. Atualmente ela é diretora do Personal System Care Plus, programa de pesquisa privado, pertencente a uma empresa que comercializa planos de saúde, que estuda a prevenção de doenças como diabetes e hipertensão. A pesquisadora é membro do American College of Preventive Medicine. Em entrevista realizada no dia 11 de abril de 2006, a endocrinologista e pesquisadora falou das diferenças entre a divulgação das pesquisas realizadas em âmbito privado e em âmbito universitário. Ana Cláudia realizou sua graduação em Medicina na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na Faculdade de Medicina de Sorocaba. Fez, então, pós-graduação na Unifesp, dando aulas nesta instituição entre 1983 e 1999. Durante a pós-graduação, ela publicou diversos artigos em revistas internacionais sobre o desenvolvimento de suas pesquisas. No endereço eletrônico PubMed (1), mecanismo de busca de artigos científicos da área de medicina, há 7 artigos cadastrados pela pesquisadora, todos em língua inglesa.

           Ana Cláudia afirma que escolheu veículos como Journal of Endrocrinological Investigation ou o The Journal of Clinical Endovrinology and Metabolism para encaminhar os seus artigos, devido ao grande prestígio destas publicações. Segundo ela, o pesquisador da área médica só é efetivamente reconhecido por seu trabalho, quando publica um artigo nesses meios de comunicação.

           Ana Cláudia ressaltou que a consagração de ter um artigo científico publicado em revista internacional impõe uma série de dificuldades, desde a redação correta em língua inglesa até o enquadramento do estudo nos padrões exigidos pelas publicações. A pesquisadora acredita que até existem revistas científicas nacionais boas, mas a falta de rigor na seleção de trabalhos e a maior facilidade de publicação diminuem o prestígio, a credibilidade e a qualidade das informações dos veículos nacionais.

           O orientador do projeto de pesquisa de pós-graduação tem um papel essencial de estímulo à divulgação do andamento dos trabalhos. Ela conta que o departamento de endocrinologia da Unifesp tem uma tradição de publicar o conhecimento ali gerado. Outra dificuldade para a divulgação científica, segundo Ana Cláudia, é o fato de que "no Brasil, o pesquisador faz tudo", desde a coleta de material clínico até a contabilidade do projeto, ficando um tempo escasso para a preparação de material de divulgação. Uma pesquisa é fruto de um dispêndio de dinheiro público e de um desgaste emocional muito grande, sendo "uma obrigação quase moral publicar seus resultados".

           Em seu projeto atual, no Personal System, Ana Cláudia desenvolve trabalhos que poderiam ser publicados. No entanto, sofre restrições na divulgação por ser uma pesquisa de caráter privado. As restrições surgem principalmente do medo de alimentar a concorrência com os dados publicados. Outros entraves são as dificuldades em se obter o consentimento informado dos participantes da pesquisa. Como Ana Cláudia é uma pesquisadora da área de saúde, suas pesquisas envolvem a observação e participação de pacientes. Para que a pesquisa seja publicada, é necessário que cada um dos participantes aceite a publicação. A endocrinologista acredita que as pessoas não estão habituadas aos procedimentos científicos e à pesquisa na área de saúde, o que dificulta a obtenção do consentimento.

           Durante sua vida profissional e acadêmica, Ana Cláudia entrou em contato com a mídia em diversas ocasiões. Em anexo, há uma das reportagens em que ela foi fonte, intitulada "Enquanto você dorme" e publicada na Revista Criativa da Editora Globo, na edição 199, em 03/11/2005. Ela conta que todos os contatos com jornalistas foram muito gratificantes e que, em suas experiências pessoais, houve um relacionamento "bem bacana". Ela relata que a maioria dos jornalistas enviou a matéria para ela realizar eventuais correções antes de ser publicada.

           A pesquisadora sente como muito positiva a divulgação de assuntos relacionados à saúde nos meios de comunicação. Alerta, porém, que as informações oferecidas pela mídia devem servir como estímulo para que as pessoas busquem orientação médica. Tendo em vista a grande quantidade de informações disponíveis sobre saúde, uma das tarefas do médico é indicar fontes de informação seguras ao paciente. O avanço da internet, por exemplo, faz com que os pacientes tenham um maior acesso aos dados sobre saúde, nem sempre confiáveis.

           Como endocrinologista que também atua na área clínica, Ana Cláudia observa que a falta de tempo nas consultas e a ausência de vínculos com o médico, causadas pela precariedade das condições de trabalho do profissional de medicina, fazem com que o paciente muitas vezes confie mais nos meios de comunicação que no próprio médico.

           A pesquisadora acredita que há quantidade suficiente de informações sobre saúde na mídia. Devido à sua atual pesquisa, ela recolhe matérias sobre a prevenção de doenças. Ela relata que houve um grande crescimento de publicação de reportagens sobre saúde durante os últimos sete anos, sendo atualmente muito raro encontrar uma edição de revista semanal em que não haja uma matéria ligada a esse assunto.

           Ana Cláudia aponta alguns fatores que podem prejudicar a credibilidade e a precisão das informações na mídia: em primeiro lugar, a reportagem é a interpretação de dados técnicos por uma pessoa leiga, não podendo ser tomada como expressão de uma verdade absoluta; em segundo lugar, em diversas reportagens pode-se perceber que há a articulação de interesses comerciais de hospitais e laboratórios, que colocam sua auto-promoção acima da precisão das orientações. Como um exemplo deste segundo caso, ela apontou uma matéria da revista Veja que indicava a todos os maiores de 40 anos um exame de colonoscopia, medida considerada desnecessária por boa parte da classe médica. Por trás da indicação, transparecem os interesses do único hospital que realiza tal exame. Em anexo, há uma cópia da matéria de Veja, "Check-up: você ainda vai fazer um", publicada na edição 1799 em 23 de abril de 2003 (2).

           Na área de saúde, Ana Cláudia indica dois veículos de informação brasileiros que, na sua opinião, desenvolvem um ótimo trabalho de divulgação científica. O primeiro é voltado para os profissionais de saúde: é o Projeto Diretrizes (3), uma espécie de livro de medicina on-line que funciona como um guia de conduta para médicos em diversas ocasiões. O segundo, voltado para o público em geral, é o endereço eletrônico do Hospital do Câncer (4), que oferece orientações para toda a população.

           Os problemas na cobertura de ciência e tecnologia, principalmente na área de saúde, seriam minimizados com um esforço, por parte do jornalista, em manter-se bem informado, tanto sobre os assuntos básicos da medicina, quanto sobre as articulações econômicas que também permeiam este campo. Para a pesquisadora, a leitura prévia de informações sobre o assunto a ser abordado, a fim de se elaborar as perguntas certas à fonte e de se compreender as respostas da mesma, melhoraria tanto a cobertura quanto o relacionamento entre o pesquisador e o jornalista.

           Ana Cláudia afirma que, se por um lado "é a obrigação do profissional de saúde fazer-se entender", por outro lado, o jornalista que se dedica à área de saúde precisa ter em sua formação pessoal uma bagagem básica de assuntos relacionados à medicina. Ela conta que, em geral, não há uma preocupação da escola médica em preparar os futuros médicos e pesquisadores para trabalhos de divulgação científica nem para o relacionamento com a mídia. A disposição para um trabalho de parceria com a imprensa parte do bom senso de cada pessoa.

           Ana Cláudia observa que, quanto mais distante o pesquisador está do paciente, mais dificuldade ele sente em traduzir o palavreado técnico para leigos e, portanto, mais dificuldade tem em cooperar com a divulgação científica voltada para o público em geral. Ela ainda aponta que entre as antigas gerações de médicos havia uma espécie de orgulho profissional que fazia com que vissem o relacionamento com a mídia como algo desagradável. A nova geração, ela garante, percebe a necessidade de compartilhar seus conhecimentos e procura cooperar com a mídia.

           Notas

1) PubMed - www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi - consultado em 22/04/2006

2) A matéria também está disponível no endereço http://veja.abril.com.br/230403/p-074.html - consultado em 22/04/2006

3) www. projetodiretrizes.org.br - consultado em 22/04/2006

4) www.hcanc.org.br - consultado em 22/04/2006.

 

 

 
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